O techno de rua marca a segunda leva da cena eletrônica de Belo Horizonte

A capital mineira, que já foi chamada de meca da música eletrônica, está vivendo um momento de revival.

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out 26 2016, 2:00am

O boca a boca da cidade diz que no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, Belo Horizonte era considerada a meca da música eletrônica. Não porque BH estivesse repleta de atrações fora do eixo Rio-São Paulo, mas mais porque o entusiasmo do público fazia com que as festas nessa época fossem grandes acontecimentos na cena de house, techno e drum'n'bass, atraindo até gente de outras capitais. Os DJs Marky, Renato Cohen, Laurent Garnier, Mark Farina, Mau Mau, Nego Mozambique e Maurício Lopes eram alguns dos que esquentavam as pistas fervidas de BH, sem contar nos nomes locais, ainda em atividade, como Robinho e Anderson Noise.

Brayhan Hawryliszyn, que hoje tem 34 anos, conta que virou designer gráfico por causa dessa cena de música eletrônica. Na época, ele fazia flyers para as festas dos amigos, e assim desenvolveu as habilidades que hoje viraram profissão. Brayhan viveu intensamente o momento clubber de quase 20 anos atrás. Em seu repertório de causos estão festas que vivem na memória de BH, em locais como o terraço do antigo Central Shopping, um frigorífico desativado, o túnel do Ponteio Lar Shopping, o próprio Ponteio quando ainda em obras, estações de metrô e até mesmo o Aeroporto de Confins.

Em 2002, quando a cena estava bombando e havia várias festas semanais acontecendo, Brayhan e um amigo ficaram encarregados de produzir uma festa no extinto Club:e, com a presença do DJ e produtor alemão Alexander Kowalski. O evento aconteceu numa quinta-feira, e na sexta e no sábado a galera levou o gringo para um sítio para curtir uma natureza e botar um som para os amigos, sem compromisso. Brayhan conta que Kowalski pirou nas cachoeiras e em dar bananas para os micos que viviam no lugar. No sábado, uma tempestade com raios e trovoadas fez o cara dar uma sumida, mas até aí nada de estranho, já que ele era o mais careta da turma.

Um tempo depois, Brayhan recebeu uma mensagem do DJ falando do quanto ele tinha amado Belo Horizonte e o fim de semana que passou na cidade. Kowalski ainda mandou para o Brayhan e os amigos de BH vários mimos do selo Kanzleramt e um disco que levava o nome da cidade — o lado B se chamava "Lightning Field". O DJ contou para o THUMP que já tinha tocado uns sketches dos sons nos set aos vivo que fez por aqui, mas que só finalizou as tracks quando voltou para a Alemanha — e que Belo Horizonte mereceu a homenagem.

Com o tempo, as festas foram migrando para os clubs dedicados ao nicho, e no decorrer dos anos 2000, elas foram se popularizando e mudando de público, se tornando homogêneas. Nos últimos anos, a vida noturna em Belo Horizonte se tornou bastante comercial. Os clubs e produtores se acomodaram nos modelos que garantiam bilheteria e há muito tempo não havia nada de novo acontecendo. Em termos de música eletrônica de nicho, o que estava rolando era a escassez. Nenhum lugar oferecia espaço para o novo e o diferente, de forma que tanto os fãs de música eletrônica alternativa quanto as pessoas que queriam descobrir coisas novas não tinham para onde ir. A galera também estava se sentindo refém dos preços abusivos para entrar nas boates e consumir dentro delas.

Brayhan diz que foi se cansando da cena, e que o EDM, para ele, foi um câncer na música eletrônica. "Pegaram o que tem de pior no eurotrance, no techno, no rock e fizeram um troço novo", comenta. Mas a relação do Brayhan com a música tem mudado com o surgimento de coletivos independentes na cidade.

De um ano pra cá, uma outra geração vem redescobrindo o techno livre de rótulos e de forma muito experimental. Os coletivos Masterplano e 101Ø têm feito com que Brayhan e várias pessoas estejam saindo de casa sem o peso da obrigação social e sim para curtir música boa e pistas animadas.

Masterplano

A primeira Masterplano aconteceu num sábado de junho de 2015. O evento foi anunciado no perfil do Facebook dos membros do coletivo algumas horas antes e apenas alguns amigos dos DJs e organizadores compareceram. A festa acabou cedo, pois ninguém havia fechado direito um acordo com o dono do bar que estava cedendo a energia para os equipamentos de som, e ele quis fechar o estabelecimento por volta de 1h da manhã. Já a segunda festa aconteceu um mês depois.

Dessa vez eles fizeram um evento na rede social, que dava poucos detalhes do que efetivamente iria rolar na noite, somente algumas pistas. Foi o suficiente para deixar as pessoas curiosas e gerar um burburinho nos chats privados e nos bares ao redor da cidade.

O lugar da segunda Masterplano foi o mesmo da primeira festa, mas dessa vez muito mais gente apareceu para conferir. Além do som, muito diferente do que essa geração está habituada (o exaustivo divas-pop-auto-tune dos inferninhos), havia um jogo de luz inusitado para uma rua que é via para ônibus intermunicipais, e uma instalação inflável onde as pessoas poderiam entrar. Foi tudo surreal para uma área que fica deserta à noite, salvo por alguns bares que vendem litrão de cerveja barato e cachaças de procedência duvidosa. Ninguém entendeu direito, mas todo mundo amou.

A ideia das festas surgiu da necessidade de uma alternativa de entretenimento. De acordo com Thyer Machado, um dos DJs do coletivo, o Masterplano surgiu de forma espontânea. "Fazíamos festas em casas de amigos, e a cada vez aparecia mais gente, mais conexões eram formadas e mais pessoas descobriam um gosto em comum pela música. Começamos a pensar que seria possível criar um movimento mais abrangente na cidade, fazer festas para mais gente, na rua mesmo."

