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Music by VICE

Cass McCombs e o cosmos

Aproveitando o recente lançamento de seu nono disco ‘Mangy Love’, conversei com o misterioso músico sobre Bush, Obama, Trump, Malcolm X e a importância espiritual das drogas psicodélicas.

por Andy Capper
29 Agosto 2016, 12:00pm

Entrevista originalmente publicada no Noisey US.

Cass McCombs desce pelas escadas de um restaurante no East Village, em Nova York, com óculos cor-de-rosa gigantescos e fala "Ei cara" com uma voz bem suave. Os óculos parecem o tipo de coisa que você escolheria usar ainda meio doidão de cogumelos após decidir que precisa sair de casa e caminhar um pouco. Estamos aqui para falar sobre seu novo disco, Mangy Love. Possivelmente o melhor cantor-compositor desta geração, seu nono disco deixa para trás a pegada meio setentona e adiciona umas guitarras que soam tão hipnóticas quanto metrônomos; músicas que oscilam ("Run Sister Run") e outras que inserem um quê de melancolia em explorações discretas da condição humana. Aí ele vem e fecha o disco com "I'm a Shoe", com um jeitão de Leonard Cohen.

Ainda assim, depois de todo este tempo e todas estas canções observadoras e confessionais, o homem de 39 anos segue misterioso enquanto tento descobrir o máximo de informações pessoais sobre ele. McCombs é um nômade. Fico pensando onde ele conseguiu aqueles óculos rosa — ou com quem — mas nem pergunto. Por mais que o conheça há oito anos, há uma certa força na sua personalidade quietona que dá o tom: deixe os mistérios serem mistérios, por favor. Nos encontramos em St Mark's Place, em que a molecada da NYU se mistura com skatistas, punks de boutique, crusties e a galera da J-Crew que continua a colonizar a região com cada vez mais frequência. St Mark's, por acaso, é um daqueles lugares em que dá pra comprar todas aquelas drogas sintéticas semi-legais disponíveis no mercado, incluindo opiáceos falsos, cogumelos de mentira e maconha de araque. Esta última até rendeu uma ceninha no Brooklyn quando uns viciadões de rua que fumam a parada o dia todo — entre uns pegas de crack — tiveram uma overdose, caindo perto da entrada do metrô graças a um lote zoado.

Noisey: Você já experimentou aquela maconha sintética?
Cass McCombs:
Ouvi falar de uma tal K2 ou sei lá o que. Que porra é essa?

Geralmente é um troço fabricado na China, um pó branco que jogam numas folhas picadas, algo assim.
O que isso tem a ver com maconha? Não saquei.

O efeito parece com maconha e tem quem se cague inteiro ao colocar doses altíssimas em algo que deveria ser só um peguinha. Imagina que você fuma unzinho e bate mil vezes mais forte do que deveria. Daí tem uma galera caindo pelas calçadas.
E vomitando pra tudo que é lado, vi umas fotos de Bed-Stuy na outra noite. Um corpo, uma poça de vômito, outro corpo, outra poça de vômito.

Não rola isso na Califórnia. A proibição da maconha continua aqui em Nova York.
É, tem rolado essa renascença da erva em que tudo é orgânico. Eles falam com as plantas e botam som pra rolar — como se fosse gente, como se as plantas tivessem alma e elas entrassem na sua consciência e tal. Não entendo esse lance sintético, mas imagino que uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

Você ainda fuma maconha?
Claro.

Onde você mora agora?
Na maior parte do tempo no norte da Califórnia e aqui. A Baía.

É bem bonito lá quando se passa pelas pontes. Talvez curtisse morrer por lá porque parece meio que o céu quando se vê a cidade cercada por nuvens e tal.
É um lugar bem legal, mas eu não consigo ficar num lugar por muito tempo. Gosto da cidade e do campo. Como todo mundo, né?

Tem uma música no disco novo chamada "Rancid Girl", que tem uma das suas letras mais engraçadas: "You've got a diet of Mike and Ikes and fresh mongoose / Your favorite movie: Every Which Way But Loose"[Você tem uma dieta de Mike and Ikes e mangusto fresco / Seu filme favorito: Doido para Brigar... Louco para Amar]. É sobre alguém que você odeia?
É tipo um riff do ZZ Top, uma canção de amor de rock'n'roll, uma mina rock'n'nroll, todos conhecemos garotas bacanas do rock. Sei que quis pegar pesado, mas é só amor mesmo.

É sobre uma garota que curte Rancid, a banda?
Um pouquinho, Adeline, Berkeley, punk rock, rock'n'roll, adolescentes, Telegraph Avenue.

O que você gosta nestes lugares e coisas?
Quero dizer que todos fomos adolescentes e tentamos acessar essa época dos 14 aos 17 quando envelhecemos, porque é quando você transa pela primeira vez, toma ácido, vai a Nova York pela primeira vez, seja lá o que for que rola pela primeira vez. Você ainda nem é uma pessoa de verdade, e todas essas coisas traumáticas acontecendo e você ainda não tem como aproveitá-las direito.

