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O que aprendi trampando por dois anos nos Correios

Carteiros são malucos. E jamais deixe sua marmita sem identificação na geladeira.
Ilustrações por Arthur Porto.

Quando eu entrei pela primeira vez em uma empresa a trabalho, aos 15 anos de idade, pensei: "bom, isso é coisa de adulto". A unidade do Correio que ficava escondida no final de uma rua vazia em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, seria meu local de bater ponto nos próximos dois anos, que era o quanto durava meu contrato de aprendiz.

Durante esse tempo, eu enviaria milhares de telegramas, comeria dezenas de marmitex e passaria um tempo com as pessoas mais malucas que já conheci. Era a entrada precoce de um adolescente na tediosíssima vida adulta, e que os professores me disseram na época que "seria muito bom pro meu currículo".

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Lembro de, no começo, não ligar muito pra miséria de salário que iria receber (225 reais) para ficar ali por 4 horas. Até o vale-alimentação era maior que o pagamento, pra se ter uma ideia.

Lidar com a comida foi minha primeira lição. Aparentemente, carteiros (ao menos daquela agência) são loucos para roubar a mistura da marmita alheia. Decidi escutar o conselho dos supervisores quando eu levava pra lá o marmitex do buteco Chapa Quente, o preferido dos funcionários. O esquema era assim: eu colava um post-it em cima da marmita com o nome do chefão da unidade e enfiava ela na geladeira. Assim, espantava os ladrões de bife e eu conseguia comer tranquilo.

Ilustração por Arthur Porto.

Minha principal tarefa era a colagem de telegramas. Alguma pessoa ou empresa que contratava o serviço enviava uma mensagem eletrônica e elas eram impressas de 5 em 5 minutos. Cheguei a passar o dia inteiro dobrando papel. É comum empresas enviarem cartas de demissão por telegrama, assim como detentos, que mandam mensagens para as mulheres do lado de fora.

Meu trampo era interno e eu acabei conhecendo um pouco melhor o pessoal, apesar de ser muito tímido pra puxar papo. O tal chefão da unidade era Martines, um sul-mato-grossense de meia idade que sabia falar tupi-guarani. Ele era bem calmo e nunca pilhava seus subordinados. Sua liderança passiva abria brechas para que zuassem ele pelas costas. Quando não estava por perto, os dois supervisores da unidade mencionavam um livrinho de horóscopo gay que ficava na gaveta do cara.

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Martines dava seus perdidos. Com frequência, escapava de lá para "pagar uma conta no banco". Como era a única desculpa que tinha, os chefes de outras unidades que ligavam o procurando não se surpreendiam quando eu falava que ele não estava.

Já com a peãozada a história era outra. A maioria dos carteiros fazia um corre absurdo pra levar quilos de cartas nas costas. Nunca vi ninguém jogando pacote com força no chão mas, claro, só conhecia a minha unidade.

Alguns dos internos desenvolveram uma espécie de comunicação primária que consistia em imitar sons de trem (piuíii), enquanto um outro respondia "banana", em seguida "mandioca!" e por fim "ele gosta…". Imaginei que um dia entenderia o significado daquilo e só depois de muito tempo me toquei que era falta do que fazer. Acabei entrando na brincadeira.

Cheguei a presenciar cenas lamentáveis lá dentro, como quando o carteiro Damasceno arrancou a camisa, subiu em cima de uma mesa e começou a dançar. Motivo: era sexta-feira.

Vagnão era o meu preferido. Tinha uns cinquenta anos e fazia entregas de moto, até que um dia descobri que ele era formado em Biologia. Ele me deu várias dicas úteis pra estudar. Questionei se ele não gostaria de dar aula só que, segundo ele, "professor ganha menos que carteiro".

Com tempo, fui pegando uma certa liberdade dentro da empresa. Uma mesa de sinuca na área de lazer do Correio era o alívio dos caras que voltavam da "corrida" (como se chama a rota do carteiro). Desenvolvi tão bem minhas habilidades que virei o maior sinuqueiro da unidade. Passei a fazer uma contagem de vitórias/derrotas pra avaliar meu desempenho e jogava de igual pra igual com os velhacos de lá. Saí do emprego com o saldo de vitórias positivo.

Em certo episódio, um carteiro chamado Zé havia roubado um jornal meu que estava na área de lazer. O carteiro gordinho Guedes o dedurou pra mim. Resolvi confrontar. Zé ficou tão puto por eu ter falado do jornal que atirou três moedas de um real sobre o balcão, gritando para que eu fosse buscar outro jornal. Eu, um moleque de 16 anos na época, tretando com um velho por causa de jornal.

Eu sabia que precisava deixar um legado ali, algo que fosse transmitido para as próximas gerações de aprendizes. Um de meus passatempos era jogar pinball num PC com Windows antigo. Um dia consegui bater o recorde e botar meu nome no topo: JA4050, o número da minha matrícula. Mas essa alegria durou pouco. Meses depois, a aprendiz Natálya, que havia me substituído, disse que o carteiro Pimenta havia ultrapassado meu recorde. Fiquei realmente abalado.

Achei que o trabalho pouco valeu como "lição" pra vida, coisa que meus amigos aprendizes de outras unidades discordam. Ninguém saiu do estágio com plena noção de qual era o trabalho do Correio, mas todos acharam que valeu a pena ter entrado lá. Na minha despedida, meus supervisores me deram tchau com um frio aperto de mão. E eu fui fazer algo diferente.

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