Relembrando o Trabalho da Lendária Fotógrafa Mary Ellen Mark

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Relembrando o Trabalho da Lendária Fotógrafa Mary Ellen Mark

Uma das maiores fotógrafas de seres humanos que já viveu faleceu na noite de segunda-feira aos 75 anos, deixando para trás um corpo de trabalho que mostra verdades sobre o humor, horror e a alegria de viver.
29 Maio 2015, 4:30pm

Mary Ellen Mark na festa beneficente de 2013 da Aperture. Foto por Matthew Leifheit.

Mary Ellen Mark, uma das maiores fotógrafas de seres humanos que já viveu, faleceu na noite de segunda-feira aos 75 anos. Ela deixa para trás um corpo de trabalho que mostra verdades sobre o humor, horror e a alegria de viver. Ela era uma defensora da fotografia documental social, nunca se esquivando de temas difíceis – de prostituição e doenças mentais até o ritual dos bailes de escola norte-americanos. Isso forçou Mark a se tornar forte e opinativa nas suas visões sobre o meio, e ela continuou demonstrando compaixão para com seus temas, frequentemente mantendo relacionamentos com eles muito depois que seu trabalho estava terminado.

Foto por Mary Ellen Mark: Clayton Moore, o ex-Cavaleiro Solitário, sentado no sofá, Los Angeles, Califórnia, 1992.

No inverno passado, entrevistei Mark sobre seu papel como mentora de jovens artistas. Apesar de nunca ter se tornado professora em tempo integral, ela estava sempre disponível e era aberta e carinhosa com seus fotógrafos emergentes, especialmente aqueles interessados em trabalho documental social. Eu a conheci em 2009 quando era estudante de fotografia na Rhode Island School of Design e minha turma foi visitar seu estúdio mágico, o Greene Street. Minha amiga Rachel Stern conseguiu um estágio com ela no verão seguinte, e eu passava lá às vezes. Mary Ellen nos apoiava de um jeito quase sobre-humano: ela convidava Rachel e eu para suas oficinas de fotografia e apresentava nosso trabalho como "artistas convidados", apesar de sermos apenas estudantes desconhecidos.

"Central Park, 1967", do livro de 1999 Mary Ellen Mark: American Odyssey.

Pode ser difícil acreditar que tal ícone fosse tão acessível, mas minha experiência está longe de ser incomum. Pergunte a qualquer fotógrafo de Nova York: a pessoa vai enaltecer as virtudes da fotografia dela e contar sobre um amigo que foi seu estagiário, ou ela irá perguntar se você foi à famosa festa de Natal para cachorros que ela organizou.

Foto por Mary Ellen Mark: Wilma, o poodle da negociante de fotografias Janet Borden (amiga próxima de Mark).

Em dezembro, encontrei Mary Ellen em seu estúdio para uma entrevista, na qual falamos especialmente sobre seu impacto nas novas gerações. Folheamos livros que ela tinha publicado de trabalhos de seus alunos, e ela apontava com empolgação suas fotos favoritas. Eu pretendia marcar uma segunda conversa sob o disfarce de precisar de mais informações, mas queria mesmo apenas uma desculpa para ver Mary Ellen de novo. Infelizmente, essa segunda entrevista nunca vai acontecer, mas fico feliz em poder compartilhar a primeira.

VICE: Quero falar sobre se ensinar fotografia.
Mary Ellen Mark: Sim, eu ensino. Faço oficinas. Nunca ensinei em período integral, numa escola ou faculdade de fotografia. Já me convidaram, mas eu queria manter minha liberdade. Fotografar sempre foi a coisa mais importante para mim. Faço uma oficina no México. Ensino em Oaxaca há 20 anos. Também dou aulas em Reykjavík, Islândia e no ICP [International Center for Photography], às vezes.

Que tipo de coisas você ensina nas suas oficinas? Lembro que você ensinou seus estudantes a cobrirem a tela de suas câmeras digitais com fita preta.
Pedi que eles colocassem fita atrás das câmeras, primeiro porque acho que eles devem aprender como usar a luz. Também porque você nunca sabe se tem uma foto até imprimir. Geralmente, as pessoas fotografam um monte sem pensar; depois, olham para a câmera e acham que têm a imagem, mas não têm. Eu preferia que meus alunos voltassem ao hotel em que estavam ficando, ou às suas casas, e olhassem para as imagens do mesmo jeito que olhamos para uma folha de contato. E também os ensino a editar. Todo dia, eles me trazem o que fotografaram no dia anterior, e eu edito o trabalho deles.

