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As trilhas de games nunca mais foram as mesmas depois das rádios do 'GTA'

Rica Pancita do Twitter

Uma playlist com as faixas mais icônicas da série, para lembrar que, até o 'GTA', música licenciada em jogo era luxo, e não parte essencial.

GTA XX é a série especial da VICE Brasil, com entrevistas e análises exclusivas, que celebra os 20 anos da franquia que mudou tudo nos games.

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As rádios do GTA foram ao longo dos anos se tornando um recorrente e polêmico tema na cultura popular, tal qual o marxismo nas escolas. Eu sei, já naveguei nessas ondas. Vai no Twitter fazer um TOP 5 de todos os tempos e não inclui a Emotion 98.3 FM pra ver o que acontece. O fato mesmo é que a franquia trouxe uma importância para a música dentro do universo gamer que não havia antes. E tarei aproveitando esse espaço pra falar um pouquinho sobre, seja você gamer e ou não gamer.

Porém, antes, uma breve introdução sobre GTA em minha vidinha.

- Oba!

Volta pra 1997. Chega o primeiro GTA em nossas vidas. Aquele 18 vermelhão bonito na capa, mexendo com a imaginação de qualquer #adolê de que ia lidar com um negócio pesadaço. O mapa gigantesco e a possibilidade de interagir com QUALQUER veículo tornava aceitável o gráfico mais simples, frente aos trilhões de jogos 3D que eram lançados à época. Aconteceu que eu, num justificável vacilo juvenil, acabei preferindo o jogo Driver porque, bom, era tudo sobre roubar carro mesmo, e esse aqui gráficos 3D muito mais pica (nota: não se falava "pica" em 1997. Não nesse sentido). Então não #vivi de fato o GTA primeirão.

Pula pra 2006. Eu já um jovem fudido de classe média pra lá de média, pego a grana da rescisão de um trabalho em call center e, finalmente, compro o Playstation 2 Slim. Óbvio que a primeira coisa foi comprar um Winning Eleven 100% atualizado e o GTA San Andreas que, naquela altura, meus amigos já tinham todos fechado.

Agora, MAIS UMA PAUSA no mais longo lide da história da VICE brasileira… O que era a trilha de jogo antes do GTA exatamente?

Acho que até você que é mais jovenzinho tem a noção que não foi o GTA quem inventou a trilha sonora licenciada de jogo. O próprio PS1 que ganhei do meu pai vinha com Road Rash que metia "Rusty Cage" do Soundgarden logo no vídeo de abertura, e lembro bem do choque que foi ver o combo "porrada + música daora que nunca tinha ouvido antes". Nessa época, os jogos da EA vinham todas com trilhas maravilhosas a ponto de eu ligar o videogame só pra deixar no menu e ficar ouvindo as músicas. Fiz muito isso com o NBA Live 2000, pra poder ouvir "Hip Hop Horray" inteirão (e alto). Porque música mesmo era só no menu e, às vezes, quando parava o jogo. Fora disso esquece.

Exceções que lembro de cabeça: Gran Turismo e Tony Hawk Pro Skater. Só que tinham uma trilha com tão poucas músicas que chegava uma hora que eu preferia ouvir a VOZ DO BRASIL do que ter que encarar a mesma de sempre dos Dead Kennedys.

AGORA O TEMA CENTRAL DESTE TEXTO

- Oba!

O Vice City eu nem peguei direito. Quando comprei o PS2 (Slim), os gráficos do VC já pareciam coisa da geração passada. Queria o fudidão. E o fudidão era o San Andreas.

POIS BEM.

O que foi, após a missão de introdução na bicicletinha, poder pegar um carro e ver que havia não só uma rádio, mas várias (VÁRIAS)? A grandiosidade de Los Santos que era só 1/4 do mapa? É a sensação de "carai, acho que tô jogando um dos maiores jogos de todos os tempos"?

Calhou que era mesmo um dos maiores jogos de todos os tempos.

Meu processo no início do jogo, imagino, ter sido a mesma de todos. "Viver" o CJ Negro, ex-presidiário, envolvido com BANDIDO, carro rebaixado pra caralho, pixando muro, ouvindo uma pá de gangsta rap mesmo. E vamo de Radio Los Santos. Pra quem assistia Yo! MTV Raps direto não tinha lá muita novidade. N.W.A., 2Pac, Cypress Hill e demais, porém com uma certa obrigação de ouvir 'Hollywood Swinging" do Kool & The Gang sempre que ia pra discoteca fazer a dancinha.

