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A Comunidade Transgênero do Paquistão se Esconde Numa Cidade Hostil

Ultimamente, a cidade de Peshawar está sob a influência de uma interpretação cada vez mais extrema do Islã, o que marginaliza cada vez mais a comunidade de hijras, uma designação de gênero do Sul da Ásia que engloba transgêneros e transexuais, além de...

por Beenish Ahmed
20 Maio 2014, 12:00pm

Hijras posam em seu escritório em Peshawar, Paquistão. Todas as fotos por Abdul Majeed Goraya. 

“Meu pai me batia e dizia: 'Por que você tem que sair por aí fingindo que é mulher?'”. Hoje, ao 35 anos, ela diz que suas bochechas começam a queimar e seus punhos se fecham quando alguém se refere a ela como homem. Khushboo, nome que significa fragrância, se classifica como hijra, uma designação de gênero do Sul da Ásia que engloba transgêneros e transexuais, além de travestis e eunucos.

Ela tem uma definição diferente de si mesma e das centenas de milhares de outras hijras da região. “Nossas almas são femininas e nossos corpos são masculinos”, ela diz, mergulhando um pedaço de pano num pote plástico com uma mistura de água e pó de arroz. Cercada por várias outras hijras numa sala que elas chamam de “escritório”, Khushboo passa o pedaço de pano por todo o rosto e acrescenta: “Eu sabia que era uma hijra desde criança”.

Ela costumava usar as roupas da irmã. Aos 16 anos, Khushboo fugiu de casa vestida assim e não voltou por muitos anos. Junto com outra hijra, ela se estabeleceu em Peshawar, uma cidade no nordeste do Paquistão que fica a uma noite de viagem da cidade costeira de Karachi, onde ela cresceu.

Peshawar sempre foi o lar de tradições culturais que insistem em uma rígida segregação de gênero e, ultimamente, a cidade está sob a influência de uma interpretação cada vez mais extrema do Islã. Essas crenças conservadoras e intolerantes ficam brutalmente claras com os atentados à bomba e tiroteios quase semanais na cidade. Homens-bomba do Talibã mataram 85 pessoas numa igreja em setembro passado, e militantes mataram 13 pessoas num cinema que exibia filmes pornôs em fevereiro. Ataques menores são interferências cotidianas nos noticiários locais, sempre mostrando ruas ensanguentadas e sirenes estridentes.

Khushboo aponta para as portas danificadas e janelas quebradas ao nosso redor. Ela diz que alguns homens – “garotos de faculdade” como ela os chama – atacaram ela e suas colegas hijras enquanto elas se arrumavam para uma apresentação de dança alguns dias atrás. Os homens recitam escrituras ou espancam as hijras para humilhá-las e fazê-las desistir da profissão de dançarinas; eles também podem forçá-las a dançar ou mesmo estuprá-las, ela me conta.

Apesar do extremismo, que só piorou na cidade desde que ela chegou aqui há 20 anos, Khushboo tem uma afinidade por Peshawar. Foi aqui que ela passou por uma espécie de renascimento com seu novo eu.

Livre dos abusos do pai e dos irmãos, assim como da desonra que ela sentia de sua mãe e irmãs, Khushboo abraçou uma nova vida assumindo sua nova identidade – e foi adotada por uma nova família.

“Nesse campo temos mães. Temos gurus. Temos tios e tias”, ela diz, depois aponta para uma garota bolando um baseado no canto da sala. “Ela é minha filha. Eu sou filha de alguém e ela também tem uma avó. E ela também tem um pai.”

Essa afirmação é tão súbita que quase passa despercebida. Pergunto mais sobre o “papa” da garota e Khushboo diz: “O pai dela é casado com outra pessoa, mas ele me ama”. Ela me explica então o que esse relacionamento envolve – e é tudo muito prático, até se tornar trágico: “Se fico doente, ele vem e me traz remédios”, ela diz com orgulho. “Se não tenho dinheiro, ele me empresta algum. Se eu morrer, esse homem vai me vestir como homem e levar meu corpo para ser velado em sua casa. Ele pode não contar a história inteira e até dizer que fui morta num mercado ou num tipo de tiroteio, mas é ele quem vai cuidar do meu funeral.”

