Saúde

Como não ser babaca durante a pandemia de coronavírus

Vamos mergulhar em conceitos como paciência e empatia, e o que eles vão significar pra você, um aspirante a não-otário.
Traduzido por Marina Schnoor
23 Março 2020, 10:00am
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Mario Tama/Getty Images

É isso, gente, estamos com uma pandemia nas mãos agora, e tem um pessoal lidando com isso melhor que outros. O CEO da Tesla Elon Musk, por exemplo, escolheu tuitar que o pânico com o coronavírus é “idiota” e mandar e-mail pros funcionários dizendo que eles têm mais chances de morrer num acidente de carro que com o vírus. O Bolsonaro nem se fala. Pra muita gente – mas de longe nem todo mundo – é óbvio que esse tipo de perspectiva é risivelmente débil e emocionalmente atrofiada, e não tem que ter debate. Mas, pelo jeito, gente que argumenta essas sandices é babaca. Eles podem até não ser babacas em tempo integral, mas estão lidando com a crise do jeito que um babaca faria. Se você acha que esta linha de argumentação deles é correta, fico triste em avisar que você também está experimentando sintomas agudos de babaquice induzida pelo coronavírus.

Para entender como não ser um babaca nesses tempos confusos, você pode precisar de uma cartilha sobre alguns conselhos estranhos pra você. “A quantidade de bondade, empatia e disciplina que teremos que ter aqui não é exatamente o American way”, disse Rena Conti, pesquisadora da Universidade de Boston focada em políticas de saúde pública. Ela descreveu esses conceitos como, bom, “não-familiares” para a maioria das pessoas morando no Ocidente. Então vamos mergulhar nas maneiras como esses conceitos serão manifestados nos próximos meses, e o que eles vão significa pra você, um aspirante a não-babaca.

Entenda que a questão é que principalmente gente velha vai morrer, e faça todo o possível para ajudar esses idosos a não morrer

Agora, já deve ter um milhão de explicações sobre o que significa “aplainar a curva” – um jeito de descrever o objetivo de saúde pública por trás do esforço coletivo em que todos estamos envolvidos. Resumindo, o vírus já está no seu país. Muita gente vai pegar, e uma pequena fração dessas pessoas terá casos sérios que exigem hospitais ou até ficar na UTI. Espero que você, pessoa lendo isto, fique de boa, mas se muita gente mais velha e imunocomprometida que está em risco maior pegar COVID-19 ao mesmo tempo, e os hospitais vão ficar sobrecarregados. Se isso acontecer, vai haver basicamente painéis da morte (a Itália está tendo que lidar com eles agora), e muito mais gente vai morrer do que se conseguirmos diminuir a taxa de infecção ficando em casa o máximo possível. É a história do “distanciamento social” de que todo mundo está falando agora.

Segundo Alex John London, professor de Ética e Filosofia da Universidade Carnegie Mellon, “Nossas ações individuais podem ajudar a criar um cobertor de proteção para as pessoas mais vulneráveis ao nosso redor. Praticando o distanciamento social, podemos criar um ambiente mais seguro para aqueles ao nosso redor correndo mais risco com o vírus”. Resumindo, depende de você, millennial jovem e saudável. Daora brincar, em tempos de não-pandemia, que os boomers vão morrer então a geração obcecada pelo próprio umbigo deles não vai mais ter poder político desproporcional sobre o resto das pessoas, mas é outra história quando estamos falando de condenar milhares de idosos a mortes lentas parecidas com duas semanas de asfixia.

É por isso que você precisa lavar as mãos, não ir pro escritório e ficar a pelo menos 1,80 metro de distância de estranhos.

Não vá pro bar, e se você precisa ir num restaurante, peça a comida pra viagem ou entrega

E dê gorjeta! Não é negociável.

Falando nisso, se você tem grana, pague quem faxina sua casa, quem passeia com seu cachorro, quem cuida dos teus filhos, seu personal trainer e/ou professor de iôga e qualquer outro trabalhador da indústria de serviços que vai passar pelas dificuldades do distanciamento social.

Faça compras como se quisesse ficar confortável sem sair de casa por uns dias, não como se estivesse num filme de apocalipse zumbi

Eu sei que você acha engraçado falar “o apocalipse chegou, bicho!”, mas juro, sou muito mais obcecado com o apocalipse que você, e mesmo eu não tenho um estoque de comida pra além de duas semanas que cabe no armário normal da minha cozinha, ou mais de duas semanas de papel higiênico em casa. Mas deu raiva outro dia quando minha mulher precisou ir num mercado de rico pra comprar papel, em vez do mercado de gente normal onde fazemos compra, porque tinha esgotado.

Entenda que o mercado do seu bairro não está prestes a fechar – eles só ficam sem coisas que as pessoas compram em exagero. Mercados na Itália estão abertos normalmente, e isso não vai mudar tão cedo.

Acumular também é complicado, falando de um ponto de vista de ética. “Quando alguém usa recurso demais, é uma questão da pessoa pegando mais do que sua porção considerando suas verdadeiras necessidades”, segundo o filósofo e palestrante de ética aplicada Mark Wells da Universidade Northwestern. Pra descobrir se alguém é babaca por causa de acumulação, primeiro precisamos saber suas “verdadeiras necessidades considerando as circunstâncias”. Por exemplo, você pode ver alguém com 40 pacotes de papel higiênico no carrinho, mas como Wells apontou, “a pessoa pode estar comprando para várias pessoas” – pode ser alguém comprando suprimentos para um abrigo de sem-teto, por exemplo.

