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As noivas de Thock: Como o PCC lida com as mulheres

Especialistas explicam a relação entre a facção criminosa e as mulheres — que foram fundamentais em um dos episódios mais importantes da história da facção.

por Marie Declercq; ilustrado por Juliana Lucato
16 Maio 2016, 7:08pm

Ilustração por Juliana Lucato.

Há dez anos, São Paulo parou. Pânico na Zona Sul. Pânico em SP. Caos mental geral. Na noite de 12 de maio de 2006, sexta-feira, a maior organização criminosa da história do Brasil, o PCC, pôs em prática um ataque simultâneo a dezenas de alvos pela cidade e motins por cadeias em todo o estado. 59 agentes policiais foram mortos. A retaliação veio com força total, de farda ou capuz, e, nos dias seguintes, centenas de civis morreram por arma de fogo. Este bangue-bangue urbano moderno virou São Paulo do avesso, e, guardadas as devidas proporções, deixou uma marca profunda na psiquê coletiva da cidade, à lá 11 de setembro. Aproveitamos a ocasião de uma década dos Crimes de Maio para relembrar, com uma série de matérias em todos os nossos sites, a fatídica semana, um trauma social que até hoje tem imensa influência na sociedade paulista, das favelas ao Jardins, passando pelo Palácio dos Bandeirantes.

Rodeadas de boatos (como a existência de um Comando Feminino) e dizeres sobre sua predileção pelo "amor bandido", a participação das mulheres nas atividades do Primeiro Comando da Capital, a maior facção criminosa no Brasil, é cheia de complexidades— e foi decisiva em um dos episódios mais importantes na história do PCC.

Quando seus familiares, maridos ou namorados estão atrás das grades, muitas vezes são elas que precisam assumir algumas atividades da organização criminosa no lado de fora. Elas que prestam apoio aos homens encarcerados, a fim de supri-los trazendo itens de contrabando e também prestam apoio emocional e sexual. Porém, o PCC sempre foi uma organização nascida em um ambiente completamente masculino (no sistema carcerário) e ela é, até hoje, formada por homens. O protagonismo feminino na facção sempre foi secundário e tradicionalmente ligado aos papéis conservadores estabelecidos na sociedade.

Central Telefônica

Na fase inicial da organização criminosa entre os anos 1990 e o começo dos anos 2000, quando ainda eram os fundadores que estabeleciam as diretrizes gerais e emitiam ordens, as chamadas de "primeiras-damas" gerenciavam toda a troca de informações dentro para fora da cadeia.

Segundo Márcio Sérgio Christino, procurador de justiça de São Paulo e 1º Vice-presidente da Associação Paulista do Ministério Público, a atuação das mulheres nessa primeira época era operar as chamadas "centrais telefônicas" garantindo os pilotos de cada uma das unidades prisionais "dominadas" e os membros do lado de fora pudessem se comunicar.

"As mulheres tiveram um papel muito relevante na época porque não tinha celular e a comunicação não era como hoje em dia. Eram elas que ficavam transmitindo e trazendo as mensagens. Como se fossem gerentes mesmo, tanto é que os membros do PCC que não estavam presos se dirigiam a elas para receber orientação sobre o que fazer, " explica o procurador.

Na cúpula das primeiras damas que gerenciavam a central telefônica, algumas se destacaram na época. "A Petronilha Maria de Carvalho Felício, mulher do José Márcio Felício, o Geleião, e a outra era Aurinete Félix da Silva, esposa do ex-líder César Augusto Roriz, o Cesinha." De acordo com o procurador, a ex-mulher do Marcola, a advogada Ana Olivatto, também fazia parte dessa cúpula feminina anos para frente, que tomavam decisões e administravam contas na impossibilidade de seus maridos, encarcerados, assumirem.

Foi na megarrebelião, quando 25 mil presos distribuídos em 29 presídios iniciaram a maior ação registrada no país (perdendo depois para as rebeliões do Salve Geral), em 2001 que a ação feminina se provou crucial para o sucesso da operação. Foi Sueli Rezende, apelidada de "Mãezona" pelos demais, que "recebeu a ordem e que em 48 horas conseguiu compactar todas as centrais e passar essas informações e organizar toda a ação", relembra Christino.

"Essa porra é um campo minado"

"O PCC tem um viés absolutamente conservador. Então há uma reprodução da estrutura social ou do papel que a mulher exerce na sociedade, no que diz respeito aos homens. Por isso que elas ocupam com menos frequência posições de liderança na organização", explica Camila Nunes Dias, doutora em Sociologia pela USP, professora na UFABC e pesquisadora-associada ao NEV-USP.

