Leia

Fingi que tinha 17 anos de novo por um dia

“De repente 17”.

por Michael Buchinger, Photos: Dominik Pichler
27 Dezembro 2016, 10:00am

O autor agora (esquerda) e aos 17 (direita).

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Alpes .

Tudo era melhor quando eu era adolescente – disso eu tenho certeza. Não só Pokémon e a Gwyneth Paltrow, eu também era. Aos 17 anos, eu era muito mais simpático, engraçado e incrível do que jamais serei de novo.

Aos 17, nada podia me parar. Naquela época eu mal conseguia esperar a sexta-feira, pra poder tirar o uniforme da minha escola católica e ir para festas muito loucas onde eu ficava até as primeiras horas da madrugada. Eu dançava em baladas vienenses escrotas como se ninguém estivesse olhando, vivia como se nada pudesse me machucar e bebia como se ressaca fosse só uma conspiração da indústria farmacêutica. Aí passava o domingo inteiro tentando montar o quebra-cabeça do que tinha acontecido na noite anterior.

Hoje, em contraste, minha noite ideal de sexta consiste em tomar uma boa xícara de chá e assistir a uma maratona de Sex and the City, clicando na opção "assistir todos os episódios" sem pensar duas vezes. Na manhã seguinte, o único quebra-cabeça que preciso montar é em qual episódio caí no sono.

Hoje me sinto como uma mera sombra do meu antigo eu. Vivo das memórias daqueles dias de glórias. Não me entenda mal, estou confortável na minha vida de quase adulto. Mas não consigo deixar de pensar se ainda existe uma faísca de juventude em mim. Se eu pudesse ter 17 anos de novo, será que eu ia querer – mesmo que só por um dia? Só havia um jeito de descobrir.

8h30

Apesar de ser cedo demais para uma manhã de sábado, acordei totalmente descansado, então adoraria pular da cama cantando "Here Comes the Sun". No entanto, isso seria incrivelmente fora do personagem para o Michael de 17 anos, como naquele episódio do Tom & Jerry onde eles são amigos – então decidi ficar deitado na cama por mais algumas horas.

12h

"O cachorro vai tomar todas hoje!"

Ao meio-dia, acordei meio grogue, depois de claramente dormir demais. Numa ação motivada pela nostalgia de tomar uma comida de toco, liguei para a minha mãe.

"Mãe, acabei de acordar, é meio-dia e não comi nada ainda!", eu disse numa tentativa maníaca de pisar em todos os calos dela.

Mas em vez de gritar comigo e passar o aspirador agressivamente no meu quarto, minha mãe reagiu num tom incrivelmente calmo: "Bom pra você", ela disse. "Você trabalha muito e merece um final de semana relaxante."

Profundamente desapontado por ela se recusar a fazer parte do meu experimento "De Repente 17", decidi mudar de estratégia.

"Mas vou usar bem toda essa energia! Hoje vou encontrar meus amigos no parque e a gente provavelmente vai beber muito álcool", falei pra ela no meu tom mais provocador.

"OK, divirta-se!", ela disse alegremente, dando tchau e desligando. Ela nem me disse para levar um casaco. Mais tarde, ela inexplicavelmente me mandou a foto de um cachorro sentado num bar com a legenda "O cachorro vai beber todas hoje!" Suspirei, frustrado. Mães, né?

13h

Depois de preparar meu prato favorito da adolescência – macarrão com ketchup – comecei a tentar lembrar o que eu fazia durante os sábados quando tinha 17 anos. Aí pensei que o meu eu adolescente provavelmente ia assistir algum programa besta na TV ou jogar videogame.

Leia também: "Pais, mães e avós piram no Pokémon GO"

Então, em nome do experimento, baixei Pokémon Go e comecei minha caminhada da nostalgia pelas ruas da cidade, esperando pegar alguns espécimes raros no caminho. Essa parte do experimento foi um grande sucesso comparando com a ligação para a minha mãe, porque depois de pegar meu terceiro Pidgey, eu realmente estava ansioso para ficar bêbado e (com sorte!) beijar alguém esta noite.

14h30

Fui até o supermercado numa missão para comprar algumas das minhas bebidas favoritas da juventude: Eristoff Ice e Eristoff Red – vodcas "ice" nojentas que liberam todas as cores do meu rosto. E essa reação é merecida. Entre os 16 e 18 anos, eu vomitava regularmente depois de encher a cara com esses venenos, geralmente num estacionamento de um consultório de ginecologia que acabou virando minha zona designada de gorfo.

No supermercado, tentando me comportar da maneira menos suspeita possível, peguei rapidamente minhas bebidas e entrei na fila do caixa, tentando esconder a mercadoria como se estivesse passando pela fronteira com um cadáver. Eu estava tão envolvido no meu mundo dos 17 anos que realmente tive medo da caixa pedir minha identidade. Mas ela não pediu, até porque tenho 23 anos, mas pareço ter 32.

18h

"Olha o que eu trouxe!", gritei para os meus amigos, que eu tinha encontrado num piquenique no parque e com quem já estava fazendo planos para aquela noite. Entusiasmado, peguei as Eristoffs na minha mochila Eastpak e as apresentei ao grupo. Eles ficaram chocados – sem dúvida porque não estava percebendo quão jovem e incrível eu era de novo.

