Por que me tornei um socialista
Política

Por que me tornei um socialista

Depois que Bernie Sanders perdeu e Trump ganhou, percebi que os democratas não iam vencer batalhas por mim.
23 Fevereiro 2017, 2:52pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Ouvi a palavra socialista pela primeira vez no filme Os 7 Suspeitos. É uma fala cômica de Tim Curry enquanto ele discute as indiscrições de sua falecida esposa que o envolveram no misterioso assassinato na mansão. Sabe, ela costumava andar com *pausa dramática* socialistas. "Todo mundo erra", ele confidencia para a sala com os outros suspeitos, com um cadáver entre eles.

Como um produto do sistema de educação pública dos EUA, era basicamente isso que eu sabia sobre o conceito de "socialismo". Claro, havia contos de tipos "comunistas" de Hollywood entrando para a lista negra durante o pânico vermelho, e claro, eu tinha lido o suficiente de Howard Zinn para saber que a "teoria do gotejamento" era só outro nome para "ricos cagando nos pobres", mas só. A maioria das pessoas não adquirem muito mais conhecimento que isso sobre política, e o que eu sabia era: temos duas opções disponíveis; uma com as pessoas mais cheias de ódio, intolerantes, burras e racistas imagináveis; então o outro lado tinha que servir.

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Como muitos outros, fiquei comovido com a campanha de Bernie Sanders — particularmente seu desejo de trabalhar para desenvolver opções de educação superior grátis ou mais baratas, sua dedicação à "Saúde para todos", e como ele destacava a desigualdade de renda — mas quando Sanders inevitavelmente perdeu para Hillary Clinton nas primárias democratas, tive aquela sensação de ar saindo da bexiga. O espectro de uma presidência Trump pairava no horizonte, obrigando a maioria dos simpatizantes de Sanders a deixar suas esperanças de um candidato realmente progressista de lado a favor de um mal menor. "Claro, talvez Clinton não vá processar banqueiros corruptos ou nos dar o sistema de saúde bancado pelo governo que precisamos, mas a alternativa [a ela] é muito pior."

Tudo isso mudou depois das eleições.

"O Partido Democrata, por mais razoável e adulto que seja, claramente não vai nos salvar."

Se as eleições são como o almoço de Natal, no qual famílias estendidas colocam ressentimentos e picuinhas de lado por algumas horas de paz antes de falar bosta de todo mundo no caminho de volta para casa, a eleição de Donald Trump foi como aquele tio babaca enchendo a cara e resolvendo "falar umas verdades", fazendo a dinâmica da família mudar para sempre. É uma cena horrível, e talvez algumas relações tenham se estragado de vez, mas o lado positivo de lavar roupa suja na frente de todo mundo é que o assunto não pode mais ser ignorado. E, vamos combinar, os EUA estavam amontoando fraldas sujas fazia um tempo.

Para mim, o dia depois da eleição foi como uma torrente de equívocos anteriores sendo liberada, de possibilidades semi-consideradas sendo abertas. O Partido Democrata, por mais razoável e adulto que seja, claramente não vai nos salvar. Trump foi o tijolo laranja que quebrou as costas do camelo, mas depois da vitória nacional do GOP, você olhava em volta e percebia que os republicanos garfaram vários governos estaduais pelo país. Para alguém como eu, o único objetivo do Partido Democrata era afastar os republicanos, e nem isso [Clinton] conseguiu fazer.

Então procurei outra saída.

Então eu fiz o que qualquer pessoa sã e razoável deveria fazer neste clima político: me tornei um membro de carteirinha de um grupo socialista.

Não quero queimar miolos preocupado com a influência russa ou o diretor do FBI James Comey — ficar repassando 2016 parece um beco sem saída — então tirei algum dinheiro do banco e doei para a ACLU [União Norte-Americana pelas Liberdades Civis], antes de perceber que a renda extra de um jornalista freelance provavelmente não fazia muita diferença. Como todo mundo, fui aos protestos, encontros muito necessários que deram voz à oposição, mas seus resultados são obviamente limitados. Manifestações não levam a mudanças reais se as pessoas armadas não estiverem ouvindo. Então eu fiz o que qualquer pessoa sã e razoável deveria fazer neste clima político: me tornei um membro de carteirinha de um grupo socialista. Escolhi os Democratas Socialistas da América.