Fica claro que Khushboo já discutiu essa situação sombria com seu “marido” – e também já aceitou totalmente essa possibilidade.

“Na sociedade paquistanesa, há um sentido muito forte de lugar e família”, me disse o Dr. Jamil Ahmad Chitrali, professor de antropologia. “Não há alternativa para ninguém.”

Atuando na Universidade de Peshawar, Chitrali vem escrevendo sobre a comunidade hijra da cidade. Ele diz que forjando esses tipos de conexões familiares que deixaram para trás, as hijras criam uma ordem social que imita a mesma sociedade da qual fugiram.

“Isso força todos esses indivíduos revolucionários, que vão contra os padrões binários de homem e mulher, a entrar numa estrutura que reafirma o patriarcado”, ele disse.

As hijras do Paquistão conseguiram alguns avanços nos últimos anos, apesar de sua existência quase isolada. Em 2012, a Suprema Corte paquistanesa permitiu que a categoria “terceiro gênero” fosse acrescentada aos documentos de identidade nacionais, o que melhorou a posição legal das hijras. É por causa desse maior reconhecimento que elas puderam votar na eleição presidencial deste ano – e pelo menos cinco hijras concorreram a cargos públicos.

Mas essa classificação de terceiro gênero fez pouca diferença prática na vida de Khushboo. “Vivemos num terceiro mundo”, ela diz. A diferença entre a vida dela e a de uma pessoa cisgênero é tão gritante quanto a vida no Paquistão e em Mônaco.

E, segundo ela, não importa o que faça, ela sempre será vista como diferente.

“Mesmo se eu parasse de dançar, todo mundo ia me chamar de hijra, então que diferença isso faz? Por que não fazer o que amo?” Ela acrescenta que mesmo que se tornasse uma evangelista itinerante, sua família ainda a trataria com o mesmo desdém. “Estou melhor como hijra.”

E essa é a parte mais difícil da vida de Khushboo: encarar sua família. Ela voltou a ter contato com eles depois de cinco anos e vai vê-los em Karachi pelo menos uma vez por ano. Mas quando vai, vai vestida como homem.

Em Peshawar, Khushboo vive como mulher, usando vestimentas pretas compridas e de manga longa (a abaya), e cobrindo o rosto com um nicabe que deixa apenas os olhos à mostra. Mesmo assim, ela foi expulsa de muitas casas por gente que temia que as hijras prejudicassem a vizinhança.

Mesmo ocupando um espaço marginalizado em todo o Paquistão, as hijras provavelmente estão numa situação ainda pior em Peshawar. Em todas as outras grandes cidades do país, elas frequentam locais movimentados ou shopping centers onde oferecem uma oração por algumas rúpias. As pessoas têm medo que elas possam amaldiçoá-las, então dão logo o dinheiro ou se afastam rapidamente.

Passei muito tempo em Peshawar nos últimos anos e nunca vi as hijras saírem em público aqui como fazem em outras cidades. Depois de conversar com o professor Chitrali, descobri que as hijras têm um papel diferente na sociedade pachtun, que domina a área de Peshawar. Nesta parte do país, as hijras não são vistas como tendo algum tipo de conexão espiritual mais forte do que as pessoas cisgênero – em vez disso, o papel delas é celebratório. Elas frequentemente são chamadas para dançar em casamentos e batizados.

“É a apresentação delas que dá reconhecimento social [a uma família]”, diz Chitrali, apesar de a tradição estar morrendo com a mudança dos casamento das casas das famílias para os salões de festa. Algumas podem ter outras profissões – Khushboo diz que tem amigas hijras advogadas e pilotas, e que agem como homens cisgênero para manter esses empregos, apesar de poderem ser “elas mesmas” quando estão entre outras hijras. Devido à falta de aceitação social, muitas hijras levam vidas marginalizadas como dançarinas de baixa remuneração, mas também têm certo papel como educadoras. Hijras frequentemente ensinam – ou mesmo iniciam – rapazes jovens no sexo. Para muitos jovens em Peshawar que vivem sob códigos religiosos e culturais restritos, que consideram pecado quase qualquer interação pré-marital entre os sexos, as hijras são uma espécie de meio-termo, de acordo com Chitrali.

