Por que o afrofuturismo é o movimento artístico que precisamos em 2017

Com colagens, vídeos em realidade virtual 360º e manifestos, estes seis artistas estão imaginando como um futuro negro poderia – e deveria – parecer.

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mar 9 2017, 10:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na i-D

Beyoncé fez sua apresentação no Grammy mês passado usando um adereço de cabeça barroco dourado em outra referência da era Lemonade à deusa iorubá Oxum. Enquanto isso, projeções da cantora apareciam e se dissolviam de acordo com os ritmos numéricos da sequência Fibonacci, e a poesia da escritora Warsan Shire reverberava em nossos ouvidos. Esse exemplo impactante e desorientador de realidade virtual e performance ao vivo, mitologia e arte, referências ocidentais e africanas, se concluía com um quadro vivo onde Tina Knowles (a mãe de Beyoncé), Beyoncé e Blue Ivy posavam juntas como realeza. Ali você via três gerações de mulheres negras olhando para nós: o passado, o presente e o futuro da negritude.

A apresentação de Beyoncé foi afrofuturismo turbinado. Realizada para um público de 26 milhões de pessoas, esse foi um momento crucial: afrofuturismo, uma estética negra que vem se desenvolvendo desde os anos 70; através de filmes de ficção científica como Space is the Place e Blade, da prosa de Octavia Butler, e o jazz de Sun Ra; estava entrando em sua maior plataforma.

Mas o que é afrofuturismo? Mesmo afrofuturistas lutam para responder de forma resumida. A estética é multicultural, trans-histórica e se liga aos efeitos passados, presentes e futuros da diáspora negra e africana. O professor John Jennings, co-curador da exposição do ano passado na Biblioteca Pública de Nova York Unveiling Visions: The Alchemy of the Black Imagination, explica a estética pluralista assim: "Afrofuturismo não é ficção científica, mas sobre imaginar espaços diferentes de pensamento criativo que não colocam sua identidade numa caixa". Ainda assim, afrofuturismo é melhor visto que explicado. Bênçãos pop como o clipe de "Cranes in the Sky" de Solange, a arte de capa do disco ArchAndroig de Janelle Monáe e o vídeo de "No Scrubs" do TLC poderiam ser listados como "material obrigatório" num curso de "Introdução ao Afrofuturismo". Enquanto a estética entra o mainstream, aqui vão seis artistas usando o afrofuturismo para explorar as identidades e vidas dos africanos e negros em 2017.

Olalekan Jeyifous

"Afrofuturismo não existe tão proeminentemente na imaginação coletiva quanto eu acho que deveria e pode", diz Olalekan Jeyifous, artista e designer que mora no Brooklyn. Formado na Universidade de Cornell, Jeyifous faz trabalhos que imaginam como seria uma Nigéria, seu país natal, do futuro. Seu novo projeto, Shanty Megastrutures (em exposição no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa este mês), apresenta renderizações em realidade virtual 360º de metrópoles africanas futuristas. Carros voam, turbinas de vento giram, e ainda assim, apesar de todos os avanços tecnológicos, as construções distintas de favelas encontradas em cidades como Lagos permanecem. Jeyifous acredita firmemente no poder do afrofuturismo. "Há uma tolerância que evolui lentamente para o diferente e o estranho, para uma ampliação do aceitável e do possível", ele diz. "Por exemplo, veja o que artistas como André 3000 fizeram pela nossa percepção do rapper médio ameaçador e masculino. Dez anos depois, você tem um cara do sul dos EUA que usa o apelido Young Thug, usando um vestido na capa de seu álbum, e a cultura no geral aceita isso."

vigilism.com

Awol Erizku

Nascido na Etiópia, a principal preocupação de Awol Erizku é fotografar pessoas não-brancas. Ele leva seu visual um passo além substituindo figuras em obras clássicas – que há tempos são principal e descaradamente brancas – por pessoas de cor. Como ele disse a i-D ano passado, essa estética nasceu de uma falta de representatividade: "Quando era garoto e ia a museus, eu via muita arte que não me representava, então estou tentando trazer o que acho valioso disso". Mês passado, ele colaborou com Beyoncé em sua série de fotos muito comentada I Have Three Hearts, que revelou a segunda gravidez da cantora. As fotos emprestam aspectos da iconografia renascentista e da mitologia africana, misturando duas culturas contrastantes para criar um resultado intrigante. Água também é um tema recorrente da série de fotos. Erizku capturou Beyoncé no fundo de uma piscina, como o espírito africano Mami Wata, uma figura divina que lembra uma sereia. Nas imagens seguintes, a cantora aparece sentada com um véu cobrindo o rosto, como a Virgem Maria. Como os projetos anteriores de Erizku, a série imagina um futuro onde os negros podem se reconciliar com sua origem africana e a cultura ocidental numa história pessoal harmoniosa.

