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O criador de 'Black Mirror' diz que a atual temporada é toda sobre gamification

Charlie Brooker explica com que conceito amarrou os seis últimos episódios da série e fala que não tem medo da tecnologia.

por Whitney Mallett
08 Novembro 2016, 3:09pm

Foto cortesia da Netflix.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Nos últimos dois anos, as histórias de Black Mirror têm ecoado bizarramente na vida real. Primeiro tivemos os rumores de que o primeiro-ministro britânico David Cameron inseriu o pênis na boca de um porco morto como parte de um trote universitário — algo muito similar ao primeiro episódio de 2011 de Black Mirror, "Hino Nacional". Aí, em maio passado, uma jornalista e empresária russa que mora em São Francisco criou um chatbot imitando o estilo de conversa de seu melhor amigo recém-falecido, inspirada no episódio de 2013 "Volto Já". Apesar de algumas tecnologias do futuro, ainda não disponíveis, que surgem em outros episódios, as questões sobre as consequências sociais da tecnologia em nossas vidas têm se mostrado provocações relevantes.

Nos seis episódios da última temporada de Black Mirror, a série satírica segue o formato das temporadas passadas: cada episódio tem um elenco e uma realidade futura diferente — de soldados com implante de realidade aumentada a uma mulher tentando melhorar sua classificação nas redes sociais para se qualificar como moradora de um condomínio fechado. Alguns episódios contam histórias possíveis com nossas webcams e smartfones atuais, enquanto outros capítulos vislumbram um futuro mais além, especulando o que pode ser possíveis com as novas tecnologias.

Também há um tema da realidade se tornando um jogo em todas as histórias, para o bem ou para o mal, o que faz sentido considerando que o criador de Black Mirror, Charlie Brooker, começou sua carreira escrevendo sobre videogames. Além de escrever críticas sobre jogos no meio dos anos 90, Brooker também fazia uma tira para o PC Zone chamada Cybertwats, que já sugeria sua inclinação pela crítica social. Trabalhando no jornalismo impresso e na TV nos últimos 20 anos, a carreira de Brooker é muito variada, seja escrevendo sobre TV e uma coluna estilo "e se" chamada "Supposing" para o Guardian, e fazendo o roteiro da brilhante sátira Nathan Barley, a série de falsas notícias The Brass Eye e a paródia de Big Brother com zumbis Dead Set. Todas essas empreitadas mostram uma inteligência cínica que fica bem clara em Black Mirror.

Falamos com Brooker sobre reimaginar o que a série seria nesta temporada, suas influências indo de Além da Imaginação até Monty Python, e como ele não se assusta com a tecnologia.

VICE: Como você se sente quando alguns episódios da série viram realidade em certo grau? Temos o Piggate, claro, mas você também ouviu falar na russa que usou um episódio como inspiração para criar um chatbot baseado no histórico de mensagens de um amigo morto?
Charlie Brooker: Isso é muito louco. Acho que se prevemos algumas coisas que se tornaram realidade, foi pura sorte. Basicamente estamos tentando extrapolar com coisas que existem agora, então de certa maneira isso iria acontecer mesmo. Algumas ideias me parecem inevitáveis. Provavelmente recebemos mais crédito do que merecemos, mas eu aceito [os créditos] alegremente. Claro, o Piggate foi muito bizarro. Esse foi o [episódio] mais estranho até agora. Mas quando estamos tentando prever o futuro, às vezes teremos sorte. Felizmente as pessoas não notam as coisas que adivinhamos errado.

Quando você está escrevendo esses episódios, é um desafio equilibrar o arco emocional ou a narrativa com a crítica social mais conceitual?
É meio que apenas usar músculos diferentes. Nesta temporada, abordamos cada episódio como um gênero diferente. Dentro da temporada, "Odiados pela Nação" é uma narrativa policial enquanto "San Junipero" é um romance, uma história de amadurecimento. Tenho uma janela de atenção curta, então gosto de muita variedade. Quando estávamos filmando a primeira temporada de Black Mirror, ao mesmo tempo eu estava trabalhando numa série que era quase uma imitação de Corra que a Polícia Vem Aí [A Touch of Cloth]. Sempre gostei de fazer várias coisas diferentes.

Também acho que muitas das ideias de Black Mirror surgem de conversas cômicas que costumo ter. Ou talvez uma tendência das pessoas dizerem "a série é sobre tecnologia, blá, blá, blá, e se leva muito a sério". E eu acho que não. Acho que a série é bem engraçada. Quando tenho essas ideias, geralmente é no meio de uma gargalhada.

San Junipero" foi meu episódio favorito desta temporada. Acho que a história é interessante porque é mais uma utopia que uma distopia.