A primeira faixa "Bum, Bum, Bum" fala de "sangue nas ruas" e a mídia tem mostrado muita coisa pavorosa que tem rolado. Essa música fala sobre isso?
Sim, claro.

Você acompanha o noticiário? O que você pensa de toda essa brutalidade policial, Donald Trump, Oriente Médio, sangue derramado e gente tentando desunir gente por meio de medo e violência?
Todos acompanhamos as notícias, mas eu ponho nas músicas, não sou um organizador muito articulado — só componho e é isso. Acho que tudo tem piorado, mesmo as divisões na música, gêneros. Não consigo pensar numa época em que as pessoas se comprometiam tanto com o que nos afasta na música. Tem piorado, mas não acho que era melhor antes: temos raízes violentas, então queria escrever sobre isso. Como pensar num futuro tranquilo e bonitinho quando viemos de lugares tão violentos?

Não acho que Trump irá vencer. Você acha ele engraçado? Ele te entretem?
Não, ele está cansado, o lance dele já é cansado.

O que você acharia se alguém o matasse?
O pacifista dentro de mim não quer apoiar uma porra dessas, mas o revolucionário em mim crê no que for preciso. Então não sei.

É tipo matar Hitler antes da porra toda, pouparia muita dor-de-cabeça.
Não sei. Matar é errado?

Tem quem diga que não pega nada.
Quem?

Muita gente mata outras pessoas todos os dias, e ninguém tá nem aí. Se tem um propósito, acho que é justificado, e por isso o fazem.
O pacifismo é [encarado como] coisa das antigas, meio brega, e a gente fica preso nessas guerras. Votei no Obama porque ele disse que ia acabar com elas, acreditei nele, que ele falava sério por ter sido tão duro com o Bush, era tipo "vamos acabar com as guerras pra sempre!".

O que você acha dele agora?
Suas práticas são brutais e imperialistas. Guerras com drones e tudo, é loucura, mas ainda gosto desse bicho. Quando ele fala, parece que tá rolando uma conversa — um truque bizarro. É uma pessoa de verdade, mas as práticas deles, cidadãos unidos, uns atrás dos outros.

Você viu George W. Bush dançando no funeral do policial de Dallas que foi morto?
Dançando?

Estavam tocando violin e "Glory, Glory, Hallelujah" e o cara lá dançando, de mãos dadas com Michelle Obama e sua esposa, meio vermelhão, com cara de bêbado e geral encarando.
Ninguém mais tá dançando?

Não, acho que essa sempre foi a onda dele, dançar.
Fui na mostra de pinturas dele.

Foi? onde?
Na biblioteca presidencial em Dallas. Chegamos no dia da abertura — tocaríamos no mesmo dia. Aquele Putin é especial, rola uma parada meio Edgar Allan Poe, tem algo de estranho naquele quadro.

Quantos quadros estavam lá?
A mostra se chamava "A Arte da Liderança" e tinham tipo uns 30, tipo do Tony Blair, Bush Pai, Dalai Lama, Sarkozy.

Que materiais ele usava? Qual o suporte?
Aquarela, óleo sobre tela. Mas um deles era ele no banheiro, de roupão no espelho... [Risos]

O que você interpretou dali? Conseguiu ver um pouco do homem?
Bem, você vê os quadros dele e parece coisa de criança. Tem uma certa inocência, mas não consigo deixar de pensar em estar aqui no 11 de setembro. Rola uma vibe daquele dia e a importância dele. Poderia ser a melhor coisa a nos acontecer ou algo que nos destruiria, dependendo da maneira como reagimos. Acho que escolhemos a segunda opção: nos destruímos. Ele parece um comediante, outro Trump, um burro, e você tem vontade de ser legal com ele, até que lembra do Afeganistão, Iraque, a turminha dele — Dick Cheney e os outros — senhores da guerra, imperialistas, então não é engraçado nem fofo mais.

Você está certo, as coisas não foram lá muito bem. Provavelmente um dos maiores erros na história da civilização, mas se as pessoas não votarem na Hillary já que Bernie não chegou lá, isso vai me deixar chateado.
Tem um mundo além dessas eleições e política, acho importante pisarmos nele, conhecer o linguajar e também poder nos afastar e meditarmos. O mundo nem sempre gira em torno das pessoas. Temos essa ideia bastante egocêntrica do cosmos, que se trata de eleições e o próximo a liderar — isso é ridículo. E os planetas, estrelas, galáxias, supernovas e os caralhos? Por isso que é importante ingerir drogas psicodélicas de tempos em tempos; elas fazem isso.

Qual foi a última droga psicodélica que você usou? Eu ando meio com medo depois que tive uns acidentes com líquidos.
É perigoso. Aqueles frascos e líquidos, quem já usou já teve problemas.

