A universidade mais antiga do mundo foi fundada por uma mulher muçulmana

Falamos com algumas estudantes da Universidade Al Quaraouiyine, em Marrocos, foi fundada por uma mulher muçulmana em 859, mas que só recentemente começou a aceitar mulheres.

|
abr 8 2016, 8:00pm

Quando a refugiada Fatima al-Fihri fundou a Universidade Al Quaraouiyine em 859, o mundo muçulmano estava no começo dos cinco séculos da Era de Ouro do Islã. Resplandecente em lindos mosaicos, hoje essa é a universidade mais antiga do mundo em funcionamento, entre um labirinto de vielas estreitas na cidade marroquina de Fez.

A Quaraouiyine teria levado a avanços na ciência, matemática e filosofia através de seus ensinamentos centrados no Islã, numa época em que a Europa ainda se arrastava para fora da Idade das Trevas. Essa também é uma das únicas universidades do mundo estabelecida por uma mulher, e uma mulher muçulmana. Alunos notáveis incluem o filósofo judeu Maimônides, o filósofo muçulmano Ibn Rushd e o Papa Silvestre II, que teria introduzido os numerais árabes na Europa depois de um período na universidade no século 10.

É engraçado como milhares de anos podem prejudicar uma reputação. Apesar de ter sido fundada por uma mulher 1.157 anos atrás, estudantes mulheres só recentemente começaram a estudar na Quaraouiyine em números significativos. Para muitos, a imagem pública tão vilipendiada do Islã no Ocidente geralmente se associa ao status das mulheres nos países muçulmanos.

O Broadly conversou com algumas estudantes do departamento da charia islâmica sobre suas experiências na Quaraouiyine e com a educação no Marrocos.

Ilhem Ibrahim, 22 anos, diz que é a primeira mulher de sua família a entrar para uma universidade, "não porque as mulheres são proibidas de estudar, era mais uma tradição social estudar por doze anos e depois se casar; agora você só encontra isso no interior do país".

"Fatima era educada e rica", ela explica. "Ela veio para Fez e deu o dinheiro de sua família para Alá para construir a universidade; ela jejuou pelos 18 anos que a construção levou."

Nos anos após a independência do Marrocos da França em 1956, frequentar a escola se tornou obrigatório no país e a frequência cresceu de apenas 17% para 85% das crianças. Mas apesar das iniciativas atuais do governo, as taxas de evasão ainda são altas e quase uma em cada duas mulheres é analfabeta. Em áreas rurais, onde nove em cada dez mulheres não sabem ler ou escrever, a escola faz pouco sentido econômico.

Leia mais: Como a islamofobia atinge mais as mulheres muçulmanas

Ainda há bem mais estudantes homens na Quaraouiyine, mas Ibrahim diz que não se orgulha particularmente por ser uma estudante mulher. "Não acho que há mais dificuldades para as mulheres; há mais homens aqui, mas isso é por acaso", ela diz.

Asmaa, 20 anos, vê seus estudos na Quaraouiyine menos como uma escolha. "Alá me guiou para estudar a charia e graças a Deus gostei. Agora quero ensinar a charia, mas também poderia usar isso para trabalhar com justiça, com a comunidade. Há muitas oportunidades."

Duas mulheres tiram uma selfie na Quaraouiyine.

Apesar de Asmaa também ser a primeira mulher de sua família a frequentar uma universidade, ela diz que o sucesso de suas colegas na Quaraouiyine depende apenas de sua ambição. "Mentalidades mudam, quero fazer algo da minha vida e minha família me apoia", ela diz.

Em Marrocos, os "fassis" têm reputação de eruditos. Os filhos e filhas culturalmente dotados de Fez se orgulham de sua antiga capital e ainda conseguem papéis de destaque no governo e na sociedade, apesar da França ter mudado a sede do governo para Rabat em 1912.