Foi o primeiro episódio que escrevi para essa temporada. Não quero dar spoiler para quem não viu ainda, mas eu estava conscientemente tentando resetar o que Black Mirror é ou pode ser. Como estamos fazendo seis episódios esta temporada (e na próxima), eu queria mais variedade do que vimos antes. Então escrevi esse episódio conscientemente, em parte, como uma resposta para quem estava dizendo "Ah, agora vai ser tudo norte-americano porque eles estão na Netflix". Aí eu pensei: "Foda-se então, vou colocar o cenário na Califórnia e no passado, e até dar um final esperançoso". Em parte, também foi para manter as coisas interessantes para mim e para reinventar o que a série é.

Charlie Brooker e Annabel Jones. Foto cortesia da Netflix.

Como é colaborar com diferentes diretores em cada episódio? Às vezes é uma versão mais escura do futuro, as vezes uma mais brilhante. Isso é algo que está no roteiro ou a visão que o diretor traz à mesa?
Varia muito. Às vezes isso está explícito no roteiro. Num episódio como "San Junipero", o jeito como descrevi o clube, tem uma frase dizendo "ele é todos os filmes dos anos 80 que você já viu". Então às vezes, essas coisas estão escritas. Mas outras vezes [essas descrições] não estão no roteiro. Em "Queda Livre", dirigido por Joe Wright, a coisa do mundo inteiro em tons pastel não estava no roteiro. Foi um nível extra que ele trouxe.

Queremos que cada episódio pareça idiossincrático e diverso. Todos episódios têm um tom diferente porque encorajamos isso. E diretores diferentes têm obsessões diferentes. Todos os diretores são obcecados e obsessivos de alguma forma, acho, mas todos se prendem a coisas de um jeito que não podemos prever e isso dá uma textura extra para cada história.

A série também é muito colaborativa. Todo mundo se envolve. A [cocriadora] Annabel [Jones] e eu nos envolvemos em cada detalhe. Tudo é uma conversa: o figurino, o design, os cenários, o tom, a trilha sonora. É tudo colaborativo basicamente.

Quais são suas maiores influências em sci-fi? O episódio das abelhas "Odiados pela Nação" me lembrou muito um romance de Michael Crichton que li quando era mais nova, Presa.
Nunca li muita ficção científica, a menos que você considere Stephen King sci-fi. Li o Guia do Mochileiro das Galáxias. Leio ficção de horror. Mas gosto mais de ler não-ficção, sinceramente. Mas eu assistia a séries como Além da Imaginação, Totally Unexpected e The Hammer House of Horror. A BBC fez muitos dramas estranhos e perturbadores nos anos 80. Lembro da série de um cara chamado Nigel Kneale, Quatermass and the Pit. Era um negócio muito à frente de seu tempo! Mas prefiro ficção científica especulativa. Gosto de histórias mais amplas de "e se". Adorei coisas como Matrix e O Show de Truman. O Show de Truman poderia muito bem ser um episódio de Além da Imaginação. Gosto muito de ideias baseadas em mundos sobrepostos. Mas meu principal interesse quando garoto era comédia, como Monty Python. Eu adorava tudo que quebrava a quarta parede.

O Twitter é um jogo. O Twitter é o maior RPG da história.

Você também já escreveu muito sobre videogames. Muita coisa nesta temporada parece ser sobre gamification. Vinte anos atrás, a cultura do videogame ficava no mundo dos videogames, e agora parece que os jogos estão em tudo.
O Twitter é um jogo. O Twitter é o mair RPG da história. Acho que muita gente não percebe que está jogando. A transformação em gamification das coisas, como o Twitter, é fascinante. O que qualifica alguma coisa como um jogo hoje em dia é algo muito amplo. Há o argumento de que quase todas as histórias desta temporada têm elementos de videogames. Em "Manda Quem Pode", eles são obrigados a jogar um jogo. Escrevendo "San Junipero", eu estava pensando sobre jogos como Grand Theft Auto: Vice City. É um ambiente livre de consequências. "Engenharia Reversa" se relaciona com os jogos de tiro em primeira pessoa. E "Odiados pela Nação", tem um jogo ali também. Quando cheguei ao final da temporada, percebi que todos os episódios tinham um jogo em si. Mas ninguém tinha mencionado isso, só você!

Ter filhos mudou o jeito como você pensa sobre o futuro?
Sim, porque agora isso me assusta mais. Não a tecnologia. A tecnologia não me assusta. Acho a tecnologia uma coisa incrível. Me preocupo mais com coisas como guerra, intolerância e mudanças climáticas. O mundo agora tem pontas mais afiadas. Não me preocupo com coisas como "ah, os jovens vão passar muito tempo olhando para os celulares". Me preocupo muito mais com o estado do mundo. Porque se alguma coisa vai nos ajudar [a resolver esses problemas] é a tecnologia.

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Tradução: Marina Schnoor

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