Conversei com o Brasileiro que se Juntou às Forças pró-Rússia

Depois de sair da cadeia após ser enquadrado nos protestos contra a Copa do Mundo, Rafael se mandou para o recém-criado estado de Nova Rússia, custeando do próprio bolso a viagem para virar soldado voluntário em uma milícia rebelde pró-Rússia.

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set 29 2014, 6:54pm

Rafael segurando uma AK74 e um lança foguetes descartável soviético.Todas as fotos são cortesia do próprio Rafael Marques Lusvarghi.  

Fale o que quiser do ativista paulista Rafael Marques Lusvarghi, de 30 anos, mas ele tem culhões. Talvez você se lembre de Rafael por ele ter sido enquadrado - injustamente, segundo o próprio - por atos violentos, tumulto, desobediência e acusação de ser um dos black blocks nos protestos contra a Copa do Mundo no Brasil. Depois de sair da cadeia, comprou a briga alheia e se mandou para o recém-criado estado de Nova Rússia, custeando do próprio bolso a viagem. Virou é soldado voluntário em uma milícia rebelde pró-Rússia que apoia Putin. Rafael cultua a mitologia nórdica como uma religião: considera-se um guerreiro e diz que morrer em combate o levará ao paraíso. Tem uma cicatriz "fabricada" no rosto - segundo ele, homenagem aos seus ídolos, os guerreiros mitológicos. Falei com ele pela internet.

VICE: Onde você se encontra agora? Ucrânia?
Rafael Marques Lusvarghi:
Não, eu não estou na Ucrânia; eu estou no Donbass, na Nova Rússia.

Há quanto tempo?
Estou aqui desde 20/09/2014.

Você está perfilado em quais das frentes?
Estou do lado das forças da nova Rússia; os milicianos pró-russos têm sido chamados pela mídia de separatistas, mas quero deixar claro que são os agentes de Kiev que quiseram separar o Donbass da Rússia, que a população daqui é russa, fala russo, se sente russa. Quero precisar que respondi ao chamado da Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrânia (que, apesar do nome, é pró-Rússia) e da Brigada Continental, braço armado da organização Unidade Continental, movimento que é a síntese entre as Forças Armadas da Colômbia e o Resbolah. Le Brigade Continental no Donbass depende do Batalhão Prisrak, do comandante Mozgovo. Faço parte do batalho Prizrak, que é formado em maioria por voluntários russófonos da região do Donbass. Nossa situação aqui pode não ser legal do ponto de vista internacional, mas é legítimo do ponto de vista do povo do Donbass. Quando as leis internacionais se tornam criminosas, é legítimo transgredi-las para fazer a justiça ser respeitada.

Você pretende ficar aí até quando?
Meu camarada, até o fim, a qualquer custo.

Rafael, quando e por que você decidiu lutar nesse "barril de pólvora"?
Luto pela Nova Rússia, no Donbass. Decidi assim que começou a guerra: primeiro, por meu amor ao povo russófono e a sua cultura; segundo, por ser uma guerra global que os americanos e Otan querem em tudo interferir e controlar.

Como foi essa treta tua com a justiça aqui no Brasil, te acusaram de ser black bloc?
Não era black bloc, estava com tempo livre e fui às manifestações. Não tenho nada contra a Polícia Civil e Militar, e, sim, contra a corrupção no estado. Tive tempo livre e me decidi por fazer valer meus direitos de protestar. Quando confrontado pelos policiais, sinto muito, mas não me rendo e não me entrego: eu luto por mim e meus direitos. Não estava fazendo nada ilegal. Sim, estou respondendo processo no Brasil, mas não dou a mínima; não fiz nada de errado, eles que se virem. Já era pra eu estar aqui desde o dia 28/6. Não vou ficar perdendo meu tempo com um sistema judiciário falido, irresponsável e lento. E essa conversa de que se eu ficasse, ia melhorar algo ao eu ser absolvido: meu cu. Tem que meter bala nessa merda e fogo nos fóruns e começar tudo do zero, como foi feito na Revolução Francesa e Russa.

Você se sentiu injustiçado?
Completamente. É mais que claro pelas filmagens e testemunhos que já era pra esse caso ter sido largado, caído no esquecimento e minha ficha ficado limpa.

Quarenta e cinco dias preso em São Paulo sob a acusação de atos violentos durante a Copa: como foi essa experiência, já que você é ex-policial?
Foi bastante interessante, na verdade. Fiquei na 8ª DP, para policiais civis e militares. Então foi tranquilo. Fazia academia, estudava. Enfim, me preparava pra vir pra Ucrânia. Foi um contratempo do qual tentei tirar o melhor proveito.