A primeira parte do GTA San Andreas é um curso completo de música negra americana dos anos 70 a 90, proporcionado pelas rádios Los Santos, Playback e Master Sounds. Saber o mínimo de inglês também me fez perceber o #choque entre o hip hop #clássico da Playback e o gangsta da Los Santos, principalmente pelos papos da Playback FM que, anos depois, fui descobrir que eram dados pelo Chuck D do Public Enemy.

Enfim, em algum momento do jogo os COPS te botam num porta mala, e te soltam numa área rural. E é

NESSE MOMENTO

QUE A VERDADE É REVELADA

E NOS LIBERTA.

Pois, se para milhões, GTA San Andreas foi a porta de entrada pro rap, pra mim ele apresentou, de fato, a música country e, principalmente, o reggae e o dub. A K-Jah West e a K-Rose eram mundos abertos tão amplos quanto o do jogo em si. Porque para todas as outras rádios eu, em São Paulo, conseguia encontrar algo equivalente. Claro que não com as mesmas músicas, claro que não com a mesma qualidade (e outra coisa a mais, que falarei mais adiante), mas tinha a rádio de rap, a rádio de rock, e a rádio de AOR. De country e dub não tinha nada. De house final dos 80 igual a SF-UR também não tinha, mas QUEM QUE SE IMPORTA COM A PORRA DO HOUSE FINAL DOS 80? Respondo: ninguém.

Pra mim, o que faz explodir a minha memória afetiva do San Andreas é "Cocaine In My Brain" do Dillinger, e "Hey Good Lookin" do Hank Williams. Artistas, dentre vários, que só fui saber da existência depois do jogo.

Bom, depois do San Andreas, abriu-se a porteira no mundo gamer e apareceram vários jogos "tipo San Andreas" com mundo aberto e centenas de músicas. Nenhum capaz de pegar com tanta força igual o original. San Andreas é um dos melhores jogos da história, assim como sua trilha. Felizmente, graças aos torrents, acabei baixando a trilha completa do Vice City, e pude ampliar ainda mais o meu "mapa" de gêneros musicais (espero não ter sido muito cafona com essa analogia). Wyldstyle com hip hop classiquíssimo, Wave e Emotion com o melhor do AOR, que são os grandes responsáveis pela diminuição da idade média dos ouvintes das Alphas FM que tem no país, e a rrrrrrrrádio rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrádio Espantoso com latin jazz.

Não esquece que tinha "algo a mais" sobre as músicas. Vamos pular novamente, de 2006 pra 2011. Eu ainda com meu PS2, Winning Eleven 100% atualizado, e a Rockstar solta o teaser do GTA V com "Odgens Nutgone Flake" dos Small Faces (óbvio que só fui saber qual era a música DEPOIS do teaser).

Você já fica hmmmmmmmm emoticon-de-mão-no-queixo. Expectativa fudida, tal qual na geração anterior, o primeiro jogo (GTA IV) era pra marcar terreno, o seguinte (GTA V) era o que ia botar pra fuder mesmo. O que ia supreender todo mundo. O TOP.

DIA 30 DE ABRIL DE 2013. Apresentação do primeiro personagem, Michael.

Esse trailer, de exatos 1m17s, deu outro sentido pra essa música. Deixa de ser uma "música legal aí do Queen", e passa a ficar ligado a algo novo, excitante, desconhecido. Não sou capaz de imaginar que qualquer pessoa minimamente interessada em GTA não tenha mudado a forma de ouvir "Radio Ga Ga" depois desse dia. E é esse o "algo a mais" das rádios do GTA. Ao estarmos imersos no jogo, as rádios acabam fazendo parte da narrativa, querendo ou não. Se antes as trilhas eram pensadas para acompanhar o ritmo do jogo, com o GTA nada impedia que uma perseguição de automóveis, tiroteio, gritaria, gente morrendo, tivesse como fundo "Crazy", do Willie Nelson.

Ou "Young Turks".

Ou "Pale Shelter".

Ou "El Sonidito".

Todas as músicas que fizeram parte do GTA acabaram ganhando como herança uma ligação com a sensação de #aventura na memória afetiva de todos que jogaram. E tirar isso não vai dar não.

Rapaz, ficou longo isso aqui. MAS OLHA SÓ, tem uma playlist pra você. Era o mínimo que eu podia fazer e etc. Longe de mim falar que aqui estão as melhores, mas que todas têm uma ligação bem forte com o jogo, isso tem. Salva e curte.