Quando a Internet das Coisas se torna uma Internet de Bosta

Uma conversa com o homem por trás do hilário perfil Internet of Shit.

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21 Dezembro 2015, 6:21pm

Crédito: Shutterstock

Se você prestar atenção no que diz o pessoal do marketing das empresas de tecnologia, o futuro é composto por dispositivos conectados à internet que dialogam entre si. Caso a previsão mercadológica se concretize, nossos lares parecerão uma plataforma de ficção científica em que nem é preciso pensar em desligar as luzes ou aumentar a temperatura do ar condicionado. Tudo será interligado, ultraconectado. Assim, dizem, viveremos o brilhante e inteligentíssimo futuro da Internet das Coisas.

O que esses caras da publicidade não falam é que, enquanto embutimos softwares em eletrodomésticos antigos, rolarão uma caralhada de bugs que os inutilizarão. O Wi-Fi morreu? Ponha um agasalho porque seu termostato inteligente pode parar de funcionar. Deu pau numa lâmpada? A casa inteira para.

E com bugs temos também hackers prontos para explorá-los, seja espionando bebês por meio de babás eletrônicas hackeáveis ou roubando sua conta do Gmail a partir da sua geladeira. Não é lá tão seguro ou inteligente, mas isso não é suficiente para parar a indústria. Empresas e visionários questionáveis imaginam purificadores de ar, suportes de papel higiênico e até cordas de pular conectadas à internet.

Não dá pra saber se isso tem volta, mas o fato é que a postura crítica dos consumidores em relação a tal Internet da Coisas tem gerado coisas legais – ao menos para o lado do humor. O maior exemplo é uma conta no Twitter chamada "Internet of Shit" [Internet de Bosta], um perfil que tenta, com piadas astutas, lançar luz nesse assustador e bizarro futuro.

Bati um papo com o homem por trás do perfil. Ele pediu para não ser identificado – o acordo foi chamá-lo de Internet of Shit, ou IoS. Segue uma versão levemente editada da nossa conversa.

MOTHERBOARD: O que você pode me falar de si?
Internet of Shit: Sou só um cara que trabalha com desenvolvimento de software em uma empresa na Europa. O tipo de pessoa que você imaginaria tocando um perfil como esse, né?

Você trabalha com segurança cibernética?

Não de modo muito explícito, mas no começo trabalhava com infraestrutura de rede e essa era uma das minhas responsabilidades. Especialmente reparos pós-incidentes.

O perfil de zoeirinha no Twitter já conseguiu 35.000 seguidores em poucos meses. Qual a sua opinião sobre o sucesso quase viral?

Fico surpreso que tenha ido além de uma piada de nicho.

Por quê?

Bom, em um primeiro momento a conta foi criada com base na minha própria frustração com essas coisas. Devo ter seis ou sete aparelhos inteligentes em casa – meio que sem querer – e lidar com eles se desconectando, resetando ou fazendo algo esquisito me enlouquecia. Comecei a piada e de alguma forma o pessoal ligado à tecnologia se identificou com tudo. E foi aí que percebi que a experiência com esse tipo de aparelho é terrível.

Penso que são aparelhos úteis em alguns momentos, mas é divertido o quão imbecis metade dos produtos nas prateleiras é. Suponho que em algum momento vai rolar um baque e essa tendência vai sumir. Por enquanto estamos na fase do "vamos enfiar em tudo que der".

Essa é uma descrição razoável do estado atual das coisas. Você disse que são "úteis em alguns momentos". Consegue pensar em algum exemplo a partir do que você tem em casa?

O termostato é a opção mais óbvia, mas tá tudo meio zoado agora que todo mundo tenta entender o que ele deveria fazer. Meu termostato usa a localização do meu celular para decidir se deve aquecer a casa com base na minha distância. Funciona bem na maior parte do tempo. Curto bastante. Também tenho um daqueles monitores de sono que encaixa no travesseiro e relata como está seu sono ao longo do tempo. Acho que é um dos dispositivos com o qual tenho menos problemas e provavelmente um dos mais interessantes porque é nova categoria de produtos, não só meter uma conexão à internet em algo pra vender mais caro.

"Suponho que em algum momento vai rolar um baque e essa tendência vai sumir um pouco."

Nem sabia que existiam esses aparelhos. Que outros dispositivos inteligentes você tem?

