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Uma Entrevista Exclusiva com o Dono de Coffee Shop Holandês Sentenciado a 103 anos Numa Prisão Tailandesa

Johan Van Laarhoven foi condenado por gastar na Tailândia o dinheiro que ele ganhou vendendo maconha na Holanda. Conversei com ele no Hospital Geral da Polícia, duas semanasdepois do tribunal criminal tailandês condená-lo por lavagem de dinheiro.

por Alexandra Verwall
07 Dezembro 2015, 3:30pm

O Hospital Geral da Polícia em Bangkok. Todas as fotos pela autora.

É um dia ensolarado em Bangkok. A estação das chuvas finalmente deu lugar ao inverno seco e quente da Tailândia. A cidade está calma, esperando a horda de turistas que chega em dezembro. Até o geralmente movimentado templo Erawan, no centro da cidade, está calmo. Esse é o lugar onde uma bomba foi detonada em agosto, matando mais de vinte pessoas. Desde o ataque, o templo se tornou ainda mais popular entre os turistas.

Do outro lado da rua, o holandês Johan van Laarhoven (55 anos) entra no Hospital Geral da Polícia. Duas semanas atrás, o tribunal criminal tailandês o considerou culpado de lavagem de dinheiro e acrescentou uma condenação de 103 anos à sua prisão preventiva de 15 meses (ele deve passar 20 anos preso). Johan diz ser inocente.

Em 2011, Van Laarhoven vendeu a Grass Company, sua cadeia de cinco coffee shops na província holandesa de Noord-Brabant. Na época da venda, Van Laarhoven já morava na cidade tailandesa de Pattaya com sua esposa Tukta e seus dois filhos, de 12 e 6 anos. Não muito tempo depois disso, a promotoria holandesa (Openbaar Ministerie) lançou uma investigação contra a Grass Company por lavagem de dinheiro. Durante os anos de investigação, nenhuma evidência foi encontrada para condenar Van Laarhoven ou seus sócios na Holanda.

Van Laarhoven e o Openbaar Ministerie concordaram que, se ele fosse chamado para depor sobre o caso novamente, ele teria de se apresentar na Holanda dentro de cinco dias depois do pedido. O que não viria a acontecer: segundo a rede holandesa Omroep Brabantreports, após um pedido de um advogado do Openbaar Ministerie, as autoridades tailandesas lançaram a própria investigação contra Van Laarhoven. Dias depois, ele e a esposa foram presos em sua casa, em Pattaya.

Agora, 15 meses depois, Van Laarhoven foi condenado por gastar na Tailândia o dinheiro que ele ganhou vendendo maconha na Holanda. A venda de cannabis em coffee shops é legal na Holanda, e a política "gedoogbeleid" garante que as autoridades façam vista grossa quando coffee shops compram produtos de comerciantes ilegais. No entanto, o veredito do tribunal tailandês ignora essa política, concluindo que dinheiro ganho com venda de drogas é obrigatoriamente dinheiro ilegal. Portanto, gastar isso é crime.

Essa é a história que me levou ao Hospital Geral da Polícia de Bangkok, que Van Laarhoven visita semanalmente devido à deterioração de sua saúde. Eu tinha comparecido ao julgamento de Johan e Tutka como repórter para uma rede holandesa na semana anterior. Como eu era a única jornalista lá, a família de Johan me abordou perguntando se eu gostaria de entrevistá-lo. Eles estão desesperadamente procurando atrair a atenção da mídia, já que se sentem abandonados pelo Estado holandês. Eles me disseram que Johan visitaria o hospital em determinado dia e que eu provavelmente conseguiria falar com ele lá, sem ter de submeter um pedido de entrevista às autoridades tailandesas.

Então, me vi sentada ao lado de Johan na sala de espera do hospital – com meu gravador escondido embaixo de um caderno. Comecei com a pergunta que parecia fazer mais sentido dado o cenário: "Você está bem?". Entretanto, mesmo uma pergunta simples como essa pareceu demais, e Van Laarhoven precisou de um tempo para encontrar as palavras. Alguns segundos depois, ele me respondeu: "Não sei. Desde que eu não pense nisso, estou bem. Aí penso na minha mulher, nos meus filhos, na minha mãe de 83 anos, em toda a minha família – minha vida foi destruída. E pelo quê?".