Como tua família e amigos reagiram quando souberam?
Minha família me dá apoio moral total e está contente e orgulhosa. Meus amigos também. Meu irmão Lucas era a favor de que eu ficasse no Brasil, mas respeita minhas paixões e ideologias. Meu irmão Fernando, inclusive, me deu apoio material para que pudesse vir à Rússia. Tenho uma irmã de cinco anos que não entende muito, mas, segundo minha mãe, gosta de me ver de uniforme. Meus pais se preocupam, mas eu espero que já estejam acostumados. Eles não querem que nada me aconteça, claro, mas entendem que, mesmo que o pior se passe, ou seja, a morte em combate, eu estaria contente, pois sou pagão (asatru), e isso é uma grande honra pra um combatente e para mim.

E como é tua relação com tua família? Você tem mantido contato?
Minha relação, na verdade, está melhor que nunca, e sempre que tenho condições e tempo de fazer contato o faço.

Há poucos dias, você foi absolvido das acusações de depredação e porte de explosivo. Como você se sente com o veredito?
Finalmente, né? Precisou de mais de meses pra decidirem que um pote VAZIO de chocolate é explosivo? Eu sou especialista em explosivos, com estágio no Commando da Legião, mas não mágico para transformar qualquer coisa que toco em explosivo.

Você ainda responde na justiça por associação criminosa e desobediência. Tem algo a comentar?
Tenho sim: tô pouco me fodendo, pode enfiar no cu isso ai.

Você tem alguma habilidade específica para o combate?
Sim, tenho várias. Paraquedista, comando, mergulhador militar, infiltração, atirador de precisão (diferente de sniper), atirador com metralhadora pesada, tropa de assalto, primeiros socorros de campanha...

AK montada e o lança foguete em segundo plano. 

AK desmontada. 

Te vi segurando nas mãos vários tipos de calibres em uma postagem. Que tipo de armas você tem usado nesse conflito?
Estamos utilizando armas soviéticas recuperadas dos estoques do exército ucraniano, que partiu em debandada desesperada. Como a AkM-47 7.62 mm, AK-74 5.56, RPG de vários tipos, PtHonka, granadas, morteiros, pistolas, Dragonav, SkS, carros de combate. Estamos bem providos.

Já matou alguém em situação de combate?
Aqui no Donbass ainda não. Apesar dos tiros frequentes da artilharia ucraniana e de troca de tiros entre grupos avançados de reconhecimento dos dois lados, as forças estão evitando contato para respeitar a trégua.

Sei que você já foi da Legião Estrangeira e, segundo consta, já fez frente nas FARC, confirma? Pode falar rapidamente da experiência?
Quase. Na legião, entrei com 18 anos, fui ao 4° RE para instrução básica; de lá, para Calvi no 2° REP. Estive em algumas missões na África. Além disso, e do que já falei antes, não posso contar mais sobre a legião. Nós fazemos um juramento ao sair de manter sigilo sobre nossas atividades. Quanto às FARC, as visitei e estive em Cartagena e no Arauca, mas não me quis ficar por uma série de fatores pessoais.

Tem medo de morrer?
Não. A morte é inevitável. Melhor morrer livre que viver de joelhos a vida toda. Também... nas minhas crenças (asatru), se eu morrer em combate, vou ao nosso paraíso, Valhalla.

Fale-me um pouco dessa tua escarificação sinistra, estilo Leônidas. É para causar pânico no inimigo?
(risos) Também. Na verdade, foi algo entre amigos: eu sempre quis uma cicatriz assim, mas nunca ocorreu. Eu sou combatente, cicatrizes pra nós são motivo de orgulho... Bom, em um determinado momento, um amigo me ofereceu o desafio de fazê-lo e aceitei como uma homenagem a heróis como Caporal Vélez, da legião, um dos meus instrutores, Otto Skorzeni, Leônidas, Kratos (que é fictício, mas fica o exemplo a ser seguido: nunca desistir, nunca aceitar ser dominado).

Li que você é aficionado por mitologia nórdica, vikings, tem uma tattoo no braço alusiva a isso. De onde vem isso?
Sempre gostei muito, desde pequeno, de história, mitos. Foi quando me apaixonei pela Rússia: sua interação com os Varags (vikings do leste). Uma coisa levou a outra.

Brigada Mecânica Prisrak. 