Tenho um alarme de casa inteligente chamado Canary, e um daqueles termômetros ridículos de carne com wifi. RISOS. O problema de trabalhar com TI é ganhar gadgets aleatórios no Natal. Tecnicamente, creio que o Sonos [espécie de home theater sem fio] também entre na categoria junto de minha TV.

Então você não é contra a Internet das Coisas no final das contas.

Certamente não a odeio, há usos legítimos da tecnologia. Mas, cacete, a maioria das pessoas caga tudo. E algumas das aplicações são absurdas. Aí tem toda essa treta pelo controle da plataforma.

Quais os piores exemplos? Em quem você pensa quando diz que estão cagando tudo e em aplicações absurdas?

Sobre cagar tudo, eis um exemplo: meu termostato não funciona em uma série de situações: 1) a internet cai; 2) o sensor de temperatura perde o sinal; 3) o bagulho simplesmente desemparelha. Não há backup – se eu não conseguir resolver o problema, nada de aquecimento. Creio já ter passado horas incontáveis tentando dar jeito em diversas variações disso. São aquelas soluções que chegam quase lá, mas não pensaram na situação mais básica: o aparelho funcionará se a internet cair?

Já em termos de aplicações absurdas: é tipo quando você começa a ver essas coisas com chips que não deveriam estar ali. Balanças com chips que não se conectam! Ou ainda uma garrafa de água com um aplicativo porque: bem, porque sim. Por que isso?! Pra mim é coisa de quem quer vender mais.

Você consegue pensar em um bom motivo para existir uma garrafa com conexão à internet?

Claro, aposto que eles estão mirando naquela galera que literalmente não lembra de beber água. Mas quão grande é esse mercado? Era preciso meter um chip ali? (E por favor, pelo amor de deus, não metam outro aplicativo no meu celular.)

Quantos aplicativos você tem no seu celular?

Oito. Dois só pra lâmpadas, hahaha. Nenhum deles se comunica entre si.

Sério? Dois só pra lâmpadas?
Hue e LIFX.

Por que você tem lâmpadas com internet?

Me pergunto o mesmo. Curiosidade besta, talvez?

Elas funcionam bem?

Ah, são ok. Penso que é tipo uma lâmpada que de vez em quando você muda a cor, hahaha. Fora que impressiona as pessoas que veem pela primeira vez.

Você usa pra impressionar as pessoas com quem sai?

Hahaha tentei uma vez e a reação foi tipo "você pagou 79 dólares pra mudar a cor das luzes" ಠ_ಠ

E como você respondeu?

Haha, acho que tentei justificar com algo sobre como são ótimas para festas ;P

Que coisa você gostaria que estivesse conectada à internet e ainda não está?

Cacete, não tinha pensado nisso antes. Se fizessem do jeito certo, talvez um forno? Tem um potencial bem grande de ser útil de verdade – digo a ele o que estou cozinhando e ele se vira. Também tem um potencial enorme de dar errado. Tem essa parada aqui, mas sou bastante cético. Não que necessariamente o aparelho vá cozinhar uma receita inteira, mas pode criar novas formas de se cozinhar. Por exemplo, ajustando a temperatura de forma dinâmica de acordo com o que está sendo cozido para extrair o melhor sabor ou não queimar nada.

Isso seria meio útil mesmo. Mas precisaria de internet?

Vamos fazer! Hahaha. Depende, né? Se você quer ficar limitado às receitas que viriam na memória. Acho que o que me irrita mais nessa parada toda é que é uma desculpa genérica pra colocar "inteligência" em coisas que não precisariam dela. Aposto que se pesquisar no Google por "Ferro de passar inteligente" já devo encontrar algo.

Encontra.
E fundamentalmente há uma outra guerra por plataforma nos bastidores pra ver quem fica com a parada que roda aquilo ou no que se conecta.

Você poderia falar mais sobre esta plataforma e por que isso importa?

Agora tá rolando essa treta territorial quase que como um Android versus iOS versus sabe deus quem de novo. Todo mundo quer ser dono do que conecta tudo. De cabeça consigo lembrar de grandes nomes como a Google Brillo, Apple HomeKit, Oracle IoT e até aquela da Logitech lá. Os criadores da Internet das Coisas perceberam há pouco que criar infraestrutura e conectividade é caro e um saco pra manter, então estão atrás dessas coisas para ajudá-los também.

