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Detento relata o terror vivido no presídio de Alcaçuz, RN

Por telefone, homem detido em Alcaçuz, no RN, declara: "Tá todo mundo sujo, fedendo. Outros ensanguentados, baleados, esfaqueados". Ouça os áudios da entrevista.

por Débora Lopes
19 Janeiro 2017, 6:52pm

Foto: Avener Prado/ Folhapress

Colaboraram os repórteres Brunno Marchetti e Bruno Costa

A manhã desta quinta (19) foi conturbada na Penitenciária de Alcaçuz, na região metropolitana de Natal, no Rio Grande do Norte. A televisão exibiu ao vivo a guerra entra as duas facções dominantes no local: o Sindicato do Crime e o PCC (Primeiro Comando da Capital). Pedras, telhas e madeiras eram arremessadas de ambos os lados. Bombas de gás lacrimogêneo atiradas pela polícia dentro do confronto viravam armas nas mãos dos detentos, que as lançavam em direção à facção rival.

A VICE Brasil conversou por telefone com uma advogada que atende detidos em Alcaçuz. Tivemos acesso também a um dos presos que, por celular, falou lá de dentro um pouco sobre a situação vivida no momento. Diante da gravidade da situação, ambos pediram que suas identidades fossem protegidas.

"Não morreram só 26 pessoas no sábado, não foram só 26. Tem vários corpos enterrados. É braço pra um lado, cabeça pro outro", relata o preso.

Ouça trechos da entrevista acima.

"Eu tô aqui há seis anos e nunca vi isso na minha vida", relatou o presidiário que, durante a conversa, sugeriu que a direção do presídio havia sido "comprada" pelo PCC. "Há boatos de que foi R$ 1 milhão, porque não tinha capacidade deles [PCC] sairem do pavilhão 5, invadir o pavilhão 4 e fazer essa carnificina." Ele se refere à separação das facções dentro do local. No pavilhão 5, ficavam os membros do PCC. "Não morreram só 26 pessoas no sábado, não foram só 26. Foram várias pessoas. Tem vários corpos enterrados. É braço pra um lado, cabeça pro outro. Tá entendendo?". Para ele, o governo do Rio Grande do Norte está sendo omisso e escondendo o número real de mortes.

Na última quarta (18), o Batalhão de Choque da Polícia Militar transferiu 220 presos para a Penitenciária Estadual de Parnamirim (PEP). Supõe-se que todos eram integrantes do Sindicato do Crime.

Questionada sobre os reais motivos que levaram as facções à disputa sanguinolenta iniciada no fim de semana, a advogada informa que "eles não falam nada". "Estive lá na segunda-feira e a situação o dia inteiro era de muita tensão, de ameaça, de um pavilhão que invadiu o outro. Ameaça de morte, preso ligando e fazendo contato, pedindo pelo amor de Deus que tirasse de lá, porque senão ia morrer."

Ouça trechos da entrevista acima.

Os muros do presídio trazem nomes das facções e mensagens como "vai ser cobrado". A sigla FDN, retratada em paredes e bandeiras, remete à Família do Norte, grupo criminoso que lidera a região norte do país. A advogada, porém, não soube dizer se a facção estaria junto do Sindicato do Crime contra o PCC.

"Eles [direção do presídio] dizem que não podem fazer nada. Como é que não podem fazer nada?"

O presidiário diz pertencer à massa carcerária, grupo de presos que não é membro de nenhuma facção. Ele cita que, além do Sindicato e do PCC, estão também no lugar o Comando Vermelho e Okaida (em referência à Al-Qaeda). "Nós, da massa, não temos nada a ver com essa guerra. A direção foi avisada várias vezes de que nós não queremos participar de guerra", diz o detento.

Ouça trechos da entrevista acima.

"Eles [direção do presídio] dizem que não podem fazer nada. Como é que não podem fazer nada? [Trecho inaudível]... Choque, GOE [Grupo de Operações Especiais], tudo, Caveirão. E não têm coragem de entrar dentro da cadeia pra fazer intervenção. Deixar os outros se matando? Aqui, ninguém quer matar ninguém, não", afirmou.

"Eles podendo fazer uma intervenção, entrar com o Caveirão, todo mundo ia correr. Ninguém enfrenta a polícia não. Agora eles querem ver a morte dos outros. Porque se tivesse entrado… todo mundo, quando vê a polícia, ninguém fica, não. Todo mundo corre e vai pro procedimento."

O detento informa que os agentes penitenciários não estão dentro do presídio, há somente policiais nas guaritas – pela manhã, era possível vê-los nos muros de Alcaçuz atirando em direção aos presos durante o confronto. Não se sabe se eram balas de borracha ou munição letal. O preso afirma que muitas pessoas ficaram feridas e outras morreram após o tumulto. Agentes penitenciários confirmam que houve mortes.

Ouça trechos da entrevista acima.

O presidiário explica também que a situação lá dentro está precária e que está "todo mundo tremendo, com medo, com fome". De acordo com seu relato, os presidiários não dormem desde sábado, quando houve a primeira rebelião. "Tá todo mundo apavorado, querendo que essa guerra acabe. Todo mundo querendo dormir. Tirar um sono. E ninguém tá dormindo, não. Tá todo mundo sujo, fedendo. Outros ensanguentados, outros baleados, outros esfaqueados."

A advogada expõe que os familiares vivem momentos de terror "porque não se sabe o que está acontecendo, não se sabe quem vai sobreviver ou não".

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