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A Tomada da Alerj

Desta vez, cerca de 100 mil pessoas ocuparam o Centro do Rio para protestar.

por Thomás R. P. de Oliveira; Fotos por Matias Maxx
18 Junho 2013, 5:45pm

Cerca de 100 mil pessoas ocuparam o Centro do Rio para protestar desta vez. A Avenida Rio Branco se tornou uma ruazinha apertada, a Cinelândia parecia uma minúscula praça do interior, tudo se apequenava diante daquela multidão. A Candelária, que havia sido o ponto de concentração para o início de todas as passeatas, já transbordava de gente no horário marcado para o evento nas redes sociais, 17 horas, e a Avenida Presidente Vargas começava também a ser tomada.

Desde o início, dava para sentir que os acontecimentos seriam mais fortes. Não era só uma questão de número de pessoas, tudo era mais intenso. Inúmeros apartamentos piscavam suas luzes como forma de apoio à passeata e ganhavam, em retribuição, aplausos de quem protestava. Novos grupos se uniram à enorme massa: advogados, guarda-vidas, estudantes de medicina. Todos com suas faixas, cartazes e reivindicações.

O coro que mais era repetido, a exemplo do que aconteceu em São Paulo, era “Sem violência! Sem violência!”. E mais uma vez, até os protestos chegarem à Cinelândia, em frente ao Theatro Municipal, tudo parecia indicar que o pacifismo iria dominar as ações do dia. Mas também, mais uma vez, não foi assim que as coisas continuaram a fluir.

Parte da manifestação seguiu direto para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Alerj, e logo essa se tornou a direção de todos. No último protesto, a ida à Alerj foi um ato espontâneo que surpreendeu o comando da polícia que, então, a partir daí agindo no improviso, acabou permitindo que os manifestantes tomassem as escadarias e subissem em estátuas e postes do prédio histórico. Desta vez, a polícia estava preparada para a chegada dos manifestantes e formou um bloqueio com a Tropa de Choque para impedir que mais uma vez o local fosse dominado pelos que protestavam. Mas a polícia não estava preparada para um novo problema: nesta noite, eram 100 mil pessoas.

A multidão deu de cara com os escudos negros nas escadarias e, após alguns segundos de crescente tensão, alguns manifestantes que estavam à frente tentaram forçar a passagem. Os policiais dispararam então as primeiras bombas de gás. Imediatamente, tiveram como resposta pedras, paus e fogos de artifício arremessados pelos que tentavam passar. Mesmo com a maior parte dos manifestantes não apoiando que se fosse pra cima da polícia, o número dos que foram era muito maior do que em qualquer outra noite de protestos. E foi neste momento que aconteceu algo inédito nas manifestações contra o aumento das passagens, algo que provavelmente não era previsto nem pela polícia nem pelos manifestantes: o temido Choque titubeou, deu dois ou três passos tímidos para trás. Não foi necessário mais do que isso para que os jovens constatassem que o que estava acontecendo era realmente diferente. Gritando, a onda de pessoas avançou e a Tropa de Choque recuou. Continuou atirando as bombas de gás, o ar se tornou pesado e venenoso como das outras vezes, mas a novidade é que fez isso enquanto andava para trás.

A polícia foi expulsa das escadarias e, novamente, a Alerj foi tomada por quem protestava. Alguns policiais se protegeram ficando dentro da Assembleia, outros fugiram para trás da construção. Lá, se reorganizaram e voltaram com bombas e tiros de balas de borracha. Muitas pessoas correram, mas os que não recuaram passaram a gritar para que todos se reagrupassem. E isso foi feito. Novamente avançaram contra a polícia e a expulsaram. Esse processo aconteceu diversas vezes. Os policiais voltavam, as bombas explodiam, a fumaça se espalhava, eram ouvidos os tiros com bala de borracha, muitos corriam, se abrigavam por um tempo e logo voltavam.

Assim, não só os ataques da polícia não conseguiram desocupar a Alerj, como despertaram nos manifestantes mais agressividade do que nunca. As pessoas que fugiram das bombas, aos poucos, se reagruparam em diversos focos espalhados pelas ruas da região. Para onde se olhasse havia lixeiras queimando, bancos depredados, barricadas improvisadas e em chamas bloqueando parcialmente as ruas. O que era um protesto pacífico rumando pelas ruas aos gritos de “não violência” havia se convertido em um cenário de guerra. Mas é necessário registrar que a maioria discordava de todo e qualquer ato de depredação e muitas vezes era possível assistir a manifestantes gritando pedindo para que outros não quebrassem algo.