E pode não ser a maioria das pessoas, só lembre que se você gritar com alguém que parece estar acumulando, tem uma boa chance do babaca ser você.

Tenha cuidado com crianças

Em geral crianças não apresentam casos sérios de COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus. O que não quer dizer que é OK tossir na molecada como pegadinha. Segundo Kao-Ping Chua, pediatra e pesquisador de excesso de uso de cuidado médico da Universidade de Michigan em Ann Arbor, “crianças são realmente boas em espalhar germes no geral”. Segundo Chua, quando médicos tratam crianças, eles estão tratando várias pessoas. “Não estamos só com aquela criança na nossa frente. Temos que pensar que crianças dependem muito da família, e parentes podem ficar doentes, e aí a criança pode passar por dificuldades.”

Não faça papelão se descobrir que alguém que você conhece pegou coronavírus

É inevitável que as pessoas vão surtar sobre conhecidos que não lavam as mãos o suficiente, e vão ligar isso com casos sérios ou mortais de COVID-19 sem nem saber se a ligação é real. “Isso é especialmente verdade para casos que ficamos sabendo nas redes sócias, que quase sempre são distorcidos e descontextualizados”, disse Wells. É só ver o bafafá que deu quando os americanos acharam que o presidente Jair Bolsonaro passou coronavírus pro Trump. Imagine essa zona, mas no grupo da família do Whatsapp.

Mas se você quer apontar o dedo na cara de alguém, é do governo mesmo, segundo London. “Acho que a raiva é uma atitude completamente razoável pra ter com líderes políticos, que têm uma responsabilidade social afirmativa de garantir que os recursos e poderes do estado sejam invocados para garantir a segurança e bem-estar dos cidadãos que dependem deles”, ele disse.

Seja legal com os profissionais de saúde

Se você ficar doente, da perspectiva de Chua, tem outra pessoa com quem não seria uma boa ser babaca numa situação dessas: seu médico. “É sempre legal quando os pacientes são simpáticos”, ele me disse. “É frustrante ouvir que não tem exames suficientes, mas você só vai piorar as coisas se ficar com raiva. Não tem nada que a gente possa fazer.”

Resista à tentação de compartilhar informação que pode não ser verdade

Parte de pertencer a uma nação individualista é que é nosso direito odiar o governo, e pegar nossas notícias do Terça Livre se a gente quiser. Se você prefere assistir seus furos sobre o coronavírus no LiloVLOG, e apertar a mão das pessoas para mostrar solidariedade ao presidente Bolsonaro, consertar seu comportamento está além do que esta matéria pode fazer. Mas se você está em cima do muro sobre se tornar um teórico da conspiração, não comece agora, por favor.

London recomenda só “compartilhar informação de qualidade da OMS ou centros de excelência especializados em doenças infecciosas”, e acrescentou que podemos ter um papel em conter desinformação ajudado a espalhar informação de alta qualidade no mundo.

Sim, você está certo em considerar tudo que sai da boca do Bolsonaro com desconfiança, mas agora provavelmente é hora de confiar nas organizações de saúde globais mais do você faria normalmente, simplesmente porque essa é uma situação que se desenvolve rapidamente, e essas organizações têm muito mais informações e recursos que seu youtuber preferido.

Não entre em pânico com os “e se”s

Se for parecido comigo, agora você está começando a imaginar em que ponto vai ter que fazer algum grande sacrifício. Quanta certeza tenho que ter de que fui exposto antes de me isolar da minha mulher? Devo intervir e potencialmente ser exposto se suspeito que alguém está espalhando o vírus de propósito?

“As dinâmicas de situações assim são complexas e podem exacerbar a situação sendo tanto muito agressivo e, talvez de maneira contraintuitiva, se sacrificar”, disse Wells.

Isso é duplamente verdade em cenários ainda mais assustadores. Digamos que os hospitais lotem mesmo, e você acabe ficando doente e seja mandado para alguma instalação superlotada. Se você é como eu, seu cérebro começa a espiralar fora de controle quando contempla situações de “e se” como essa. Já há falta de exames, e se houver uma falta das drogas necessárias, e estou deitado do lado de alguém que parece muito pior que eu? Sou babaca em não deixar a pessoa ficar com meu remédio que pode ser a diferença entre a vida e a morte?

Well disse: “Mas a questão também é complicada por causa da questão filosófica fundamental aqui – 'como equilibramos nossos interesses com os dos outros?' – é uma pergunta antiga e difícil. Acho que você nunca perde a responsabilidade de se importar respeitosamente com os outros, mesmo quando sua própria circunstância é difícil. Cumprir essa responsabilidade pode exigir um autoexame em algumas circunstâncias. Mas a responsabilidade também se estende a nós e, diante do comportamento ruim de outros, podemos proteger eticamente nossos interesses. No entanto, não podemos esquecer que evitar os piores resultados para nós e os outros vai exigir cooperação”.

Então meu plano é fazer o possível para seguir a maré se algo assim acontecer, por mais difícil e aterrorizante que pareça.

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