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O jornal que incomoda as grandes corporações amazônicas pode parar de circular

"Fiquei pobre, fui perseguido, respondi a 34 processos na Justiça, me agrediram fisicamente, fui ameaçado de morte, mas continuo a fazer o meu jornalzinho", diz Lúcio Flávio Pinto, responsável pela publicação amazônica Jornal Pessoal.

por Débora Lopes
30 Janeiro 2017, 7:08pm

Imagem: reprodução/ Jornal Pessoal/ 1988

Se existe alguém que ainda hoje se contrapõe à bundamolice do jornalismo brasileiro, seu nome é Lúcio Flávio Pinto. Paraense de 67 anos, sociólogo de formação, jornalista de profissão, alvo de 34 processos judiciais, ganhador de quatro prêmios Esso e dois Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), ele toca sozinho o Jornal Pessoal (JP), publicação que desde 1987 tira o sono das grandes corporações amazônicas. Avesso à possibilidade de acatar anúncios publicitários para seu sustento, o jornal pode estar com os dias contados. Mas há esperanças de uma última lufada de sorte: termina nesta segunda (30) o financiamento coletivo proposto por um amigo de Lúcio Flávio com o objetivo de manter o JP por mais dois anos na ativa.

Filho de jornalista, ele se dedica às letras desde os tempos de escola. Aos 16 anos, passou em frente à sede do jornal A Província do Pará, em Belém, e resolveu entrar. Ao avistar o jovem, o diretor de redação Cláudio Sá Leal ficou curioso e puxou assunto. Pediu, então, ao garoto que escrevesse um artigo sobre o aniversário de 21 anos da Segunda Guerra Mundial. No dia seguinte, o texto (sem nenhuma modificação) estampava a primeira página. "Fui admitido como repórter", relembra. "Nunca mais deixei de ser um."

Depois de 18 anos de carreira no jornal O Estado de S. Paulo, Lúcio Flávio deixou a grande imprensa e passou a se dedicar ao JP, seu jornal de um homem só. A primeira edição trazia como manchete "O Caso Fonteles: um crime bem planejado", que abordava o polêmico assassinato do ex-deputado paraense.

Capa do Jornal Pessoal de 1987. Crédito: reprodução

Lúcio Flávio resiste e carrega nas costas 34 processos judiciais, estando quatro ainda em curso. Seu currículo e sua atuação incomodam muita gente. Em 2005, foi agredido dentro de um restaurante por Ronaldo Maiorana, diretor do jornal O Liberal, de Belém. O sobrenome do agressor é conhecido no Pará: a família Maiorana detém os direitos de transmissão da Rede Globo na região.

"O Jornal Pessoal está próximo de completar 30 anos. Acho que é um atestado da determinação de uma pessoa de levar a sua vontade ao extremo das possibilidades até bater à porta do impossível", detalha, por e-mail, o jornalista. "Fiquei pobre, fui perseguido, respondi a 34 processos na Justiça, me agrediram fisicamente, fui ameaçado de morte, mas continuo a fazer o meu jornalzinho."

As páginas do JP trazem pautas voltadas para o impacto causado pelas grandes empresas privadas e seus projetos na Amazônia; além de retratar o jogo político local e os escândalos financeiros.

Viver numa região de fronteira como a Amazônia "justifica uma vida intensa", diz o jornalista. Quando transformou o JP em realidade, Lúcio tinha seus objetivos cristalinos como água. "O jornal teria o menor custo possível, daí ser feito por uma única pessoa, não usar cor nem fotografia, dispensar os recursos gráficos mais sofisticados; nem publicidade, para ter independência absoluta, dependendo apenas de quem se dispusesse a adquiri-lo em banca." Por isso, nunca nenhum anúncio estampou as páginas do Jornal Pessoal.

Capa do Jornal Pessoal de 2013. Crédito: reprodução

"Salve o JP, voz e fiscal da Amazônia" traz o título da campanha de financiamento coletivo que pretende arrecadar R$160 mil para subsidiar a publicação durante dois anos. Até a conclusão desta reportagem, foram arrecadados apenas R$30 mil. O prazo se encerra hoje. "Nunca me convenci de que a campanha chegaria à meta. Foi excesso de otimismo e generosidade do Lucas Figueiredo", explica Lúcio Flávio ao mencionar o amigo que tomou a iniciativa de fazer o crowdfunding.

Ainda que a meta não seja atingida, o valor arrecadado irá ajudar Lúcio Flávio a continuar publicando até setembro, quando o JP celebra 30 anos. "Se eu sobreviver até lá", pondera o jornalista.

Para colaborar com o financiamento coletivo do JP, clique aqui.

@DeboraLopes

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