As Mulheres das Minas de Ouro Ilegais do Peru

O fotógrafo peruano Omar Lucas viajou até La Rinconada para passar um tempo com essas mulheres que passam onze horas por dia em minas ilegais de ouro.

por Omar Lucas
17 Julho 2015, 8:30pm

No Peru, minas de ouro ilegais, a quase cinco mil metros acima do nível do mar, fornecem trabalho perigoso e sem regulamentação para os moradores da cidade La Rinconada. Aqui a temperatura cai regularmente abaixo de zero e toda a área tem saneamento básico limitado. Antigas superstições dizem que as mulheres não podem trabalhar nas minas. Então elas são obrigadas a procurar sobras de ouro nos resíduos que são retirados do local. Elas são conhecidas como as Filhas de Awichita, ou pallanqueras, em homenagem ao deus que protege os mineiros.

O fotógrafo peruano Omar Lucas viajou até La Rinconada para passar um tempo com essas mulheres. Conversamos com ele por telefone sobre a experiência.

VICE: Oi, Omar. O que as pessoas tinham te falado sobre La Rinconada antes de você ir para lá?
Omar Lucas: Me disseram que era um lugar frio e deserto, mas que as pessoas podiam ficar ricas lá. Isso era mentira. As pessoas geralmente ficam lá porque não têm opções, especialmente a população rural. As únicas pessoas que enriquecem são os empreiteiros das minas.

Por que as mulheres não podem trabalhar nas minas?
Há essa crença de que o ouro vai desaparecer se elas fizerem isso. O machismo prevalece no Peru e é reforçado por sistemas de crenças muito antigos. Então elas têm que trabalhar alguns metros além da entrada das minas, onde procuram ouro nos resíduos que os caminhões deixam.

Como é um dia de trabalho para elas?
Geralmente elas levam de 40 minutos a uma hora para chegar até a mina. A primeira coisa que elas fazem é uma oferenda ao deus Awichita. Elas fazem um buraco nas pedras e deixam folhas de coca, licor de anis e cigarros acesos. Depois elas passam das 6 às 17 horas procurando ouro. Às 18 horas, você vê outras pallanqueras chegando.

Os dias de trabalho são muito longos. Quais são alguns dos riscos de saúde que elas enfrentam?
As principais doenças que afetam as mineiras são problemas respiratórios, como a tuberculose, e infecções urinárias, porque não há saneamento básico. As mulheres trabalham mais de 12 horas por dia e não têm nenhum tipo de plano de saúde.

Elas recebem alguma assistência do governo?
Esse lugar é considerado uma favela, não uma cidade ou distrito, e as pessoas sobrevivem principalmente da mineração. O governo sabe sobre isso e está num processo muito lento para formalizar a indústria, mas só. A pobreza é extrema.

Como as mulheres conseguem achar o ouro no escuro?
Elas aprendem isso no dia a dia. Para mim, todo pedaço de pedra parecia igual, mas uma noite em que fui com elas, elas sabiam qual caminhão estava vindo com ouro. Acho que elas sabem por causa do tamanho das pedras.

Há outra opção de futuro para essas mulheres?
Apenas na cidade, onde há muitos restaurantes e bares. Fiquei surpreso com a quantidade de cerveja, isso está por toda parte – vi caminhões gigantes disso chegando à cidade todos os dias. Há prostituição, especialmente de meninas menores de idade, e não há controle sobre isso. Vi cerca de 10 policiais numa cidade com 50, 70 mil pessoas, é loucura.

Como você se sente voltando para sua vida normal depois de fotografar um projeto como esse?
Isso definitivamente me tocou. A câmera tende a ser uma máscara que te protege, mas quando você tira isso, a realidade te choca como pessoa. A pobreza no Peru e na América Latina está por toda parte, mesmo na periferia de Lima você encontra pessoas vivendo nas piores condições. Estar em contato com essas realidades realmente muda sua vida e faz você valorizar as coisas de outra maneira.

Entrevista por Laura Rodriguez Castro. Siga-a no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor