Tatiana Blass

A Tatiana Blass é mulher pra casar. Não só por ser uma artista plástica que faz físico o imaterial e dá ânimo ao inanimado, mas também porque adora o conceito de cachorrinhos, é chapa quente que faria seu coração derreter.

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abr 29 2011, 7:55pm

A Tatiana Blass é mulher pra casar. Não só por ser uma artista plástica que faz físico o imaterial e dá ânimo ao inanimado, mas também porque adora o conceito de cachorrinhos, é chapa quente que faria seu coração derreter e teria a moral de calar o trombone na boca de qualquer músico idiota de shopping center. Fora que o sobrenome dela é Blass, e deve ser irado ter um RG assim, Fulano Blass. "Oi eu sou Fulano Blass." "Prazer senhor Fulano Blass." Só que isso provavelmente não vai acontecer, que não sei muito de arte -- só de artimanha. Quem sabe. Enfim, se você quiser conhecer o trabalho dela, tem uma exposição rolando na Caixa Cultural. Vai até dia 1º de maio, vulgo domingo próximo. "Beltrano Blass". Estilo.

Vice: Tatiana Blass é seu nome mesmo ou só artístico?
Tatiana Blass:
É de verdade mesmo. [risos] É descendente de alemão.

Como você começou na arte?
Eu comecei a fazer arte desde criança. Ia a exposições, fazia curso de artes... Sempre gostei muito de ficar experimentando, fazer bagunça de comprar tinta e derreter coisas. Daí entrei na faculdade de Artes Plásticas na Unesp e me formei em 2001. Mas durante toda a minha formação sempre tive uma coisa bem informal, com bastante cursos livres, acompanhamento com outros artistas... Na verdade minha formação foi mais fora da faculdade que dentro. A primeira exposição que eu fiz foi em 98, então desde essa época que eu produzo constantemente e venho expondo.

Você mexe tanto com esculturas como pinturas e vídeo. Com qual desses meios prefere trabalhar?
Eu comecei fazendo pintura. A partir mais ou menos de 2004 que eu passei a fazer trabalhos com estátua, mas a pintura é um pouco o trabalho diário. Só que os outros projetos também me interessam muito, é um outro modo de trabalhar, porque você tem que ter um projeto mais definido.

Odeio a palavra transitoriedade, mas é meio que isso que entendo do seu trabalho. Pode ser?
Na verdade, todos os meus trabalhos você vê desaparecendo, então talvez essa transitoriedade é que você sempre tá vendo ele no processo de desaparecimento. Minha ideia é sempre essa. Quando abre a exposição as obras já começaram a derreter, e até o fim delas elas não vão terminar num ponto final, sempre estarão num processo. Tanto as pinturas quanto as esculturas têm um pouco a ideia de uma despedida, com aquele escorrido, como se fosse ela se desfazendo. Isso foi surgindo a partir de uma ideia minha que era a de criar uma ação nas esculturas, naquilo que é inanimado criar alguma ação. Então as minhas esculturas são meio performances também. Meio que criar uma cena, por isso faço várias referências ao teatro. As esculturas estão um pouco encenando uma ação.

E por que animais? Por que são fofinhos?
Na verdade a escolha do cachorro foi mais conceitual que afetiva. Eles começaram a surgir nas esculturas como atores impossíveis -- estão ali nessa peça em aberto interpretando um papel impossível, porque é impossível de eles interpretarem, falarem os textos, terem uma intencionalidade no seu comportamento... Então a escolha dos cachorros veio meio nesse sentido, de criar uma situação meio absurda dos cachorros como atores, criar um certo estranhamento.

Os moldes são feitos de modelos vivos?
Todos os moldes são feitos a partir de outras esculturas. Aquele do homem foi feito a partir de um boneco, um manequim, que eu vesti e fiz as articulações todas.

E a sua nóia com ocupação de espaços, tipo nas peças do trompete e do próprio cavalo?
Trompetes são da mesma série do piano, são cinco trabalhos que eu fiz com instrumentos. Também tem com baterias, tuba, trompete e trombone. Em todos eles eu emudeço os instrumentos. Na Bienal teve a performance mesmo, que a cera ia emudecendo o piano enquanto era tocado, e o trompete tem essa trava que continua meio que o movimento do próprio instrumento, mas que emudece. Ele é calado. É uma reflexão sobre a dificuldade de comunicação, o que se diz e o que se entende. Vários dos meus trabalhos têm uma ideia de criar uma fisicalidade do invisível, criar com o vazio – que é o intervalo, o invisível – se tornar algo totalmente visível. Tipo o das patas, que apesar de ter só as patas, você vê o cavalo completo. Já o do trombone você vê a materialidade daquilo que é invisível, que é o próprio som.

Nada de crítica ao excesso de som ou melofobia?
Pode ser uma leitura possível também.

O título do texto do curador na exposição da Caixa Cultural é "O Espetáculo Há de Fracassar". Pra isso eu não tenho uma leitura.
Essa é uma ideia bem do curador. Ele acha que muitos dos meus trabalhos têm essa ideia de criar um espetáculo que nunca se concretiza, ele sempre fracassa. Que no fim sempre decepciona como espetáculo, como algo feito... Sei lá, é uma ideia do curador.

Por falar em ideia, alguma vez já ficou sabendo de uma leitura dos seus trabalhos que não concordou em nada?
Às vezes é interessante ver as várias leituras possíveis, mas às vezes têm coisas que são viagens muito viagens, assim, que eu não consigo enxergar muito. Mas eu crio a obra não pra pessoa chegar exatamente naquilo que eu pensei, porque às vezes o que eu pensei é muito mais longe do que a obra é. Mas acho que existe um meio termo, né, um tanto de informação que é importante. Se a pessoa acha que o cachorro não é de cera e é de verdade, muda totalmente a leitura. Às vezes as informações até técnicas ajudam a criar uma leitura mais plausível do que a obra é mesmo. Na Bienal tinha uma estudante adolescente que descobriu que eu era artista e veio falar pra mim que ela achava que aquele trabalho era sobre a luta de classes, um pouco que o rico no fim massacrava os pobres [risos]. Ela fez uma leitura muito louca que eu não sei de onde ela tirou, acho que era uma questão muito mais da cabeça dela que o que realmente estava na obra.

Entendi.
Acho que quando as pessoas se permitem viajar e entrar na história eu acho legal, por mais absurdo que seja. O que mais frustra é quando não causa nada, tipo “ah, ela estragou um piano, quanto será que ela gastou?” -- quando fica nesse negócio muito objetivo, material. Quando a pessoa já vai com uma cabeça super fechada pra viagem contemporânea. Isso decepciona.

TEXTO POR BRUNO B. SORAGGI
FOTOS: REPRODUÇÃO

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