Essa não é uma história incomum, descobri depois. Quando, em alguma reunião do DSA, pedem para que as pessoas levantem a mão sobre há quanto tempo são parte do grupo, a maioria vai para a opção "depois da eleição". O DSA, que já teve seu perfil publicado por vários meios de comunicação, agora conta com mais de 15 mil membros, uma gota no oceano comparado com a maioria dos partidos, mas um número e tanto para um grupo de esquerdistas antes praticamente desconhecido. Por que o DSA? Como um colega do grupo resumiu bem outro dia no bar, depois do golpe mental que todos levamos na eleição, queríamos saber quem "entendeu isso direito e seguir essas pessoas". Quem "entendeu isso direito" — ou seja, pessoas que previram as falhas da campanha de Clinton, mas também rejeitaram o Trumpinismo — estão por toda parte na internet, se você souber onde procurar.

O podcast "esquerdalha" Chapo Trap House se tornou uma referência central para seja lá o que for esse novo movimento socialista nos EUA, o que faz sentido, já que eles estão trabalhando num meio imediatamente acessível. (E que os apresentadores sejam inteligentes e engraçados também não atrapalha.) Também temos publicações de esquerda como Current Affairs, o Baffer e o Jacobin, cada uma examinando o mundo através das falhas do capital de maneiras diferentes. E claro, você tem a cavalgada das contas "esquerdistas" no Twitter, muitas adornadas com rosas, há tempos um símbolo do movimento socialista pela história. Entre esses estão @LarryWebsite, um organizador do DSA da Filadélfia e fanático pelo 79ers, e o brilhante @crushingbort, um crítico anônimo da mídia que escreveu um tuíte que mudou complemente como eu via o mundo:

"Hum, eu diria que sou fiscalmente conservador, mas socialmente muito liberal. Os problemas são ruins, mas as causas... as causas são muito boas"

Eu sei que o Twitter é uma fossa horrível e que o mundo seria muito melhor sem ele, mas contas como essas "funcionam" porque as constrições e caos do meio te obrigam a adotar uma concisão crua para passar sua ideia. Que muitos façam isso anonimamente, afastados do empurra-empurra da análise política mainstream, torna seus 140 caracteres mais potentes.

Não que tendências socialistas, ou de esquerda no geral, sejam um conceito novo. Isso paira nos subúrbios da cultura desde que os EUA é um país. Mas o potencial para essas ideias humanistas — que as sociedades deveriam ajudar seus mais vulneráveis, que qualidade de vida para todos é mais importante que avanço material para alguns — se infiltrarem no sistema parece ter morrido por volta dos anos 80. Foi quando, se você se lembra, a população norte-americana elegeu um ex-ator que pregava um "pequeno governo" como resposta para tudo, que jogou um fazendeiro de amendoins que realmente se importava com a coisa toda fora do gabinete. Tenho 30 e poucos anos; então para o meu grupo, o liberalismo real e sem remorso simplesmente não existia em grande escala até a ascensão de Sanders. (O centrismo agressivo de Bill Clinton e a administração tecnocrata de Barack Obama nunca ganharam realmente o coração dos esquerdistas.) E foi a queda horrível de Hillary Clinton que tornou o socialismo ainda mais atraente. Se um partido político estabelecido, com think tanks, algoritmos e apoio de celebridades, não consegue vencer o candidato mais impopular e extremo de todos os tempos, bom, talvez seja hora de novas ideias?

"Para mim, me tornar membro do DSA ofereceu principalmente um oásis de sanidade."

Para onde esse movimento vai ninguém sabe. Não sei se o DSA vai ter sucesso, ou se a bandeira será carregada por alguma outra organização, ou se um conglomerado delas vai mudar as políticas democratas, como os conservadores um dia tomaram o Partido Republicano. Mas o movimento está crescendo, não há dúvidas, ao mesmo tempo em que mais e mais pessoas percebem quão impotente é a liderança democrata. E enquanto cresce, o movimento não está sendo cooptado por políticos carreiristas ou oportunistas, mas brotando entre pessoas apaixonadas trabalhando para encontrar caminhos realistas e legítimos à frente. (No ramo de East Bay do DSA, estamos focados em tentar conseguir um sistema de saúde público estabelecido na Califórnia; outros ramos têm seus próprios objetivos.)

Mas para mim, me tornar membro do DSA ofereceu principalmente um oásis de sanidade. Protestos são legais, e com certeza fizeram alguma diferença, mas Rex Tillerson ainda é secretário de Estado, Betsy DeVos ainda é secretária da Educação. Trump ainda é presidente. Protestos em aeroportos são simbolicamente importantes, mas uma campanha agressiva contra imigrantes sem documentos ainda está fermentando. Mas encontrar um grupo que não só é fervorosamente contra essa Casa Branca imbecil, mas que oferece uma visão promissora de como vencer eleições no futuro e o que fazer depois? Para mim, essa tem sido uma força estabilizadora na nossa nova realidade de caos.

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Tradução: Marina Schnoor

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