São importantes, claro, porque um dos pontos principais de um dispositivo desses é poder dialogar com outros dispositivos para determinar seu funcionamento. Meu termostato poderia usar meu Canary para saber se uma parte da casa está fria ou se não tem rolado qualquer movimentação lá. Talvez a geo-presença do meio termostato pudesse ser usada para ligar as luzes. Seja lá qual for o exemplo, deve haver uma forma de ligar tudo de um jeito que não seja esculhambado como o IFTTT fazendo todo o trabalho sujo.

Fora isso, tem ainda toda a integração com o celular. Adoraria dizer "Ei Siri, está frio aqui" pro meu celular e funcionar, mas claro que a Apple não me deixa fazer isso se não for um aparelho HomeKit.

A outra camada é a segurança. Eu mesmo não confio em um fabricante aleatório de termostatos para manter meus aparelhos seguros.

Mas e a segurança e a Internet das Coisas? Deveríamos nos preocupar?

Siiiiiim, ainda não vimos nenhuma grande "invasão" de aparelhos como esses ainda, acho, mas diria que acontecerá logo. Então quem está entrando nessa por conta própria corre um grande risco, já que não tem tantos recursos como o Google ou Apple.

A Apple possivelmente construiu o mais interessante ecossistema até então em torno do HomeKit, mas é péssimo no curto prazo. Pelo visto ele exige chips físicos nos dispositivos para negociar uma conexão segura. Já o Google é um pouco mais aberto. O problema em unificar as plataformas é que se cria um vetor mais amplo, certo? De repente todos meus gadgets se conectam a um painel de controle principal. E se alguém invadi-lo? Mas, ei, prefiro confiar na Apple ou Google no lugar de algum sistema proprietário da Tado ou Canary. Esse é o grande risco com a internet das coisas agora – como saber que a fabricante do meu termostato não está me espiando? Eles fizeram sua própria plataforma, então podem usá-la como quiserem.

Como seria um "grande hack" da Internet das Coisas? Como seria o Pearl Harbor cibernético, digamos, desses aparelhos?

Eu estava aqui pensando se seria possível chamar a invasão de alguém no seu termostato de devastadora, mas na real seria bem ruim. Eles poderiam aumentar a temperatura pro máximo o tempo todo enquanto você está de férias ou fazer algo pra tentar estragar a caldeira. Ou então alguém invade minha Nest Camera e usa ela pra espiar minha família e roubar senhas do banco ou algo do tipo. Só citando o que me ocorre aqui, mas tem um monte de possibilidades assustadoras – mesmo quando você liga tudo ao Brillo pode até piorar. Imagina se tiver um lugar só que alguém poderia invadir e mexer nas suas luzes, zoar seu aquecimento e tocar o alarme da casa uma noite inteira.

Me faz pensar daquela vez que Mat Honan foi alvo de uma invasão e zoaram o cara por algumas horas antes de limparem tudo. Imagina só se caísse no Reddit uma maneira de mexerem no meu termostato. Ia virar um negócio tipo "Twitch Joga na casa do Internet of Shit".

Estava pensando nisso do Pearl Harbor cibernético e é por aí, né? Tipo a invasão de aparelhos centralizados em uma única casa. Digamos que daqui uns cinco anos tudo, dos meus sapatos ao meu forno, está conectado e alguém invade, num esquema Ashley Madison, roubando todas as credenciais ou sei lá. Pode parecer exagero, mas não é loucura. E então alguém teria controle total sobre a casa de uma pessoa. E imagino que seja difícil lidar com isso sem puxar nada da tomada!

Me lembra daquela empresa de câmeras por IP que tinha uma baita brecha em que uma busca bem-feita no Google podia te levar a streams liberados de QUALQUER CANTO DO MUNDO. Adoro isso. São webcams de verdade que nunca tiveram nenhum tipo de segurança.

Então este seria o pior, certo? Câmeras provavelmente são o que mais dá medo, mas dá pra fazer um estrago com as lâmpadas e impressora sem fio dos outros.

O que você faria com seu pior inimigo caso conseguisse invadir a rede dele?

