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Como o Infowars se tornou o oposto de tudo que pretendia ser

Era uma vez mais uma fábrica de notícias falsas.

por Hussein Kesvani
21 Março 2017, 11:00am

(Foto acima: Alex Jones durante uma transmissão do Infowars. Screenshot: Youtube/Infowars)

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Há algumas semanas, me vi na triste posição de ter um tuíte citado pelo comentarista do Infowars Paul Joseph Watson. Paul é mais conhecido como o cara que grita bravo em frente a um grande mapa, geralmente alguma coisa sobre como Donald Trump é bom, e mais importante, como a cultura pop — especialmente a Beyoncé, sei lá por quê — é ruim. Algum tiozão inglês provavelmente envia os vídeos dele para os filhos com o assunto: "Charia no Reino Unido 2017".

Enfim, meu tuíte sugeria que talvez alguns manifestantes em UC Berkley tiraram pressão do escritor do Breitbart Milo Yiannopoulos permitindo que suas visões parecessem razoáveis. Uma visão justa, na minha opinião, mas de algum jeito esse tuíte acabou em um dos vídeos dele, dublado por uma voz que parecia mais o Gary Barlow usando óxido nitroso que eu. Como resultado, os seguidores do Paul — um bando alegre de supremacistas brancos, trolls, mães crentes e pais nervosos com a bandeira do Reino Unido no avatar — acabaram entupindo minha pasta de mensagens nos dias seguintes.

O que mais me surpreendeu na cabala de seguidores de Paul não foi a incansável disposição de tuitar 24 horas por dia, mas sim a falta de criatividade de suas ofensas. Durante os três dias depois da publicação do vídeo, seus seguidores me tuitaram o mesmo tipo de coisa — acusações de ser um fascista de esquerda, ou secretamente um fascista islâmico, ou de ser "o verdadeiro nazista aqui". De tempos em tempos, um de seus seguidores me mandava uma DM com um meme toscamente fotoshopado do Donald Trump/Pepe o sapo, mesmo eu não sendo norte-americano e morar em Londres. Para um grupo de pessoas querendo livrar a internet de esquerdistas liberais na era de Trump — uma era onde eles deviam se sentir mais empoderados que nunca — eles optaram por enviar as mesmas coisas previsíveis de sempre.

O incidente, por sua vez, me fez pensar sobre a trajetória do Infowars em 2017.

Atualmente, o Infowars é mais conhecido como um programa apresentado por Alex Jones, um texano parrudo que pode ter sugerido que flúor na água torna os sapos gays, ou que a ascensão de Donald Trump a POTUS é quase a segunda vinda de Jesus Cristo. No momento, a homepage do Infowars traz as manchetes "EMERGÊNCIA! Plano de Trump para salvar a humanidade está sob ataque!" e uma lista dos "melhores tuítes da semana de Trump". Enquanto isso, o canal no YouTube do Infowars se enche de repórteres "expondo o politicamente correto" em faculdades e fazendo propaganda de suplemento alimentar.

Para muita gente que cresceu assistindo o Infowars no meio dos anos 2000, como eu, essa é uma transformação surpreendente — e triste — de assistir. Como a maioria dos fracassados que nunca eram convidados pra sair, passei a maior parte da minha adolescência na internet, frequentemente em sites de teoria da conspiração — um interesse que se intensificou depois dos atentados de 7 de julho 2005, que a maioria desses sites consideravam uma farsa.

Claro, uma trajetória perigosa; se fosse um adolescente envolvido com esse tipo de coisas hoje, eu provavelmente estaria em algum ponto do espectro da direita alternativa. Mas naquela época o Infowars era um programa estranho, excêntrico e criativo, que não dava a mínima para o que pensavam dele. Claro, Jones ainda falava sobre a Nova Ordem Mundial; ainda xingava os globalistas; e ainda entrevistava investigadores amadores de pedófilos, donos de sites sobre OVNIs e truthers do 11 de Setembro. Mas para uma geração de garotos como eu — esquisitões crescendo em subúrbios abafados — era o primeiro passo para se envolver com política, mesmo não concordando com tudo que era dito. Naquela época, o Infowars era um espaço completamente separado das rotinas mundanas da TV mainstream. Não importava quão ridícula a ideia parecesse, o site era um lugar onde as párias podiam se conectar num ambientes que rejeitava a cultura mainstream.

"Alguns brincaram que o Infowars decidiu, depois de mais de uma década indo contra a mídia controlada pelo estado, se tornar porta-voz de Donald Trump."

É lembrar essa era do Infowars que torna sua encarnação atual tão deprimente. Um meio de comunicação que antes tratava todas as "elites globais" como inimigas da humanidade agora adora tudo que costumava odiar, não vendo nenhuma falha do estado norte-americano e se tornando seu defensor mais feroz. Os novos inimigos do canal são os "comparsas patrocinados por George Soros", apesar de um bom número dessas pessoas — que protestam contra Donald Trump — provavelmente terem crescido assistindo Alex Jones de um jeito ou outro.

Então o que é o Infowars em 2017? Alguns brincaram que a plataforma decidiu, depois de mais de uma década indo contra a mídia controlada pelo estado, se tornar porta-voz de Donald Trump. Na minha opinião isso é ir longe demais. É mais realista ver o Infowars como outra organização de notícias pegando o caminho errado.

Uma das consequências da política em 2016 foi o surgimento de sites "Infowars com orçamento": organizações estabelecidas como o Breitbart, mas também um grande número de sites de "notícias falsas" indo na mesma linha do Infowars (pense na manchete: "Hillary Clinton deu jantares satanistas"). A presença de Jones no YouTube — um fator-chave que diferencia seu site dos outros — também está sendo minada por uma geração de comentarista de direita dizendo as mesmas coisas de maneira mais palatável, em redes sociais que o Infowars tem pouca ou nenhuma presença.

Quando se trata do declínio de uma empresa de mídia, essas são coisas naturais e previsíveis. Então eu poderia argumentar que outra coisa coloca o futuro do Infowars em risco: se comparar constantemente com os canais mainstream. Quase todo programa do Infowars mês passado tinha uma tentativa de colocar o Infowars contra canais como a CNN e MSNBC a fim de reafirmar sua credibilidade.

Mesmo existindo principalmente como um site de comentários, o Infowars insiste em termos como "notícias falsas" e apresenta segmentos "expondo" a mídia mainstream, tentando implicar que só lugares como o Infowars são realmente confiáveis. O Infowars pode ver isso como uma cruzada moral, mas na realidade não estão fazendo nada que a mídia liberal não tenha feito antes.

Para quem só descobriu o Infowars durante as eleições de 2016, o programa pode parecer assustador, perigoso e a ilustração das "notícias falsas" endêmicas que infestam as redes sociais desde o começo da campanha de Trump. Mas para quem cresceu assistindo — e cujas primeiras experiências políticas foram informadas por ele — o programa se tornou praticamente um Breitbart teatral, o que, no cerne, é chato, mundano e previsível pacas.

@Hkesvani

Tradução: Marina Schnoor

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