Ainda fotografo com analógico (só porque adoro filme) e tenho o melhor revelador fotográfico do mundo, Chuck Kelton. Então, não quero mudar agora. Tenho uma câmera digital, mas dificilmente a uso. Acho que é um processo de pensamento muito diferente. E quero sentir que tenho todos os meus negativos. Quero sentir que eles existem.

As folhas de contato do autor com anotações de Mary Ellen Mark. Ela não gostou muito das fotos.

Seus estudantes também aprendem uns com os outros?
Definitivamente. Mas tenho uma regra: eles não podem mostrar um ao outro no que estão trabalhando até a crítica final. Eles não podem comparar os trabalhos. Porque odeio essa coisa competitiva. A maioria dos fotógrafos tem isso.

Você tem?
Claro, claro que tenho, sou uma fotógrafa.

O que você procura numa fotografia?
Primeiro, conteúdo. Estou procurando por enquadramento e design. Você pode ter um conteúdo incrível, mas, se o enquadramento for péssimo, isso não vai funcionar.

Lembro-me de você falando sobre "enquadramento estranho".
Às vezes, o enquadramento é excêntrico, mas isso funciona perfeitamente. Seu primeiro pensamento quando pega uma câmera, especialmente uma câmera de formato quadrado, é enquadrar tudo no meio. Mas estou procurando a exceção disso: fazer uma foto poderosa, mas usando os cantos – usando todos os elementos na foto.

Mary Ellen Mark: Federico Fellini no set de Satyricon, Roma, 1969.

Mas, em primeiro lugar, o conteúdo. A imagem tem de ser sobre alguma coisa.

O que pode dar conteúdo a uma foto?
É impossível dizer. Acho que todas as imagens que tenho na parede aqui têm conteúdo por razões diferentes [_aponta para impressões em preto e branco na parede do estúdio de Graciela Iturbide, Arnold Newman e Sally Mann_].

Há conteúdo nelas. Elas desencadeiam suas emoções.

Foto por Alexandra Strada, aluna de Mary Ellen, de um livro produzido por ela em oficinas de Oaxaca.

É impossível dizer o que faz a foto ter esse efeito.
É impossível dizer, porque pode ser uma foto de uma flor que desencadeia suas emoções. Pode ser uma foto de uma árvore ou de uma pessoa. Fotos de guerra – claro, elas têm esse conteúdo, porque você vê os horrores da guerra. Mas isso não as torna mais fáceis de se tirar. É fácil dizer que um evento é o conteúdo em uma fotografia, mas não é. Pode ser a fotografia de Emmet Gowin de uma criança com os braços cruzados.

Como você ensina isso?
Você precisa ensiná-los como observar. E como usar esta máquina que chamamos de câmera para traduzir o que suas mentes pensam e veem. Perguntar por que eles tiraram a foto e ver como isso evolui. Quando você ensina, cada pessoa é diferente, e você tem de encorajá-las a serem o seu melhor. Não a serem como você.

Raramente vejo isso acontecer, mas algumas pessoas nunca vão entender. Elas simplesmente não têm a sensibilidade visual.

Felizmente, tenho grande editores fotográficos.

Mary Ellen Mark: Amanda, à direita, e sua prima Amy em Valdese, Carolina do Norte, 1990.

Você aprendeu vendo como as pessoas editavam seu trabalho?
Sim. Aprendi ensinando como editar o trabalho de outras pessoas. Geralmente, peço a opinião do meu marido [o diretor Martin Bell]. Ele é um grande editor – e ele é muito direto e honesto comigo [sobre] se é o momento certo, o momento errado ou se isso simplesmente não vai funcionar.

Martin é seu melhor editor.
Ele é duro, mas você precisa ser duro. Acho que você precisa ser honesto.

As fotos de algum de seus alunos já te lembraram do próprio trabalho?
Às vezes, mas não quero isso. Quero que isso seja o trabalho deles.

Porque imagino que muita gente faz as oficinas pensando: "Quero fotografar como Mary Ellen Mark". Certo?
Acho que eles vêm porque querem aprender a fotografar pessoas. Tenho menos fotógrafos de paisagens nas minhas aulas.