O Masterplano comemorou um ano de existência em grande estilo. Cerca de 1600 pessoas foram à festa que aconteceu em uma antiga fábrica de açúcar, que hoje funciona como um estacionamento, também no centro da cidade.

O coletivo hoje é composto por 15 pessoas, muitos são DJs com diferentes níveis de experiência, mas nem todos os membros discotecam. Todos ajudam na produção, eles geralmente se dividem em grupos de trabalho e dividem as tarefas e funções de acordo com a demanda dos eventos. Uma tática que o coletivo usa é a de cobrar entrada festa sim, festa não. Foi um jeito que o Masterplano deu para democratizar o rolê e continuar custeando os eventos sem pesar demais para os membros na hora da organização.

101Ø

A 101Ø também surgiu de forma bastante orgânica e, inicialmente, como um apêndice do coletivo Masterplano. Alguns amigos e membros do Masterplano dividiam um apartamento no edifício de número 1010, na Rua da Bahia, quando surgiu a ideia de produzir uma festa para ajudar com os custos do aluguel. O evento reuniu cerca de 200 pessoas em um terraço no centro da cidade. Eles contam que o lucro foi o suficiente para pagar o aluguel daquele mês e comprar um pouco de comida.

Desde então, a 101Ø se emancipou do outro coletivo, e vem produzindo festas em terrenos baldios, estacionamentos, galpões e vias públicas, além de um e outro evento em espaços mais tradicionais. Uma das festas mais icônicas aconteceu no Viaduto da Bicicletinha, na Avenida dos Andradas, às margens do Rio Arrudas. Em conjunto com o coletivo Arruaça, de Porto Alegre, a 101Ø montou pickups, um bar e fez projeções no viaduto para um público de aproximadamente 700 pessoas, que dançaram até de manhã — quando a polícia apareceu ameaçando recolher todo o equipamento, caso a festa não acabasse imediatamente.

A polícia já tinha dados as caras nas festas de rua antes, mas foi a primeira vez que interviu. No evento organizado pela 101Ø no dia 16 de setembro, as forças vigilantes se mostraram muito mais tolerantes. O coletivo montou o sistema de som em uma rua que dá acesso à Praça da Estação e logo chegou a Guarda Municipal com sete carros questionando sobre alvarás, que eles não tinham. Os guardinhas então sugeriram, muito gentilmente, que a galera mudasse a festa para uma outra rua, debaixo do Viaduto da Floresta.

Por volta de 1h da manhã a 101Ø estava rolando já com a pista cheia, e dessa vez foi a PM que apareceu para dar uma conferida. Marcelo Hoehne, membro do coletivo, conversou com os canas, que também foram supreendentemente compreensivos, e a 101Ø prosseguiu até as 7h30 da manhã, quando os fiéis do Templo dos Milagres se incomodaram com o barulho e o agito. A festa do dia 16 aconteceu numa rua onde também fica a entrada da igreja. Os PMs acionados pelos crentes deixaram a galera tocar mais duas músicas antes de encerrarem o expediente.

Assim como em outras edições, o coletivo fez o bar do evento em uma tenda e pediu para que o público comprasse suas bebidas por lá para dar uma força no rolê. Para facilitar, eles resolveram vender tudo a R$5 — a cerveja, o copo de catuaba e duas águas. A escolha do local se deu apenas dois dias antes. Foi o mesmo que uma saideira de última hora, no dia seguinte à festa no Viaduto da Bicicletinha, para aproveitar mais um pouco a presença dos DJs de Porto Alegre. Como funcionou, eles repetiram a dose. É na base do improviso e do que eles chamam de "desorganização do evento" que a 101Ø se mantém, aprendendo com seus erros e acertos, e ocupando as ruas.

A segunda leva e o resgate da música e dos espaços alternativos

Brayhan não vê muita diferença na cena de hoje e naquela que viveu na primeira onda do techno em BH. "A montação é a mesma, o público gay, o nível de produção" ele comenta, até a escolha dos lugares lembra muito a primeira leva. Brayhan também gosta de que as festas sejam feitas por amadores e não produtores profissionais, e admira o baixo custo para o público. Enquanto as festas do Masterplano, quando cobradas, custam entre dez e quinze reais, nas baladas eletrônicas se paga por volta de R$70 só para entrar.

O resgate cultural não é só da música eletrônica, mas também do uso de espaços alternativos. De acordo com Tiago Gamaliel, consultor e pesquisador de tendências — e uma das figurinhas mais carimbadas das festas de techno de BH, pela primeira vez uma geração muito urbana, que nasceu e cresceu na cidade, começou a enxergar a rua como uma barreira a ser vencida. Ele diz que para quem aprendeu com os pais que a rua é perigosa, ocupar a cidade é um jogo de poder. Há uma vontade de ocupar lugares que sempre foram proibitivos, de existir onde a cidade fala que a gente não pode existir. É por isso que arquitetos, designers e artistas plásticos fazem parte dessas festas, seja dentro dos coletivos ou como público da pista.

Izabela Egídio, membro da 101Ø, também acredita na ressignificação dos lugares. Ela ainda acrescenta que, quando fizeram festas em espaços mais convencionais, o rolê não deu muito certo. "A gente gosta é de lugar estranho mesmo", diz.

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A 101Ø comemora um ano com uma festa no dia 5 de novembro, e o Masterplano tem um agito marcado para o dia 19 com o TETO PRETO, de São Paulo. Os ingressos para os dois eventos podem ser comprados antecipadamente no Sympla.

Veja abaixo mais foto da 101Ø no Viaduto da Floresta.

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