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Doug Rickard Documenta os EUA Através de Trechos Recriados de Vídeos do YouTube

O artista passou horas assistindo vídeos amadores das profundezas do YouTube e recriando os momentos mais impressionantes que encontrou. Falamos com ele recentemente para saber como a ideia do projeto surgiu.

por Elizabeth Renstrom
18 Setembro 2015, 2:15pm

Y3Zwz, 2013 #107

O fotógrafo Doug Rickard provavelmente é mais conhecido por sua série A New American Picture, onde ele recriou imagens do Google Street View, resultando num retrato sombrio das ruas desconhecidas e geralmente desoladas da paisagem norte-americana.

Seu novo projeto, N.A., segue por um caminho parecido – Rickard passou horas assistindo vídeos amadores das profundezas do YouTube e recriando os momentos mais impressionantes que encontrou. Os frutos desse trabalho serão exibidos na Little Big Man Gallery, Los Angeles, de 19 de setembro a 31 de outubro, com uma recepção de inauguração no sábado, das 19 às 21 horas.

Falei com o artista recentemente para saber como a ideia do projeto surgiu.

VICE: Que momentos especificamente você estava procurando quando assistiu todas essas filmagens do YouTube?
Doug Rickard: Comecei N.A. em 2009, por volta da mesma época em que comecei A New American Picture, mas decidi focar no projeto do Street View primeiro (de 2009 a 2011) e depois passar para N.A. (de 2011 a 2014). Nos dois projetos, comecei com nomes de cidades americanas e depois fui ficando mais granular [nas buscas]. Na faculdade de história, estudei o movimento dos Direitos Civis, Jim Crow, segregação, escravidão e outros terrenos relacionados ao passado dos EUA. Esse terreno me deixou uma impressão forte e realmente alimentou o que eu estava explorando como artista – cidades impactadas pela devastação socioeconômica, violência, encarceramento em massa, brutalidade policial, divisões sociais, injustiça e outros desafios. Então esses "momentos" nos dois projetos vieram principalmente de buscas por cidades: [escolhi] Detroit, Chicago, Memphis, Miami, Houston, Watts, New Orleans como pontos inciais, depois fui em direção a chaves de busca relacionadas (no YouTube) ou mapas de navegação (no Street View). Procuro momentos que falam comigo esteticamente e temas maiores – imagens cheias de subtexto e também provocativas, transgressoras, etc.

Isso parece uma progressão natural de A New American Picture, mas a diferença é que muitos desses temas são imagens promocionais das próprias pessoas no YouTube. O que muda quando as pessoas sabem que estão sendo filmadas?
Por causa dessa dinâmica, usei escuridão, sombras, filmagens de baixa resolução, etc. para obscurecer a identidade dos temas. O Google faz isso no Street View com algarismos, borrando os rostos. Além disso, o trabalho lida com questões maiores e os temas se tornam arquétipos, não pessoais ou específicos. Isso é importante porque isso não é um conto pessoal, mas uma história com implicações maiores.

O projeto introduz um elemento de áudio sobre os trechos reais que você usou para o livro de fotos. Como é ouvir milhares de YouTubers amadores? O comunicado à imprensa descreve isso como "música cultural", e fiquei curiosa com como você chegou ao termo.
O termo vem do que percebi como uma "sinfonia" ou coro da "música" cultural americana – música lidando com a experiência norte-americana (uma que escolhi mostrar) e grandes partes da cultura se movendo. N.A. é abreviação para "nacional anthem" e também "Not Applicable" [Não Aplicável] dos formulários. Meu áudio na instalação de vídeo da exposição é o hino nacional, uma versão gravada pelo Exército Americano desacelerada até o ponto de não poder ser reconhecida. No livro, as vozes dos vídeos do YouTube se tornam como um poema.

9zoW9, 2011 #404

Como você pulou das cidades tagueadas para temas de busca mais sombrios, como "Garota Branca Desmaiada" e "Brutalidade Policial"?
Em N.A., notei que certos "silos" de conteúdo emergiam no YouTube relacionados a buscas por cidades e procurei por uma estética nisso. No meu trabalho, a estética visual é o cerne, um fio que une pedaços disparatados – luz, sombra, cor, humor. Logo comecei a ver que buscas por palavras-chave rendiam grupos maiores (com os resultados limitados a vídeos amadores). Por exemplo, "crackeiro de Memphis", "abuso de poder Dallas", "Oakland secundária", "tours pelos bairros de Miami" ou "brigas de gangue em Cleveland" rendiam milhares e milhares de vídeos. Essa dinâmica moldou N.A., já que um elemento mais tenso da rede social emergiu. Os vídeos postados geralmente eram predatórios e visavam angariar "likes", "assinaturas" e "comentários". As pessoas provavelmente estavam pagando um dólar para que pessoas de rua dançassem ou para socá-las – ou pessoas filmando garotas bêbadas sendo rabiscadas com canetinha, corridas ilegais de rua, espancamentos realizados pela polícia. Se uma briga acontecia, todo mundo pegava o celular e começava a filmar. Busquei imagens que emergissem dessas centenas de clipes – imagens e trechos de vídeos que pudessem contar histórias – histórias lidando com cultura, política, raça, classe, economia, gênero, impotência – e também tecnologia, vigilância e até a fotografia como meio em si, tudo fazendo parte desse diálogo.

fxyCE, 2012 #402

Que papel a raça tem nesse projeto e em A New American Picture?
Acho que nos dois projetos, a noção de raça nos EUA está ali e interpretando um papel significativo – junto com classe e socioeconomia. Somos uma nação de extremos – economicamente somos radicalmente divididos em termos de distribuição de riquezas; racialmente somos chocantemente separados – especialmente quando vemos comunidades brancas e comunidades afro-americanas; politicamente estamos num impasse e atolados numa espécie de pântano de oposição, socialmente somos estratificados, baseados em economia, raça e outros critérios. Tanto N. A. como A New American Picture lidam com esse maquinário brutal e as implicações disso entrelaçadas ao tecido da nação. Os projetos são arte, não um documento (se é que isso realmente existe em fotografia), então os tópicos (se tópicos realmente existem na arte) são imprecisos e às vezes opacos, mas o tema está ali. Raça não pode ser separada desse diálogo.

Veja mais fotos de N.A. abaixo.

Doug Rickard é um norte-americano de 47 anos que trabalha como fotógrafo e curador. Ele também é o fundador do American Suburb X.

X4xyX, 2014 #304

Gvs4CY, 2012 #101

SS3vP, 2011 #401

T5Tt_1, 2013 #302

XZc7w, 2011 #405

Tradução: Marina Schnoor