"BOOM! Eristoff!" eu disse, mas meu anúncio foi respondido com silêncio em vez de júbilo. Foi só aí que percebi que meus colegas de piquenique estavam nauseados, não empolgados, com as minhas bebidas. Eles emitiram vários sons de nojo que eu prefiro reservar para jogos de tabuleiro ou músicas do David Hasselhoff. Obviamente, eles não tinham boas experiências com vodca ice.

"Michael, eu sempre vomitava quando bebia esses negócios", foi a resposta da minha amiga Bianca, a primeira a quebrar o silêncio. "Por que você comprou essa porra?" Mas a Bianca acabou de fazer 30 anos, então simplesmente a ignorei, não deixando que ela desanimasse meu espírito jovem.

Em vez disso, abri minha Eristoff Ice e mudei a conversa para temas como lição de casa, Pidgey e o Professor Carvalho. Meus amigos concordavam com a cabeça, enquanto trocavam olhadores que só poderiam ser interpretados como "Quem convidou o Michael?"

19h

Você pode achar que depois de duas Eristoff Ice e três goles de Eristoff Red eu ia começar sentir o pileque chegando, mas não. Acho que me graduei no nível máximo dos gorós, porque se aos 17 eu já estaria tagarelando bêbado e dizendo que amava todo mundo, agora eu me sentia sóbrio o suficiente para pilotar um 747.

20h

Comecei a lembrar por que todo mundo odeia vodca ice. Elas parecem leves e docinhas, te dando uma sensação falsa de sobriedade antes de bater com tudo. Uma hora atrás eu poderia pilotar um jumbo – agora só conseguia procurar um saquinho de vômito na minha Eastpak. Então resolvi dar uma pausa na bebida pela meia hora seguinte.

21h

Minhas novas amigas.

Só para constar, muitos adolescentes de verdade estavam curtindo no parque aquele dia. Eu achava que só traficantes e tarados ainda estariam por aqui a essa hora da noite, mas eu estava errado; o lugar estava mais lotado de adolescentes que um show do 5 Seconds of Summer. Tudo mundo estava sentado na grama, de boa, fumando e bebendo. Fiz uma anotação mental: "O pessoal descolado curte parques!"

Consegui puxar conversa com um grupo de adolescentes de verdade. Mas minha tentativa de extrair a essência delas terminou num fracasso completo. Elas me deram algumas dicas de lugares legais para beber, depois me deram um perdido indo para outro lugar do parque, sem dúvida para discutir questões mais urgentes como Pretty Little Liars e hoverboards.

22h

Inexplicavelmente, um terço dos meus amigos decidiu me deixar no parque. Junto com o pessoal que sobrou, fomos até o lugar que minhas novas amigas tinham recomendado, localizado no meio do Triângulo das Bermudas da vida noturna de Viena: o Kaktus Bar. Lembro que eu adorava esse lugar aos 17 anos, chegando a me referir a ele uma vez como "a real balada".

Por exemplo, o Kaktus Bar foi o lugar onde, uma vez, peguei um cara chamado Gerald porque ele tinha me pagado uma rodada de tequila. Mas quando o Gerald tentou se aproximar dos meus genitais, fui obrigado a terminar abruptamente nosso romance, indo direto para o estacionamento para vomitar em paz.

Bom, o que encontrei lá foi uma sala apertada com iluminação rosa. Parecia que a Katy Perry tinha explodido nas paredes. Os garçons usavam gravata borboleta e os frequentadores, por incrível que pareça, devia ter a minha idade. Talvez eles estivessem conduzindo seu próprio experimento "De Repente 17"?

22h15

Pedi uma rodada de cerveja para meus amigos e eu, que chegou à mesa em tempo recorde.

"Uau! Você é rápido!", eu disse ao garçom.

"Isso é o que minha namorada sempre diz", ele respondeu. Quantos shots de tequila eu teria que tomar para esquecer que esta noite estava acontecendo?

Num momento de rebeldia adolescente, peguei todas as garrafas vazias da mesa e escondi na minha mochila – não pela adrenalina de roubar alguma coisa, mas porque um amigo meu fez kombucha caseira e precisa de garrafas vazias.

23h

Eu queria poder dizer que dancei a noite inteira, depois desmaiei vestido na sala de casa, de sapato e tudo. Desculpa. Depois de passar menos de uma hora no Kaktus Bar, eu já estava indo para casa, sonhando com um banho de álcool gel e água benta.

Numa última tentativa de reviver o passado, fui para o McDonald's mais próximo e no meio de uma multidão de adolescentes bêbados, pedi uma porção de batata frita. Mas mesmo essa tentativa fracassou de certa maneira. As batatas não estavam ruins, mas pareciam sem graça e não tão boas quanto eu me lembrava. Vejo isso como uma metáfora sobre mim mesmo.

CONCLUSÃO

Talvez eu seja um cara chato e pronto, ou talvez ter 17 anos nunca foi tão bom quanto eu lembrava. Enquanto fazia meu pequeno experimento, eu não conseguia deixar de pensar que estava perdendo tempo – tempo que eu podia usar melhor em casa, confortavelmente deitado no sofá.

Nunca mais quero ter 17 anos de novo, e agora começo a pensar como sobrevivi à adolescência da primeira vez. E mesmo recebendo o revival de Pokémon de braços abertos (e recomendando uma garrafa de Eristoff Ice de vez em quando), é melhor deixar algumas coisas no passado: meu eu de 17 sendo o item número um da lista.

@michibuchinger

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.