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Travesti, prostituta e acadêmica: Amara Moira lança livro sobre trabalho sexual em Campinas

“E Se Eu Fosse Puta” é a primeira obra da transativista e nele a autora narra seu processo de transição e o tempo em que trabalhou como prostituta.

por Marie Declercq
09 Agosto 2016, 6:39pm

Foto: Guilherme Santana

Foi com um sorriso radiante que Amara Moira recebeu a equipe da VICE no apartamento em que mora com sua companheira. Quase não parecia que a travesti e doutoranda em Crítica Literária na Unicamp está passando pela bateria de entrevistas de lançamento do seu primeiro livro, E Se Eu Fosse Puta, lançado pela Hoo Editora.

Parece que lançar um livro, aliás, sempre foi um caminho natural esperado para quem já acompanhava Amara na internet e na militância. Orgulhosíssima exibindo uma reportagem de quatro páginas na revista do jornal O Globo sobre sua trajetória, com 31 anos ela é uma das figuras mais importantes no transativismo e também na luta pela descriminalização e regulamentação da prostituição no Brasil, sendo chamada para inúmeras palestras e debates sobre os assuntos no Brasil e no mundo. A autora também planeja se candidatar para o cargo de vereadora em Campinas, sua cidade natal, ainda no pleito deste ano.


Foto: Guilherme Santana

E Se Eu Fosse Puta, conta Amara, foi criada a partir do blog homônimo, que ela colocou no ar para documentar a sua transição ao se tornar uma travesti e também suas experiências como prostituta. A edição conta com um prefácio ilustrado da cartunista Laerte Coutinho, amiga pessoal da autora, que cedeu algumas tirinhas da Muriel (personagem que também se descobre travesti), além de algumas palavras das ativistas e prostitutas Monique Prada e Indianara.

Amara trabalhou como prostituta em Campinas, cidade que abriga uma das maiores áreas de prostituição da América Latina. "Meu livro é sobre a prostituição, travestilidade e também sobre Campinas, um lugar onde consigo me prostituir com mais segurança, já que estou ao lado das minhas amigas", conta. "É uma cidade que odeio e amo ao mesmo tempo. A gente tem essa maior zona de prostituição e ao mesmo tempo uma Câmara de Vereadores que aprova uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir por causa da tal 'ideologia de gênero'."

Entre os corpos desnudos das trabalhadoras do sexo e a presença de homens em busca do sexo pago em uma das cidades mais conservadoras do estado de São Paulo, simultaneamente algo muito mais especial acontecia com a doutoranda. Ela estava no processo de transição e também construindo sua identidade para formar o que conhecemos hoje, a Amara Moira.


Foto: Guilherme Santana

Nem parece que dois anos atrás ela pediu pela primeira vez para ser chamada por Amara. Tinha 29 anos e "muita passabilidade hétero" no convívio social. Sempre foi bissexual, mas nunca questionada sobre sua masculinidade, já que quase não se relacionava com homens publicamente. Foi durante a Parada LGBT de 2014 que se viu pela primeira vez como Amara, após ser maquiada e montada por uma amiga drag queen. Foi daí que viu que poderia ser quem realmente é. Voltou pra Campinas e assumiu sua nova identidade para a família e também no ambiente da faculdade. "Fui relativamente bem recebida", relembra.

"Não pedi logo de cara para me chamarem de Amara em Campinas, lá ainda precisei testar as águas", relembra. "Voltei para cidade no dia 5 de maio de 2014, aniversário da minha avó de 92 anos, e quando entrei no carro teve (...) um silêncio constrangedor. Minha avó pegou na minha mão a falou que ia rezar por mim pra eu voltar ao normal. Quando a gente deixou a minha avó na casa dela, minha mãe passou uma semana chorando. Ela chorava num dia e no outro me ajudava a pentear a peruca e depois chorava. Num dia me ensinava a fazer a cutícula e voltava a chorar. Ela estava tentando lidar com os limites dela."

Já no processo de transição, Moira sentia que precisava viver como travesti para existir no mundo externo e também vencer um medo antigo da rua. Durante a transição, notou que a tratavam como prostituta só por ser travesti, por isso começou a atuar como trabalhadora do sexo para entender como é a dinâmica das ruas e das outras travestis que faziam o trottoir — que se tornaram suas amigas e cúmplices.

"Na rua [em São Paulo] é uma contra outra, para além de qualquer relação afetiva."

"Nas vezes em que fui tentar trabalhar em São Paulo, fui muito hostilizada", relembra. "Na rua é uma contra outra, para além de qualquer relação afetiva. Em Campinas não senti isso. Por mais que me colocassem como uma rival, uma concorrente, eram amigas fazendo isso, e trabalhar entre amigas é muito diferente. É difícil ter estrutura para você trabalhar em um ambiente tão hostil", conta.