A relação feminina com a facção é, de uma certa forma, complexa. Antes da consolidação da facção das comunidades pobres e periféricas de São Paulo, reinavam a resolução de injustiças por meio de retaliações feitas pelas próprias mãos. A ausência de polícia e o descaso do estado nesses locais resultavam em maior número e mortes e também de no aumento da criminalidade. Com a entrada da facção, regras de condutas foram inseridas nas comunidades, construindo uma relação com base do temor, mas também apresentou o PCC como uma autoridade para solucionar injustiças.

Para as mulheres, circular nas ruas melhorou. Um pouco. O crime de estupro é veementemente repudiado pela organização criminosa, o que deu um certo respiro às moradoras femininas. Porém, a facção não deixa de ter preceitos conservadores, o que significa que a violência doméstica está longe de ser uma atitude combatida.

O dito status social que é incumbido a mulheres que namoram ou casam com membros da facção também geram obrigações. E são essas obrigações que pautam a participação das mulheres nas atividades do PCC. Tanto Christino quanto Dias apontam que a esmagadora maioria da participação feminina no mundo do crime se dá pela relação familiar ou amorosa.

"No PCC e no mundo do crime em geral tem uma postura bem marcada pelo machismo. É uma postura muito tradicional e conservadora. Isso faz com que seja comum o homem poder ter amantes e a mulher deles serem pressionadas para serem fieis, que não seja admitido que ela largue o homem preso e deixe de cuidar dos filhos e deixe de visitá-lo na prisão", explica Camila.

A relação de poder se reproduz mesmo quando o marido vai preso. Nesse ponto, começa o que Camila chama de "empoderamento de preso", quando a mulher e a família vão visita-lo sempre que possível. Esse apoio não é só emocional e sexual, mas também supre os meios que não existem na cadeira. Como trazer comida que não seja a de qualidade duvidosa fornecida pelo estado, itens de higiene básica, cigarros e outro produtos que servem como moeda de troca entre os detentos.

No livro Casadas com o Crime do jornalista Josmar Jozino, também aponta que uma das funções das mulheres envolvidas com a facção é de organizar o transporte das famílias dos membros encarcerados até os complexos penitenciários nos dias de visita e também acertar pagamentos com os advogados de defesa. Esse tipo de função cria uma lealdade dos detentos com o PCC e fortalece a dominação da facção nas cadeias brasileiras.

"Essa participação das mulheres de presos sempre foi uma constante e inclusive algumas delas cuidavam da contabilidade e dos negócios do marido que cumpriam pena. Um homem que está na prisão está limitado e precisa de alguém para cuidar dos seus negócios. Ele precisa de uma pessoa de confiança e em muitas situações, a mulher é alguém que naturalmente vai assumir esse papel no âmbito do PCC, de forma indireta," explica Dias.

Christino resume: "Eu nunca vi nenhuma mulher sem nenhuma relação com alguém do PCC chegar direto para a facção e pedir para ser parte da organização. A Maria do Pó talvez, mas ela era independente da organização. "

A hierarquia do caos

"É um erro quem atribui ao PCC uma hierarquia definida", explica o procurador sobre a suposta organização da facção. "É uma situação que deixa qualquer especialista em organograma maluco, porque é um tipo de organização que varia de acordo com a relação entre os membros. Às vezes eles se aproveitam de um momento, de algum feito grande e conseguem influência para mandar. Jogar uma hierarquia ao PCC é um erro muito grande, porque ela não existe. Há um núcleo superior, mas varia. Às vezes alguém ganha força e se impõe contra quem está acima dele."

O procurador descreve que em diversas situações mulheres são colocadas como um peão de xadrez para conseguir executar algum tipo de trabalho. A oportunidade, como dito acima, impera nesses casos. E é aí que uma mulher pode vir a prestar um serviço grande para a organização e conseguir, talvez, uma certa influência.

"Eles pensam em dinheiro, no business. Se é mulher, não é mulher, não importa. É a ocasião e a oportunidade. Eu não vi e nem ouvi alguém dizer que fulana por ser mulher não podia fazer tal coisa", diz.

Já Camila Nunes Dias, reconhece que não é possível estabelecer uma diretriz imperativa na facção criminosa, porém aponta que há alguns pontos passivos.