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Inyegumena Nosegbe

"Acredito que o afrofuturismo é um estado de ser; é simplesmente prosperar abertamente na nossa negritude", diz Inyegumena Nosegbe, formada recentemente pelo programa de Design de Comunicação da Parson. Durante seus anos na escola, Nosegbe criou Curated Culture, uma publicação de arte trimestral que destaca trabalhos negligenciados de artistas negros do passado e presente. Em uma edição, obras de Jean-Michael Basquiat são expostas ao lado de trabalhos de artistas afrofuturistas contemporâneos. Na mesma edição, o passado é trazido para o presente através de uma análise de propagandas dos anos 70 voltadas para o público negro. Outros projetos de Nosegbe incluem Dear White America (AVISO: imagens fortes), uma coleção de fotos de cenas de crimes de violência policial. Nosegbe espera que seu trabalho desencadeie ação entre o público. "O próximo passo é desenvolver algo que nos leve além de falar sobre melhorar nossas vidas, para ativamente realizar o trabalho que vai nos fazer chegar lá", ela diz.

inyegumena.com

Krista Franklin

Krista Franklin chama suas colagens de um projeto da vida inteira em ruptura. Elas surgiram, inicialmente, porque ela era uma "desenhista medíocre", ela diz. "Da minha frustração, comecei a recortar imagens e reconstruí-las. Mais tarde isso se tornou mais intencional, e eu estava usando os atos de 'cortar', desconstruir e reconstruir para descolonizar meu olhar e narrativas, que foram doutrinados sobre mim mesma, minha comunidade e meus ancestrais como uma mulher afro-americana/negra." Franklin, formada pelo Columbia College Chicago, se envolveu com afrofuturismo pela primeira vez no final dos anos 90 através de um listserv. "Um número modesto de escritores, críticos e produtores culturais da diáspora africana congregavam online para discutir e trabalhar para definir o que o temo incluía", diz Franklin. "Alguns dos indivíduos no listserv eram Alondra Nelson, Tricia Rose, Nalo Hopkins, Paul D. Miller (aka DJ Spooky) e Greg Tate." Ela cita pessoas que podem não conhecer/ter conhecido o afrofuturismo como suas maiores inspirações: Aaliyah, Pharrell Williams, Timbaland, Missy Elliott e Harriet Tubman. "Ninguém se refere a Tubman como afrofuturista", diz Franklin. "Mas provavelmente ela é um dos primeiros exemplos. Quer dizer, ela liderou pessoas para um futuro em liberdade seguindo uma estrela no céu, e usando a tecnologia de uma arma."

kristafranklin.com

Martine Syms

Martine Syms, uma artista conceitual que mora em Los Angeles, é talvez mais conhecida por sua obra de 2013 "The Mundane Afrofuturism Manifesto". Uma declaração poética escrita para "quem quiser se juntar a um futuro de imaginação negra", o texto destaca o propósito e significado do afrofuturismo, o afastando de questões como alienígenas, carros voadores e viagem no tempo, e obrigando o leitor a se responsabilizar pelo futuro. A questão central é "A Terra é tudo que temos. O que faremos com ela?" Outra obra forte de Syms é o site ReadingTrayvonMartin.com. Descrito pela artista como uma "bibliografia pessoal", o site é uma coleção de todas as matérias, artigos e documentos de justiça que Syms leu e marcou como relacionados ao assassinato de Trayvon Martin. Enquanto você rola pelos links, um moletom preto, uma lata de chá Arizona e uma saquinho de Skittles ficam no centro da tela. O site reúne a onda às vezes confusa de atenção da mídia que o trágico crime recebeu, mas também representa a obsessão pessoal sobre os fatos e cobertura da imprensa que nossa era digital pode fomentar. Enquanto a tecnologia (Twitter e a gravação de violência policial com celulares, por exemplo) continua a afetar a paisagem em mutação das políticas negras, criar um arquivo desse futuro em andamento é muito importante.

martinesyms.com

Lalou Senbanjo

Os designs intrincados de Lalou Senbanjo empregam os mesmos motivos espiralados usados pelos iorubás durante seus rituais religiosos. (Os iorubás têm uma rica história na África Ocidental que remonta ao século 7 a.C.) No começou, seus pais cristãos nigerianos chamavam os desenhos tradicionais de "demoníacos", lembra Senbanjo. "Há muitos problemas neocoloniais com a mitologia iorubá", ele explica. "Tínhamos a religião [cristã] da Inglaterra, mas não a tecnologia, infelizmente. Na escola, eles nos ensinavam sobre mitologia grega, mas não sobre a mitologia iorubá. Felizmente, minha avó foi firme em me ensinar sobre isso." Quando se mudou para o Brooklyn, Senbanjo descobriu um público que apoiava sua arte. Ele colaborou com a Nike numa edição especial do tênis Air Max e recentemente foi chamado por Beyoncé. Lembra das pinturas corporais brancas do clipe "Sorry"? São obra de Senbanjo. "[Beyoncé] é o tipo de pessoa que sabe exatamente o que quer alcançar, e procura pessoas que estão na mesma linha das imagens que ela quer fazer", ele diz. Ver a mitologia iorubá entrar no mainstream traz grande alegria a Senbanjo. Não porque o público ocidental está apreciando a cultura da África Ocidental, mas porque africanos agora estão apreciando a cultura da África Ocidental. "Nigerianos estão abraçando essa parte da nossa cultura, que antes estava enterrada", ele diz.

laolu.nyc

Imagens cortesia dos artistas.

Tradução: Marina Schnoor

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