Qual tua ligação com a Rússia? Já havia estado lá?
Gosto da Rússia desde pequeno. Servindo na legião, tive contato direto com muitos russos: os melhores soldados que já vi. Ótimas pessoas. Muito bom caráter, todos. Quando tive a oportunidade de vir pra cá em fins de 2010, larguei tudo e fiquei por um tempo.

A Rússia está bancando a conta, financiando as milícias pró-Rússia?
Não, a Rússia somente ajuda humanitariamente, como a inspeção nos comboios pode provar.

Quem tem razão nesse conflito? A opinião pública pende para o lado mais "fraco", nesse caso, o lado oeste da Ucrânia, que é pró-União Europeia?
Quem tem razão são os que foram agredidos. As terras do Donbass foram vendidas para oligarcas ucranianos mesmo antes da revolução de Maidan (Euromaidan). O povo pegou em armas legitimamente em face de ações russofóbicas. E não são mais (nunca foram) ucranianos; são do Donbass, são novorussos.

Quem financia os chamados separatistas, os russófonos?
São doações internacionais, mas principalmente de doações vindas do povo russo.

Como tem sido sua convivência com outros combatentes? Existe camaradagem?
Aqui é uma grande família e, sinceramente, nunca vi uma tropa tão bem entrosada, com tanta camaradagem, irmandade mesmo, mesmo que por vezes exista a barreira do idioma. É o melhor espírito de unidade que já encontrei, todos unidos por uma mesma motivação.

Existem mercenários no teu pelotão?
As forças da nova Rússia não utilizam mercenários, todos aqui sacrificamos muito pra vir até aqui, trabalhos, pagamos nossas próprias custas pra vir até aqui. Somos o exato contrário de mercenários: somos voluntários.

Como é o seu dia a dia no front?
Ainda não estive no front. Minha rotina, pelo momento, é por hora de treinamento. Nós treinamos (sérvios, franceses, russos): tenho a responsabilidade de chefe de grupo, pois fui legionário no 2º regimento estrangeiro de paraquedistas. E tem também, claro, a rotina de uma unidade militar: guarda, organização, disciplina...

Qual a motivação em lutar em uma guerra que não é sua?
Decidi isso, porque esse conflito faz parte de uma guerra global que a OTAN e os norte-americanos têm feito no mundo. Além de que amo a Rússia e o povo russo, então decidi ajudar meus amigos, pois já tinha vários aqui mesmo, no Donbass.

Você recebe algum tipo de soldo?
Não. Eles nos alimentam e fornecem farda e armamento, mas é tudo.

Se precisasse pegar em armas aqui no Brasil, você participaria de alguma frente revolucionária que pretendesse mudar os rumos do país?
Mas claro que sim.

Como você se autodefine?
Partisan (guerrilheiro). Voluntário.

Para finalizar, tem alguma dica para quem quiser fazer frente nas milícias pró-Rússia? Como faz?
Devem se pôr em contato com a Unite Continental (unitecontinental@gmail.com) e com a Frente Brasileira de solidariedade à Ucrânia (que, apesar do nome, é pró-Donbass).

Gostaria de acrescentar o seguinte: a população russa do Donbass pegou em armas legitimamente contra a agressão da junta de Kiev. Os separatistas são, na verdade, os de Kiev, pois quiseram forçar as populações russas a abandonar suas tradições e conexões com a Rússia, e, por fim, mesmo suas terras. Esse conflito faz parte de uma guerra global que a OTAN e os americanos têm feito no mundo. Meu comandante é originário da Colômbia, Victor Alfonso Lenta, e tem a nacionalidade francesa também. Recomendaria que o procurasse no Facebook, pois é um homem de grande conhecimento e experiência, já estando aqui há meses. Ele poderia dar mais informações. Eu me encontro próximo de Lugansk e faço parte da brigada Continental, que é uma subunidade do batalhão Prizrak, e é uma das melhores unidades das forças russófonas. A Brigada Continental é o braço armado da unidade geopolítica Unité Continentale. Essa organização nasceu em Belgrado em janeiro de 2014 e é composta, pelo momento, por sérvios e franceses. Vale lembrar que não há nenhum tipo de pagamento e que as despesas até chegar à Nova Rússia são inteiramente por parte do voluntário. Uma vez aqui, alimentação é por nossa conta, fardamento também. Apesar de que, por dificuldades logísticas, os materiais possam levar um tempo para chegar, recomendo então que tragam o básico por conta própria (a dizer, calça, gandola, coturno, luvas e balaclava). Não se preocupe com o idioma; agora comigo aqui, os brasileiros que vieram serviram na mesma unidade em que estou servindo.

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