E é sua reputação que explica algumas das anomalias de educação para mulheres na cidade. A estudante de Quaraouiyine Jihad, 20 anos, diz que sua mãe e avó frequentaram a universidade. "Era muito raro, mas minha família sempre teve a mente aberta. A primeira palavra que Alá disse ao Profeta foi 'Iqra' [leia]... Na verdade eu queria estudar economia, mas essa faculdade estava cheia então vim para cá."

Espantando as abelhas de seu chá no Clube de Professores de Fez, a professora Rabiya Musi concorda que a história da cidade é única: "Temos orgulho da cultura aqui, então as mulheres, diferente de em outros lugares, têm se saído bem na academia".

No Marrocos, no tema dos males sociais, a ocupação francesa surge com frequência e demonstra quão profundamente os marroquinos sentem que ela afetou o país. Entre 1912 e 1956, o controle francês foi vendido como uma mission civilisatrice, trazendo "cultura" para o Marrocos enquanto exportava bens econômicos de volta para a Europa. Apesar de ter derrubado o jugo imperial sessenta anos atrás, os universitários ainda fazem a prova focada em francês Baccalaureate, o francês continua sendo a segunda língua do país e a educação superior e ensinada predominantemente nessa língua.

A Universidade Al Quaraouiyine agora admite homens e mulheres.

Durante o período colonial, a França se envolveu nos assuntos da Quaraouiyine pela influência política que a universidade tinha, tentando reformar sua estrutura para apoiar seu governo. Depois da independência, a universidade passou do Ministério de Assuntos Religiosos para o Ministério da Educação, e os estudantes começaram a pedir modernizações, como trocar os assentos de tapetes para carteiras.

"Até a independência, havia apenas educação religiosa aqui e foi só depois que outras matérias começaram a ser introduzidas", diz a cineasta Merieme Addou. "A Universidade Al Quaraouiyine é um bom exemplo disso: se você se formava aqui, era visto como uma pessoa com educação e atingia um nível mais alto na sociedade. Mulheres ocasionalmente estudavam na Quaraouiyine, mas quando dizemos que alguém tinha educação, isso significava que eles conheciam o Corão e tudo sobre religião, além de um pouco da astronomia e matemática também."

Mas algumas das mudanças mais marcantes para a educação das mulheres aconteceu apenas recentemente. Isso mostra que a educação islâmica está sendo usada pelas marroquinas como um veículo para defender seus direitos e status social.

Addou produziu um filme ano passado chamado Casablanca Calling sobre o mourchidat, num novo título estabelecido pelo governo em 2006, para mulheres com educação muçulmana que querem liderar a vida religiosa comunitária. Apesar de ser visto como uma iniciativa para promover o "Islã moderno", isso é, sem dúvida, algo radical. "Agora elas podem fazer tudo que os imãs podem, além de liderar as orações, como dar conselhos pessoais e religiosos e entrar na parte masculina da mesquita. Pela primeira vez na história de um estado muçulmano, as mulheres podem se tornar líderes religiosas", Addou disse a Broadly.

Apesar desses avanços virem do governo, a professora de Yale Meriem El-Haitami argumenta que isso fornece uma nova plataforma de influência para mulheres muçulmanas atingirem uma posição melhor. Ao se tornarem autoridades religiosas respeitadas, as mulheres se colocam numa posição de liderança, onde podem reconsiderar o pensamento islâmico, mudar as dinâmicas da estrutura social e contribuir mais amplamente para o bem-estar social das mulheres. "Elas definem um novo modelo de ativismo que visa contribuir para a reforma social espalhando valores religiosos", escreveu El-Haitami para o OpenDemocracy.

Resta ver qual será o impacto a longo prazo de muçulmanas educadas na sociedade marroquina.

"A França atrasou o país e impediu a mudança", diz Ilhem, estudante da Quaraouiyine. "O que o Marrocos conquistou em cem anos, a ocupação suprimiu por gerações. O problema é que nas escolas ainda fazemos o Baccalaureate, ainda queremos estudar na França; precisamos parar de seguir a França na cultura e trilhar nosso próprio caminho."

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.

Mais VICE
Canais VICE