Educação Ocupada

A Maior Escola de São Paulo Está Ocupada

Acompanhamos as primeiras horas da ocupação na Escola Estadual Brigadeiro Gavião Peixoto. Um policial chamou uma estudante de "piranha".

por Peu Araújo
19 Novembro 2015, 11:30am


Manifestantes e policiais conversam em frente ao portão principal. Foto: Felipe Larozza/VICE

A Praça Inácio Dias, em frente à estação Perus de trem, está com seu movimento quase típico. Vendedores fazem seu corre noturno, dogs passeiam à espera de um pedaço de comida e alguns adolescentes bem de rua tomam um corote com refrigerante, trocam ideia e vez ou outra desfilam em seus skates.

Sob os olhares curiosos de quem espera o busão, alguns jovens, pouco mais de 20, se concentram na intenção de ocupar o 64º colégio público no Estado de São Paulo. A bola da vez tá a algumas quadras dali com os portões fechados a cadeado. A Escola Estadual Brigadeiro Gavião Peixoto é a maior do Estado, com 36 salas e quase 4 mil alunos – e passa, assim como outros colégios administrados publicamente, por grandes problemas estruturais. "Falta merenda, falta merendeira, falta limpeza, tem superlotação em salas de aula, tem algumas com até mais de 60 alunos. Tem insetos e bichos. Semana passada, entrou uma cobra dentro da sala de aula", afirma G.G.E., de 17 anos, aluno do 3º ano do Ensino Médio.


Concentração na praça da estação de trem. Foto: Felipe Larozza/VICE

O colégio está fora da lista das reorganizadas anunciada pela Secretaria Estadual de Educação, mas está ocupado com duas finalidades: servir de base para outras ocupações e reivindicar melhorias locais. "O Gavião é uma das maiores da América Latina, e aqui a gente acha que vai ter uma visibilidade maior por causa do transtorno que vai causar. Vai realmente atingir muitas pessoas. A gente pensou numa base de apoio, e escolhemos o Gavião pelo tamanho e pela visibilidade que pode ter", confirma V.A.S., de 16 anos, a principal porta-voz entre os secundaristas.

O principal transtorno para a tomada do pátio foram os três cachorros, um deles de grande porte, que vigiam o colégio durante a noite. O cadeado principal foi quebrado com um pé de cabra por volta da meia-noite; minutos depois, o segundo portão também foi aberto. Os cachorros bradaram, bradaram e acabaram sendo domados. Em pouco mais de cinco minutos, cerca de 40 pessoas transitavam pelo amplo e malcuidado pátio do Gavião Peixoto.


Os primeiros a entrar na escola e o dog-treta ao fundo. Foto: Felipe Larozza/VICE

Skate pra lá, cadeira pra cá, pinta faixa, prende faixa, corre, conversa com a caseira da escola, controla a euforia, muda os planos e pronto. Uma faixa amarela escrita em preto estampa no portão principal um enorme "OCUPADO!!!" Agora é oficial.


Pé de cabra no segundo portão. Foto: Felipe Larozza/VICE

Por volta de 1h30 da madrugada, a primeira viatura estaciona em frente à escola; 20 minutos depois, chega a segunda. A terceira viatura encosta às 2h10. A última delas, com o Tenente Maycon, responsável pela operação, chega por volta das 2h20. A abordagem policial, entre pressões e ameaças, não muda muito em relação ao que é visto em outras ocupações estudantis na cidade. Os policiais tentam subir o tom de voz, avisam que vão prender todo mundo, que estão marcando a cara das pessoas. Entre os principais mediadores, está o estudante universitário Pedro Serrano. Ele analisa a presença da Polícia Militar. "A ação foi típica da polícia. Foi arbitrária, desrespeitosa, o tempo todo flertando com a transgressão da lei. Ao mesmo tempo, o limite em que eles atuaram demonstra que, de fato, existe uma determinação judicial que os impede de entrar."


Estudantes ocupados em Perus. Foto: Felipe Larozza/VICE

"Cada vez vocês se enrolam mais no crime", comenta um policial num tom acusatório. "Cadê o advogado?", questiona outro oficial. "Eu quero ver as instalações da escola." Se não abrirem, eu vou pular e vou entrar aí." "Parece que você está mal assessorado." "A gente não precisa da autorização de ninguém não. A gente cai pra dentro e sai arrebentando, prende todo mundo por desacato", brada o Sargento Cristiano. Segundo os policiais, neste momento um grupo de estudantes cometeu um desacato, chamando-os de coxinhas. Eles relatam que, em voz baixa, cantaram: "Ei, coxinha. Para com a farinha".


Clima quente entre manifestantes e policiais militares. Foto: Felipe Larozza/VICE

A confusão se intensificou porque os policiais tentavam alegar que os estudantes estavam mantendo a zeladora da escola, Maria de Fátima Xavier, seu marido e uma de suas filhas em cárcere privado – e ficou ainda mais grave quando outra filha da funcionária tentou entrar no colégio. No meio da confusão, um oficial, identificado como Marcelo, fala para uma das linhas de frente, tentando-a convencer a abrir o portão. "Menina, qual o seu nome? Antes de virar as costas enquanto eu tô falando. Vocês não tem que resolver nada. Ela é filha da mulher que tá aqui, ô sua...", olhando pra baixo e em voz baixa, ele completa. "... piranha".

A corrente colocada pelos manifestantes foi quebrada pela Polícia Militar, porém nenhum policial colocou o pé dentro do Gavião Peixoto. Por volta de 3h da madrugada, uma a uma, as viaturas, foram deixando a Rua Mogeiro. O portão desprotegido recebeu novamente o cadeado.


Apesar de terem quebrado as correntes, nenhum policial entrou na escola. Foto: Felipe Larozza/VICE

Suco de uva em pó, pão de forma, mortadela. Colchão, lençol, barraca, improviso. Os estudantes foram sendo vencidos pelo cansaço; assim, com exceção da molecada do skate e da zoeiragem que tentava pular quatro cadeiras ao mesmo tempo ou continuava dando uns slides pelo pátio, o clima foi se acalmando lentamente até o dia raiar esperançoso. "A gente não vai desistir. Vamos ficar até conseguirmos um acordo. A nossa quadra está interditada há quatro anos, e a gente não teve nenhum suporte. Se tem dinheiro pra abrir outras escolas, não tem dinheiro pra investir aqui?", explica V.A.S.


Barricadas na entrada do pátio principal. Foto: Felipe Larozza/VICE

O aluno do 1º ano do Ensino Médio F.P.A., de 14 anos, explica o porquê de estar ali. "Eu tô aqui porque eu tenho de lutar pelo que eu preciso, pelo que eu quero, e eu quero uma escola boa pra mim. Aqui falta professor, professor que saiba ensinar, falta porta na minha sala. Falta muita coisa." Tainá Teixeira, secundarista de 19 anos que saiu de Itaquera para apoiar a ocupação, completa: "Eu tô aqui porque eu acredito num ensino melhor. Um ensino que nos dê capacidade de entrar numa faculdade pública e seguir a carreira que a gente quer."


Cochilo antes da assembleia. Foto: Felipe Larozza/VICE

As cadeiras estão cuidadosamente montadas no ginásio que há quatro anos não grita gol. A assembleia reunirá estudantes, professores e direção para definir os próximos passos da ocupação que, por ora, continua ativa.


Quadra interditada há quatro anos será sede da assembleia. Foto: Felipe Larozza/VICE

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