A esposa de van Laarhoven também foi condenada – ela deve passar 12 anos presa. A assinatura de Tukta está nos contratos da compra da propriedade deles na Tailândia. Como cidadã tailandesa, ela assinou os documentos porque a lei do país não permite que estrangeiros comprem terras. "Se eu soubesse que seria acusado de lavagem de dinheiro, eu nunca teria permitido que ela assinasse aqueles papéis", ele frisa. "Decidimos vir para a Tailândia em 2008. Minha esposa estava grávida, e eu não sentia a necessidade de me tornar o homem mais rico do mundo. Eu tinha bastante dinheiro – mais do que podia gastar. Escolhemos viver na Tailândia porque achamos que seria um lugar onde poderíamos passar todo nosso tempo com as crianças. Quando os bancos da Europa entraram em colapso, achei que seria melhor me mudar e investir em terras. Pensei que essa seria uma decisão inteligente."

Leia abaixo o resto da nossa conversa.

Johan van Laarhoven e seu advogado no Hospital Geral da Polícia de Bangkok.

VICE: Uma semana atrás, um tribunal tailandês te sentenciou a 20 anos de prisão. Você estava preparado para esse resultado?
Johan van Laarhoven: Não. Eu tinha certeza de que iríamos para casa. Porque sei que sou inocente, mas também porque não havia nenhuma evidência de que fiz algo errado. Mesmo as testemunhas da promotoria disseram que não sabiam que lei tínhamos desobedecido na Tailândia e o que tínhamos feito de errado na Holanda.

Então por que você acha que foi condenado?
Logo no começo, senti que estavam armando algo contra nós. Mas eu não sei por quê. Não fiz nada de errado. Veja minha cadeia de coffee shops: nosso modelo de negócio foi construído de tal maneira que poderia ser aplicado na Holanda e no exterior. A polícia visita nossas lojas quando faz tours com forças policiais ou oficiais do governo. Éramos considerados um exemplo positivo. Ainda estou usando o termo "nós", pois, apesar de ter vendido a empresa, ainda sinto que isso é o trabalho da minha vida.

Você foi condenado por lavagem de dinheiro.
Nenhum dinheiro foi lavado. E, mesmo se tudo que a promotoria holandesa acha que fizemos fosse verdade, meu advogado diz que pegaríamos um ano numa prisão de lá, no máximo. Mas a maior parte do que eles estão me acusando aconteceu depois que vendi a empresa. Eu não tinha nada a ver com isso. E como eu poderia estar lavando dinheiro se estava pagando os impostos sobre isso? Se um crime foi cometido no meu caso, consequentemente a autoridade fiscal holandesa é cúmplice. A Suprema Corte holandesa determinou que a renda ganha com a exploração de uma coffee shop é legal, mesmo se houver muita cannabis no estoque. Considerando essa jurisprudência, fica claro que isso definitivamente não é um caso de lavagem de dinheiro.

Só que isso não impediu sua prisão e a da sua esposa em 2014.
Foi aí que percebi que a promotoria holandesa tinha fodido com esse caso. Do nada, 120 policiais e todos os jornalistas da Tailândia apareceram na nossa porta. Os oficiais foram muito simpáticos depois da prisão. Eles até disseram que provavelmente seríamos libertados sob fiança em alguns dias. Mas isso não aconteceu. E lentamente percebi que esse é um caso político para a Tailândia, não uma punição por alguma coisa.

Depois da sua condenação na semana passada, você foi transferido para uma outra parte da prisão, onde passou os últimos 15 meses. Você tinha feito amigos na sua cela anterior?
Eu falava com algumas pessoas, sim. Embora a maioria dos detentos sejam assassinos, estupradores e membros de gangues. Alguns têm a cara toda tatuada. Havia alguns estrangeiros na minha cela com quem eu falava muito, principalmente sobre nossos casos. Porém, agora que me mudaram de cela, tenho de começar tudo de novo. Divido uma cela com 40 outros homens. Um é da Inglaterra, mas ele foi preso por vender anfetaminas; não é meu tipo de cara, não gosto de drogas pesadas. O resto dos presos é de tailandeses, muitos prisioneiros políticos.