Foto de Lisen Stibeck, uma aluna que Mary Ellen chamava de "excepcionalmente dotada" (do livro Daughters).

Uma boa foto para você tem sempre uma pessoa?
Acho que uma boa foto não precisa ter uma pessoa. Acho fotografia de paisagens incrível. Mas você realmente precisa saber o que está fazendo e como está fazendo para ser um ótimo fotógrafo de paisagens. Eu, não. Não sei como fazer; então, provavelmente não seria uma fotógrafa de paisagens muito boa.

Quem foram seus professores? Você se formou na Annenberg School, certo?
Sim. Havia um homem de revista que era muito amável e me encorajou muito chamado Louis Glessma, que era o editor da Holiday. Ele me encorajava muito. Acho que você tem de encorajar e ser honesto. Algumas pessoas são apenas maldosas, e eu odeio isso.

Mary Ellen Mark: Kamla atrás das cortinas com um cliente, Falkland Road, Bombaim, Índia, 1978.

Você acha que fotografar com frequência te torna um fotógrafo melhor?
Quando você usa uma câmera, é quase como usar um instrumento musical – você tem de praticar.

Por que você acha que é importante apoiar artistas mais jovens?
Porque é difícil! É um mundo difícil. Então, é muito importante ajudar os jovens. Não ligo se é homem ou mulher. É um pouco mais difícil ser mulher. Mais do que um pouco. É duro, é muito duro.

Mary Ellen Mark: "Tiny" usando sua fantasia de Halloween, Seattle, 1983.

No que você está trabalhando agora?
Vamos fazer um livro com a Aperture sobre Tiny [Charles, uma amiga e tema de longa data de Mark e seu marido]. Então, fomos duas vezes a Seattle para o filme. Não pelas fotos – infelizmente, não há mais tempo para se fazer fotos, mas para o filme. Bem no final, eu e o Martin vamos fazer mais uma viagem até lá no caso de ele precisar preencher mais alguns pontos no filme. Nós a seguimos por 30 anos, não é como se tivéssemos a conhecido em Streetwise e voltado 30 anos depois. Nos últimos 30 anos, fizemos várias viagens até Seattle, onde Martin a filmou em diferentes períodos da vida e eu a fotografei.

Logo, você conheceu Tiny quando Martin estava filmando Streetwise?
Não, conheci Tiny primeiro. Minha descoberta! Certo? Mart? Eu descobri a Tiny, certo?

Martin Bell: É.

Mark: Eu fiz tudo!

Bell: Você fez tudo.

Mark: Eu a conheci em Seattle quando estava fazendo uma história para a revista LIFE. Eles tinham um editor maravilhoso chamado John Loengard, que também é um grande fotógrafo. Ele era um grande editor, porque era um fotógrafo muito bom que se tornou editor fotográfico. É muito desafiador trabalhar com pessoas que são realmente boas e entendem fotografia. Elisabeth Biondi não é fotógrafa, mas ela é uma editora de fotos muito boa [da New Yorker, em que Mark colaborava regularmente]. Muito difícil de agradar. Eu gosto quando é difícil agradar.

Por que isso te faz tirar fotos melhores?
Sabe, você não pode se dar bem com truques.

Eu estava fazendo um trabalho para a LIFE fotografando crianças de rua em Seattle. Fui até lá e passei três semanas e meia com um escritor. E, na primeira sexta à noite fora [por] lá, conheci Tiny. Ela saiu de táxi. Quando a conheci, ela tinha 13 anos e estava vestida como uma prostituta. Vestida como uma prostituta adulta.

Você conheceu Tiny num trabalho encomendado pela LIFE, certo? Esse tipo de trabalho para revistas ainda existe?
Não! Quando se trata de fotografia, as revistas se tornaram mais e mais... ilustrativas. Você percebe isso?

Mary Ellen Mark: A família Damm em seu carro, Los Angeles, Califórnia, EUA, 1987.

Você é uma fotógrafa documental social, que é um trabalho que não existe mais.
Não existe. Fico feliz que você tenha dito. Isso não existe mais.

Saiba mais sobre o trabalho de Mary Ellen Mark para a Aperture no site deles. Veja mais das fotos, dos livros e dos filmes dela aqui.

Tradução: Marina Schnoor