Cogumelos são mais seguros e ouvi dizer que fazem bem pra depressão.
Acho que sim, sou um cara bem depressivo. Dou umas bicadas neles e ajuda. Não entendo porque são ilegais. Tenho um amigo que cultiva uns e pelo visto são bastante especiais, mimados e tal. E mesmo do jeito que eles chegam nos EUA, tentam trazê-los da forma mais sacrossanta possível.

É mais um sacramento do que usar drogas.
Exatamente.

Com que frequência você os ingere?
Eu uso e paro de usar o tempo todo, pra não ter que usar o tempo todo. É divertido tocar usando, mas não gosto de estar em bares, apesar de já ter feito isso umas vezes. É legal pra usar no mato. Legalizem, isso vai nos salvar.

É um conceito meio pesado pra maioria das pessoas. Cogumelo é doideira, o resto não, tipo invadir países.
É, mas banir um fungo que cresce naturalmente é loucura. Ou legalizá-lo seria loucura.

Como você lida com a depressão? Comecei a meditar e ajudou um pouco.
Também, mas não cheguei a lugar nenhum. Sou péssimo e preciso praticar mais, mas o cara que tocava bateria comigo no ensino médio agora é instrutor de meditação no Oakland Zen Center e acho que é do estilo japonês. Tem koans e charadas, ótimo pra letras, use a imaginação e aonde a charada te levar tá tudo certo.

Adoro o esquema budista em que a mensagem básica é "Tudo bem, tá certo porque é tudo tão enorme e não tem nada que você possa fazer". É bom se você tem problemas com controle.
Meu colega de quarto estuda um negócio diferente que é uma prática budista tradicional bem mais rigorosa, com votos de silêncio. Não manjo nada — ele só me fala disso e parece bem pegadão. Ele fala que não é divertido, não é legal.

Um amigo meu participou de um retiro silencioso antes. Ele disse que eu adoraria e deveria ir. Acho que não, hein?
Por quê?

Um monte de velho bizarro com todas as doenças mentais possíveis no meio do nada! Você tem lido o que? Algum livro ajudou na composição do disco? Me conta o que você tem lido nestes últimos dois anos?
Revisitei vários livros que li quando era mais novo e tiveram algum impacto em mim, tipo a autobiografia do Malcolm X, o primeiro livro que me tocou tirando quando era moleque e lia Dr. Seuss, Judy Blume ou sei lá o que. Tinha 14 anos quando li Malcolm X e me deu um estalo. Meio que amadureci imediatamente. Senti que tinha uma visão depois de ler aquele livro.

Ele te deu uma perspectiva, inspiração ou o quê? O que você tirou dele?
Pensei na minha criação suburbana no norte da Califórnia, em East Bay. E estava ouvindo Public Enemy e a música daquela época também.

Tipo "Fight the Power"?
Aí que adorei Faça a Coisa Certa e ouvi dizer que Spike Lee estava fazendo o filme do Malcolm X e queria ler o livro antes do filme. Então reli ele depois de todos esses anos e gosto de Chester Himes, um escritor negro, não diria que de romances de crime, mas ele escreveu diversos tipos de coisas, é hilário.

Tem muita gente participando do novo disco, incluindo Rob Schnapf que fez alguns discos do Elliot Smith e seu colaborador de longa data Ariel Rechtshaid, que trabalhou nos discos que você gravou com a atriz Karen Black. [Falecida em 2013 aos 74 anos]. Podemos falar dela? Como você a conheceu?
Convidei-a para cantar minha faixa "Brighter" e nos demos bem. Estava compondo um punhado de músicas para ela, mas ela tinha um monte de poemas e letras, escrevia coisas e me mandava. Me ligava e mandava longos áudios cantando e aí cortava e ela me ligava pra continuar cantando. Fora isso, ela compunha e gravava desde o começo dos anos 70, talvez 60. Ela sempre quis lançar um disco.

Creio que isso tenha rolado em 2007 ou 2008.
Não lembro de nada, minha memória é horrível.

Como ela era? Fiquei bem empolgado com essa parceria. Sempre fui fã dela e quando a vi em seu disco, pensei que era uma puta equipe. Como foi isso e como era a relação de vocês?
Eu a visitava sempre e às vezes acompanhava em eventos e afins, ela sempre estava desenhando, cantando, criando constantemente. Como um redemoinho, sempre pensando. Ela tinha um controle excelente de sua criatividade: sabia exatamente o que queria; foi inspirador porque músicos ou artistas que conheço da minha geração parecem preguiçosos demais às vezes. Gosto de gente intensa, elas me inspiram.

Mangy Love saiu na última sexta (26), via ANTI

Andy Capper é o produtor executive e diretor do Noisey em Viceland. Siga-o no Twitter.

Tradução: Thiago "Índio" Silva