"O PCC tem uma organização hierárquica que é de forma geral muito descentralizada operacionalmente na administração das atividades diárias", explica a pesquisadora. A facção tenta distribuir as ordens por meio dos códigos de discagem de São Paulo. "Então você tem a sintonia do 12, a sintonia do 13, 14, 15, isso considerando todo o estado. Essa hierarquia, vale lembrar, que ela tem uma duplicidade: dentro do sistema prisional e fora dele. Então em cada unidade prisional tem uma pessoa responsável pela gestão daquela unidade, acima dela tem uma sintonia da região correspondente e por último você tem a sintonia geral final de São Paulo."

Segundo Camila, a sintonia geral final, a cúpula mais alta da organização criminosa, existe para definirem as diretrizes gerais das ações que serão planejadas pela organização. Porém, é um tipo de estrutura que frequentemente sofre mudanças pontuais.

Diário de uma detenta

Nascido dentro da Casa de Custódia de Taubaté, toda a nata do funcionamento e aplicação do Primeiro Comando da Capital acontece nos presídios. Grande parte das cadeias são "dominadas" pela facção que controla a entrada de drogas, o relacionamento entre os presos e também define cada grupo de liderança por trás das grades.

Assim, a mesma construção social tradicional da facção se reproduz no microssistema do sistema carcerário. E isso é reproduzido dentro da própria estrutura do PCC.

Os presos homossexuais ou transgêneros, proibidos pelo código da organização criminosa, assumem as atividades que costumam ser atribuídas às mulheres. "Eles assumem as funções como lavar a roupa e limpeza de celas do preso que ele pode a vir ter um relacionamento, mas isso não pode ser confundido com a faxina, que é um grupo de liderança. Eles limpam as celas dos outros e isso pode ser pago de diversas formas como cigarro, alimento e a fins."

Segundo Dias, se um presídio tem lavanderia, é lá que os homossexuais trabalharão durante o dia. Porém, a participação do homem gay é restrita à essas atividades. "Eles não serão ouvidos ou vão participar de qualquer instância decisória."

Quanto às mulheres encarceradas, essa dinâmica de poder persiste. Há sim um domínio forte da facção nos presídios femininos, porém é visto como algo natural ao sistema penitenciário. As cadeias de mulheres não são necessariamente parte do núcleo de pilotos do PCC, mas sim são encaradas mais como "uma pequena franquia".

A jornalista Nana Queiróz, diretora executiva da revista AzMina, passou quatro anos circulando entre prisões femininas para escrever o livro Presos que Menstruam, um precioso relato que mostra as condições precárias das detentas do Brasil. Nesses anos, Nana ouviu de diversas entrevistadas sobre a influência da facção criminosa nas prisões, especialmente no que tange ao tratamento da ala evangélica, que é proibida de ser agredida.

"As lideranças que tem no sistema carcerário feminino acompanham a hierarquia do casamento do lado de fora", explica Nana. Ou seja, se a detenta for mulher de um homem com uma posição importante na organização criminosa, ela se copia dentro do sistema carcerário.

Porém, além da dominância do PCC, a formação de grupos nas cadeias femininas também se forma a partir de casamentos construídos a partir da "homossexualidade temporária". "Elas se relacionam e até se casam. E se alguém mexer com ela, vai ser agredida. Os grupos se formam muito mais em torno desses casamentos do que na organização de grupos de facções criminosas", conta Queiróz.

"O sistema carcerário é ainda muito masculinizado. É um lugar feito para homens, e nas próprias unidades prisionais femininas, tudo isso tem como o modelo masculino que acaba dando sustentação a tudo isso", resume Dias.

Sobre a influência das cadeias femininas nas decisões da facção, os três entrevistados concordaram que a influência é ínfima em comparação com as masculinas. "Não tem o impacto e a força perto do que é o masculino. É uma força análoga aos presídios masculinos. Nunca vi nenhuma peculiaridade nos presídios femininos. Nenhuma prerrogativa feminina. Não digo que eles não se importam, é como se fosse uma agência pequena. Até porque não retorna lucro, não tem grande movimentação financeira, " explica Christino.

Mulher do poder

Embora ser muito cedo para saber, há de se considerar a crescente na representação das mulheres no crime por conta do aumento de mulheres presas por tráfico nos últimos anos. A atividade é praticamente toda controlada pelo PCC no estado de São Paulo.

Muitas vezes, a relação da mulher com o tráfico é mediada pelo marido ou familiar que exige o transporte de pequenas quantidades de droga ao complexo presidiário, porém Dias acredita no protagonismo próprio delas.

"Levando em conta esse crescimento, podemos pensar o seguinte: De um lado elas podem estar assumindo os negócios dos homens presos, mas de outro você pode pensar que as próprias mulheres que estão assumindo o protagonismo no sustento da família também estão assumindo essas funções no mercado ilícito de drogas," especula.

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