“Cruzar o domínio da masculinidade para a feminilidade é contra a cultura, isso é passar dos limites. Mas você sempre pode se mover nas zonas intermediárias, então a comunidade hijra, nesse sentido, num padrão binário claro entre homem e mulher entre os pachtuns, formam uma zona intermediária.” Mas ele diz que essas “experiências de aprendizado” estão se tornando menos comuns, principalmente devido ao acesso cada vez mais amplo à internet e à pornografia virtual.

Enquanto ela e sua “filha” Laila se preparam para uma apresentação de dança, Khushboo atende potenciais clientes. 

No meio ambiente religiosamente motivado de Peshawar, a presença das hijras – como dançarinas ou profissionais do sexo – é reprovada, e os políticos disputam favores fazendo de tudo para expulsá-las de suas casas e locais de trabalho.

Vendo isso, Malik Iqbal quis fazer algo. “Simpatizo com elas porque ninguém quer dar um lugar a elas”, ele me disse.

Ele aluga o escritório que Khushboo e suas colegas usam para se preparar para as apresentações de dança.

“Eu também não estava do lado delas”, diz Iqbal. “Agora eu as ajudo. E digo que elas também são seres humanos. Devíamos sentir empatia pela causa delas. Não apenas eu, todo mundo deveria simpatizar com elas como pessoas.”

Mas alguns dizem que a ligação de Iqbal com as hijras vai além de uma humanidade compartilhada. Ele se recusa a falar sobre isso, mas foi preso em 2010 sob a acusação de tentar se casar com uma hijra chamada Rani. Essa união seria ilegal pela lei paquistanesa, que só reconhece casamentos entre homens e mulheres. Ele negou repetidamente a acusação e afirmou que a polícia estava tentando extorquir as hijras que dançavam numa festa de aniversário, e não num casamento. De qualquer maneira, o choque que a história gerou demonstra o quanto as hijras estão à margem do cotidiano do Paquistão. Um filme de grande bilheteria chamado Bol – lançado em 2011 – pode ter ajudado algumas delas, mas ligações reais, como a de Iqbal, continuam sendo poucas.

E nem todos aqueles próximos às hijras simpatizam com elas. Noor Illahi, dono de uma loja de grãos na mesma rua do escritório das hijras, diz não ter problemas com elas ou com o trabalho que elas desempenham, mas acha que as moças deveriam ir para outro lugar. “Meu negócio sofreu por causa delas. Eu e os outros comerciantes achamos que elas deveriam receber espaço em outra parte da cidade. Isso deveria ser uma coisa separada.”

Ele tem a loja há 15 anos e diz que as vendas caíram em 50% desde que as hijras se mudaram para cá alguns anos atrás. “Há muitas brigas aqui agora. Elas fazem muita cena às vezes.”

As brigas, segundo ele, afastam os cliente. E quem passa pela área está mais interessado nas hijras do que nos sacos de farinha que ele vende.

“Não fico pessoalmente ofendido com elas. Mas veja”, ele diz, apontando para um grupo de homens de branco perambulando do lado de fora do prédio das hijras. “Esses pobres coitados ganham só três ou quatro centenas de rúpias por dia (6 a 8 reais) e vêm aqui gastar tudo com elas.”

Os homens de branco são motoristas de riquixá. Todos negam estar aqui atrás de sexo. “Só viemos conversar com elas”, diz um deles, espiando por cima do ombro para ver se alguma hijra saiu do prédio. “Temos uma relação totalmente inocente com elas.”

De volta ao escritório das hijras, as luzes se apagam devido aos cortes de energia que assolam o Paquistão há anos. Elas terão que esperar mais uma hora antes até se aprontarem para a apresentação. Quando finalmente estão prontas, elas saem completamente cobertas por xales e sob a proteção da noite.

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Tradução: Marina Schnoor

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