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Imagem: Grace Shin.

Um corpo humano melhor é possível — e biohackers anarquistas querem construí-lo

Em vez de implantes magnéticos da moda, as biohackers do 'Please Try This At Home' querem tornar as burocracias biomédicas obsoletas.
Traduzido por Marina Schnoor
28 Janeiro 2020, 10:00am

Entrar na “Please Try This At Home” significou entrar numa conferência diferente de todas em que estive antes. Em vez de um centro de convenções típico, encontrei um centro comunitário cheio de papéis e mesas para escrever, comida e barulho. Em vez de pessoas de terno, eu estava cercada de corpos diversos e joviais. O evento era um encontro de “Ciborgues Anarcotransumanistas, Xenofeministas Queer”, que passaram um final de semana tentando imaginar e construir algo melhor do que o sistema de saúde onde corpos marginalizados frequentemente acabam prejudicados.

Gosto de brincar que há dois tipos de pessoas trans: as que são anarquistas, e as que ainda não tentaram se assumir para seu médico.

É uma simplificação baseada na realidade. A questão é que a saúde nos EUA é ruim por padrão, e é inteira e compreensivelmente fodida para qualquer um fora desse padrão. Para pessoas transgênero, ter acesso a cuidados médicos é necessariamente mais difícil dentro de um sistema que frequentemente sujeita trans a barreiras e discriminação simplesmente por existirem. Barreiras e disparidades similares existem se você é negro ou deficiente, tornando o sistema de saúde especialmente perigoso para pessoas que entram em várias caixas fora da norma branca, cis e capacitista.

Isso justifica a desconfiança com as poderosas instituições biomédicas que leva muitas pessoas trans para políticas autônomas e orientadas por comunidade, centradas na noção de que não podemos confiar em ninguém fora nós mesmos. E isso também foi o que incentivou a conferência – e me levou a ela.

Cocriando uma conferência

Como a medicina tradicional tem seus vieses, o biohacking também tem. Pessoas que se descrevem como “biohackers” e organizam eventos de biohacking tende a ser brancas e de classe média, e frequentemente estão mais interessadas em questões teóricas ou coisas como “tryborgs” do que nas necessidades materiais de pessoas marginalizadas. Muitas vezes, isso resulta em conferências cheias de acadêmicos brancos discutindo implantes magnéticos num prédio sem acesso para cadeira de rodas.

O PTTAH está tentando algo diferente. Como uma organizadora apontou quando conversamos, a ênfase aqui é em “acessibilidade e inclusão, particularmente para pessoas que geralmente não participariam de convenções de biohacking”. Tinha uma sala sensorial para pessoas que precisavam dar uma pausa no barulho e movimento de um espaço de conferência, e o local foi escolhido intencionalmente por ser acessível para pessoas em cadeiras de rodas e com outros acessórios de mobilidade, por exemplo.

Agora em seu segundo ano, o PTTAH foi organizado com base na mudança que os participantes querem ver no mundo. Parte disso significou que a conferência foi cocriada – tipo uma festa de biohacking onde cada um contribuía com coisas diferentes. O objetivo explícito era garantir que os participantes, em vez dos organizadores, tivessem controle sobre o conteúdo disponível. O resultado foi uma variedade muito maior de vozes decidindo o que entrava no cronograma, e assim, uma variedade maior de perspectivas representadas, discutidas e abordadas. E isso, no final das contas, era a questão: autonomia para determinar o que acontece com seu corpo, como ele é moldado e como ele se move no espaço.

Um exemplo disso era os materiais sendo distribuídos pela Power Makes Us Sick (PMS), um coletivo de pesquisa feminista focado em desenvolver práticas cercando saúde autônoma. Os zines do PMS são pensados para ser compartilhados amplamente, refeitos na impressora de qualquer um, e com contribuição de quem quiser. O conteúdo inclui links para fontes de estrogênio onde você não precisa responder perguntas, sintetizado por pessoas trans para pessoas trans; narrativas e histórias sobre navegar e contornar barreiras médicas numa variedade de países; conselhos sobre preparação de cirurgia não só para pessoas sendo operadas, mas para membros da comunidade que querem apoiá-las. É uma questão de separar necessidades médicas de hierarquia, e infundir hierarquia numa comunidade onde isso pode ser feito.

K.A.T. Pharmacy

Uma página do zine "Power Makes Us Sick" oferecendo medicação hormonal barata para pessoas trangênero.

O foco da sessão “Levei meus órgãos removidos cirurgicamente pra casa num globo de neve e talvez você também possa”, como o título sugere, era compartilhar conhecimento sobre como fazer seu médico deixar você ficar com suas partes do corpo removidas. Vários participantes fizeram isso, e participaram das perguntas e respostas, e a palestrante forneceu um “acessório de ensino” que rodou pelo salão: os testículos dela num globo de neve.

“Veja minhas bolas num pote” pode parecer um tema bizarro para uma palestra, e muito diferente de saúde trans autônoma, mas para mim era parte da mesma coisa. É importante que você possa ficar com seus órgãos, porque por trás dessa prática está a descoberta e compartilhamento de caminhos através da burocracia médica, e novas técnicas para escapar do controle.

Quando falei com a apresentadora (que pediu para permanecer anônima) sobre suas motivações, ela deixou claro que essa é uma questão de permitir que as pessoas tenham essas opções.

“As pessoas se importam com o que é feito de suas partes do corpo de diferentes maneiras por diferentes razões”, ela me disse. “Me incomoda que pessoas estão tendo sua liberdade de escolher tirada delas quando poderiam, por qualquer razão, estar investidas em tomar sua própria decisão, mesmo que seja diferente do que é padrão.”

Cocriando uma comunidade

Todo esse trabalho destaca a importância de construir espaços para compartilhar conhecimento médico fora do sistema de saúde normal e impeditivo. Quando você não pode pagar seus remédios, é importante saber que você pode fazer sua própria insulina. Quando estamos acostumados a ser tratados pelos médicos como um saco de partes descartáveis, importa podermos literalmente tomar nosso corpo de volta deles – num pote ou de qualquer outra forma.

Mas o mais vital é a comunidade que se forma como resultado: uma coleção de pessoas que normalmente não são incluídas no discurso sobre medicina e biohacking. Assisti mutualistas barbados buscando uma sociedade sem estado conversarem com assistentes sociais trans sobre construir uma rede de cuidado baseada em comunidade, para fornecer atenção pós-cirúrgica nos termos do próprio paciente; filósofas autistas sentadas com biocientistas. O objetivo da conferência não era só assistir palestras, mas abrir um potencial para novas comunidades, colaborações e redes de resistência.

Os Keyes é pesquisador@ e escritor@ trabalhando na Universidade de Washington, onde estuda gênero, tecnologia e (contra) poder. Seus projetos atuais cobrem reconhecimento facial, táticas críticas de tecnologia e consequências de classificação.

Matéria originalmente publica na VICE EUA.

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