Eu não me importaria em dividir uma cela com pessoas assim, acho. Melhor criminosos do colarinho branco que assassinos, não?
Sim, claro. Também há alguns ex-policiais na cela, embora seja tudo merda política. Muitos deles claramente foram condenados injustamente. Claro, eles poderiam estar envolvidos em casos pequenos de corrupção, mas, se isso fosse crime, todo mundo na Tailândia estaria preso.

Como a transferência aconteceu?
Foi na manhã após o veredito; portanto, foi um choque depois do outro. Eles não me avisaram de nada, só vieram e me levaram. Quando não consegui juntar minhas coisas rápido o suficiente, os guardas jogaram tudo num saco. E me levaram.

Você decidiu apelar do veredito. Essa era sua única opção?
Não foi realmente uma escolha, já que esse é o único jeito de conseguir uma absolvição. Entretanto, é um sistema escroto, criado para deixar o governo ganhar. Se aceitar um acordo de culpa, automaticamente você pega 50% da sentença. Isso significa que muitas pessoas se dizem culpadas mesmo não sendo.

O mesmo vale para a apelação. O rei perdoa prisioneiros todo ano, mas você só pode ser considerado para um perdão se não for um caso em andamento. Para ter uma chance maior de perdão, você tem de trabalhar no seu ranqueamento, que pode ser "médio", "bom", "muito bom" ou "excelente". Se você ranquear como excelente, o tempo depois do qual você pode solicitar um perdão é a metade. Mas, enquanto minha apelação está sendo considerada, não tenho permissão para trabalhar no meu ranqueamento.

Você vai pedir para ser transferido para uma prisão holandesa se a oportunidade surgir?
Não tenho ideia. Acho que não. Não posso deixar minha esposa e filhos para trás.

Os últimos dias no tribunal foram os únicos momentos em que você pôde ver sua esposa – quando ficou algemado a ela. Como foram esses momentos?
Intensos. Tentamos falar um com o outro, embora nada que lembrasse uma conversa real. Mas é melhor que nada. Sempre fico ansioso para ver minha esposa, mesmo que por um curto tempo. Na semana passada, foi ridículo: cinco minutos depois da sentença, eles vieram nos separar. Estávamos em choque. Não tenho ideia de quando a poderei ver de novo.

Johan van Laarhoven.

A apelação vai ser feita por escrito; logo, vocês não vão mais ter momentos no tribunal.
Sim, e a apelação pode levar de um a três anos. Se levar mesmo três anos, significa que estarei preso por quase quatro anos e meio. E por quê? Sou inocente.

Como é sua vida cotidiana na prisão?
Não tenho realmente uma vida. Não sei como descrever isso exatamente. Não há lugar para deitar, está sempre quente; não há lugar para sentar, a comida é horrível. Na cela onde estava antes, eu podia ver um visitante por dia, mas isso foi cortado para uma vez por semana. A única coisa que faço é esperar o dia acabar, e aí há outro dia.

Imagino que isso torne a visita ao hospital o ponto alto da sua semana.
Isso é verdade. Aqui, pelo menos, posso conversar com alguém sem ter grades entre nós.

Seu filho mais velho pode te visitar. As visitas dele ajudam a levantar seu espírito?
Sim, porém começo a chorar quando penso no que isso provoca nos meus filhos. Meus dois filhos mais novos não sabem onde os pais estão. E o que eu posso dizer para eles? "O papai e a mamãe estão na cadeia"? Se eles perguntarem por que, nem sei como explicar. Sempre achamos que seríamos soltos logo; por isso, não dissemos nada a eles. Só que o tempo passa, e continuamos atrás das grades.

Seu irmão, Frans, falou na TV holandesa na semana passada que seria mais humano se eles tivessem te dado a pena de morte.
Se não tivesse mulher e filhos, eu cuidaria disso sozinho. Mas não posso fazer isso com eles. Ainda tenho esperança de que algo ou alguém na Holanda possa nos salvar disso. Foi aí que tudo deu errado – a promotoria holandesa deu informações incompletas ao tribunal tailandês. Espero que algum político holandês tenha a coragem de colocar um fim nisso.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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