Uma rua de pedestres, a Erasmo Braga, foi de repente invadida pela fumaça das bombas. Pessoas que comiam e bebiam após o dia de trabalho se viram cercadas por aquela mudança surreal na paisagem, pessoas correndo em desespero dos tiros da polícia, vomitando por causa do gás, uma mãe chorando ao celular por não conseguir achar o filho que estava protestando com ela, mas que se separou quando a polícia foi para cima deles.

Na Rua da Assembleia, a situação foi ainda pior. A polícia apareceu por pequenas ruas transversais jogando bombas, mas decidiu não entrar na rua, barrada por manifestantes. Alguns começaram então a quebrar vidros, portas de bancos, placas, etc. Uma moça assustada chorava pedindo para que um porteiro a deixasse entrar na portaria do prédio para se abrigar, mas ele respondeu que ali não era lugar de baderneiro. A amiga da jovem afirmou que não havia baderneiro algum, que elas estavam lutando pelos direitos dele também, que são professoras e trabalham 40 horas semanais para ganhar pouquíssimo e que é por isso que a educação no Brasil formava pessoas como ele. O porteiro manteve o olhar impassível e a garota do lado de fora entregue às bombas e às balas de borracha. Chorando de raiva, a professora virou as costas conduzindo sua colega para outro lugar.

Apesar do medo e da confusão, os manifestantes estavam o tempo todo preocupados com o bem-estar uns dos outros.  Em nenhum momento constatei um clima de “cada um por si”. Muito pelo contrário, se alguém caia durante a fuga, logo outros dois ou três desconhecidos o agarravam pelos braços e o levantavam, mesmo que isso aumentasse o risco de serem atingidos pelas balas de borracha. Quando eu comecei a ter uma crise de tosse devido ao gás das bombas, senti uma mão tocar meu ombro e ao me virar recebi de alguém um pano com vinagre para colocar na boca e nariz, aliviando os efeitos intoxicantes. E isso era comum, as pessoas distribuíam vinagre, se ajudavam o tempo todo e assim o desespero potencialmente mortal em uma multidão desse tamanho nunca se instalou completamente.

Há algumas décadas, a grande mídia podia passar semanas dizendo que a multidão das Diretas Já estava ocupando São Paulo como forma de comemorar o aniversário da cidade. Agora isso já não é mais possível. Toda versão oficial divulgada por alguns canais de televisão, jornais impressos e revistas semanais é logo colocada em cheque por imagens, textos e vídeos postados online. O descompasso entre a grande mídia e os anseios da população fica cada vez mais evidente. Em São Paulo, foi necessário que a polícia acertasse tiros nos olhos de dois repórteres, talvez cegando um deles, para que a violência policial fosse enxergada pela maior parte da imprensa. Até então, na versão dos maiores jornais, manifestantes eram vândalos e violência policial era o mal necessário para a proteção do cidadão de bem.

Também fica nítida a falta de compreensão do poder público em relação ao fenômeno que está acontecendo no Rio de Janeiro e no país como um todo. Parece que a cultura da repressão está tão arraigada na mente do Estado, que é inadmissível resolver as coisas de outra forma que não seja à força. Agora, o despreparo do Estado ficou muito claro. A estratégia da Tropa de Choque era a de sempre, atirar e passar por cima do que estivesse em seu caminho. Mas a situação inviabilizava isso. Não estavam mais diante de três mil pessoas assustadas com o risco real das bombas de gás e balas de borracha, mas sim diante de uma multidão que parecia descobrir sua própria força enquanto os eventos da noite aconteciam.

O Rio de Janeiro anoiteceu pegando fogo. E os manifestantes, em sua maioria, concordam que a depredação da cidade é lamentável e por isso gritaram tanto por não-violência. A história recente mostrou o grande erro que é cometido pelos governantes que pensam que são onipotentes e que a violência e a repressão resolvem qualquer crise. Estamos em um momento decisivo e muito delicado. Quem esteve na manifestação dessa segunda-feira sentiu que as coisas estão definitivamente diferentes. Resta saber como o Estado reagirá a isso. Fala-se em ao menos duas pessoas atingidas por tiros com balas de verdade. Isso é muito grave. O Estado precisa se posicionar publica e claramente em relação ao fato de algum policial ter sacado e atirado com arma de verdade.

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