Hahaha, se ele tivesse uma Nest Cam começaria zoando no interfone só pra sacanear mesmo. Caso tivesse um termostato, deixaria no máximo em horas ridículas. Se tivesse um Sonos, botaria vídeos sinistros do YouTube pra rodar na madrugada, RISOS. Agora vou passar um tempão pensando nisso.

Você não deve gostar mesmo do seu pior inimigo.

As piores invasões são sempre aquelas sutis.

"As piores invasões são sempre aquelas sutis."

Não tenho nenhum aparelho desses. Qual deveria comprar primeiro?

Haha, não te broxei? Caramba, fiquei impressionado que isso não tenha apenas... Acontecido. Acho que o mais me trouxe benefícios foi o termostato. É idiota, mas é legal demais poder aquecer um cômodo com seu cellular em vez de um daqueles controlões horríveis. Acho que curto a ideia porque traz modernidade a um dispositivo que sempre foi horrendo de se mexer. Só não dê uma de pão-duro.

Agora falando do Twitter, como você cria o conteúdo? Depende de envios ou você passa o dia no Google atrás de bizarrice?

No começo provavelmente passava um tempão buscando merda. Sinceramente, as melhores coisas foram inspiradas no que vi no Kickstartere Indiegogo. São tantas ideias ali que não deveriam ter saído do quadro negro e que de algum jeito foram financiadas. Hoje em dia me mandam bastante coisa que deixei passar e é esquisito meio que ser o lugar em que as pessoas vão atrás de novidades no mundo de aparelhos horríveis. Com certeza leio muito mais notícias sobre o assunto do que acharia que leira. O mais bizarro que vi hoje foi uma corda que se conecta ao seu celular para te dizer quantos pulos você deu ou sei lá. Isso só me faz pensar no que diabos havia de errado com aquelas que tinham um contadorzinho mesmo.

Qual foi a postagem que mais viralizou?

Teve uma que rendeu tipo 4.000 retuítes. Acho que foi essa que chamou atenção da mídia e ajudou a bombar o perfil.

Foi engraçado porque era uma montagem feia, mas um vislumbre no futuro terrível que pode estar nos esperando. Nada impede isso. Ou que seu termostato te cobre para destravar certas temperaturas, sei lá. Queria levar as pessoas a pensarem de forma crítica sobre estes aparelhos.

Qual seu objetivo? O que você espera conseguir com esse perfil?

No início era só um jeito de botar pra fora minha frustração com estes aparelhos. Mas aí tudo foi crescendo e percebi que poderia ter alguma influência e conscientizar as pessoas sobre os problemas em torno destes aparelhos no nosso futuro, tipo como o Swift on Security escreve de forma agradável sobre assuntos que são relevantes. Creio que a aplicação massiva da Internet das Coisas seja inevitável, e ela irá melhorar, mas tem muito que precisa ser pensado antes de chegarmos nesse ponto.

O que você acha que é o mais importante a ser pensado e definido?

Me preocupo bastante com privacidade. Ao passo em que estas empresas entram numa corrida e o hardware não é mais tão lucrativo, inevitavelmente precisarão de outras formas de monetização – talvez vendendo seus dados para fins de publicidade, como muitos fizeram no passado. Penso que muito pode ser aprendido sobre uma pessoa a partir do ambiente em que se encontram. Talvez se eu aumente demais a temperatura a Amazon possa me oferecer cobertores elétricos, ou se invadirem a casa eu passe a receber e-mails sobre fechaduras inteligentes novas. Tem ainda os atores externos, que invadem, roubam dados e os usam em benefício próprio – imagine só um ransomware no seu forno ou geladeira. O que você faria? Pagaria pra lavar roupa? Compraria uma máquina nova? Claro que são conceitos meio distantes, mas com coisas que acontecem hoje. As geladeiras inteligentes da Samsung já tem brechas, então imagino ser questão de tempo.

Algum último pensamento positivo para os entusiastas da Internet das Coisas?

Acho que agora vivemos aquele período turbulento antes de tudo melhorar. A Internet das Coisas está na infância e todos ainda tentam entender como funciona. Assim que Apple, Google e os demais se resolverem e tenhamos uma plataforma comum, tudo funcionará bem e será útil! Mas agora, comprar é um baita risco: talvez seja preciso atualizar o hardware para usar uma plataforma futura (*cof* Homekit *cof*) ou você pode acabar apostando no perdedor. Resta esperar.

Tradução: Thiago "Índio" Silva