"[Como trabalhadora do sexo] sentia que estava conseguindo existir também para os outros e não só para mim mesma."

Ainda que em meio a um ambiente tão competitivo, se prostituir nas ruas da cidade foi uma ferramenta importante para que ela conseguisse validar a existência da sua identidade. Os homens que a procuravam davam confiança a Amara, porque eles a enxergavam e a liam como uma figura feminina. "Desta forma, eu sentia que estava conseguindo existir também para os outros e não só para mim mesma."

A ideia de catalogar as experiências com seus clientes e também expor as pequenas e grandes violências que a população trans de rua encontra no Brasil foi tão forte que Amara manteve simultaneamente um diário no qual registrava cruamente os casos e o seu blog, espaço em que, até hoje, tenta tornar a leitura de suas experiências mais leve e, segundo ela, um pouco menos honesta. "Tentei resgatar essa honestidade do meu diário para o livro."

Assim, Amara relata quando um cliente a forçou a fazer sexo oral quando ela exigiu o uso da camisinha, e também as constrangedoras negociações dos preços de cada serviço. "Lembro que tinha momentos da escrita que me dava conta que eu tinha sido violentada, mas na euforia do tesão você não percebe que o cliente passou do seu limite", diz. "Às vezes não é óbvio, mas quando comecei a escrever as histórias e conversando com a minha namorada, a Terra, eu pegava o texto, reescrevia, e meus sentimentos variavam entre ficar na bad ou em lembranças prazerosas."


Foto: Guilherme Santana

Na delicada discussão sobre prostituição, uma pauta que tanto a direita quanto a esquerda parecem muito melindrados em efetivamente debater, Amara diz que o discurso feminista ainda é muito escasso no contexto da prostituição de rua — e muito menos empoderador. "Acho que é possível chamar de empoderador quando você cobra R$ 300 por programa. Quando você cobra R$ 20 é mais difícil estabelecer esses limites. As prostitutas, por conta do ambiente hostil no qual elas trabalham, acabam tendo que desenvolver couraças e ferramentas para lidar com esse tipo de hostilidade e aprender rápido a não ter medo de homem."

"O cliente chega chapado de tesão e quando ele goza vem o choque de realidade que faz ele lembrar que sou uma figura execrável na sociedade", conta Amara. "Ele me repele, sequer me toca mais e sai correndo. Dois minutos antes de gozar ele quer me salvar. Quer me ajudar a arrumar emprego no telemarketing, me apresentar pra família, casar, me bancar. Nunca fui tão pedida em namoro na vida quanto nessa época."

Amara, entretanto, não deixa de enxergar a profissão também como uma via de libertação para mulheres e pessoas trans. "Para a travesti que escolhe fugir de casa e vai ser prostituta, por exemplo. Ela sai de um lugar onde ela é muito violentada e vai para outro que vai a violentar de outras formas, mas dá à ela o direito de viver com um pouco de autonomia, como ela deseja."

Então seria a prostituição uma forma de se empoderar? Para Amara, não: "Eu nunca vou colocar a prostituição como empoderadora porque trabalho nunca será empoderador, como a própria Monique Prada costuma falar. Mas é preciso entender as peculiaridades da vida que se tem nesse trabalho e que tipo de pessoa é formada a partir daí".


Foto: Guilherme Santana

O livro da doutoranda parece um bom começo para entender as complexas relações entre o cliente e a prostituta. Eles, sem saber, foram extremamente objetificados e estudados pela travesti que atendia aos programas e saciava os desejos deles para escrever seus textos detalhados e incrivelmente sensíveis. Poucos que a procuravam nas ruas sabiam do blog de Amara, o que facilitou na catalogação das experiências. Nenhum deles descobriu que foi eternizando em uma passagem escrita.

Com o lançamento do livro, Amara pretende abrir espaço para uma literatura travesti brasileira, feita por travestis e com o vernáculo próprio das ruas, o pajubá. Ela espera também que sua história possa ajudar a abrir lacunas para mais trans e travestis ocuparem mais espaços na literatura e em outros âmbitos inesperados pela sociedade.

O livro já está à venda nas livrarias de todo o Brasil e nesta terça (9), pra quem estiver em São Paulo, a autora participa de uma noite de autógrafos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a partir das 18 horas. O evento também terá participações ilustres da Mc Linn da Quebrada, Laerte Coutinho e um bate-papo entre a Amara, Indianara Siqueira e Monique Prada, mediado pela escritora Clara Averbuck.

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