Motherboard

O longo caminho rumo à ciência das bad trips

Antes que as drogas psicodélicas sejam usadas em tratamentos psiquiátricos, é preciso desvendar os mistérios das viagens ruins.

por Daniel Oberhaus; Traduzido por Ananda Pieratti
06 Junho 2017, 4:29pm

Ilustração por Chris Kindred

Em 1968, Thomas Ungerleider e Duke Fisher, dois psiquiatras da Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos EUA, viajaram até o subúrbio da cidade para testemunhar os rituais de uma seita focada no consumo do LSD. A dupla havia recentemente dado uma palestra sobre o que viria a ser conhecido como " bad trip", uma expressão genérica usada para designar possíveis complicações decorrentes do uso de substâncias psicodélicas, indo da ansiedade leve até surtos psicóticos e delírios persistentes.

Enquanto os palestrantes respondiam as perguntas do público, um membro particularmente revoltado da plateia tentou ler um manifesto em defesa do consumo ilimitado de LSD. Ao fim do evento, o mesmo homem abordou os psiquiatras, insistindo que muitas pessoas tomavam LSD sem ter nenhuma reação adversa. Na verdade, o homem fazia parte de um grupo religioso que se denominava como "Os Discípulos" e que alegava consumir ácido toda semana sem grandes problemas.

Os pesquisadores ficaram intrigados. Após os Discípulos se certificarem de que eles não eram policiais, Ungerleider e Fisher foram autorizados a visitar a sede do grupo e observar o uso ritualístico do LSD. Nas palavras dos pesquisadores, no local eles encontraram:

... cerca de doze pessoas morando numa casa espaçosa, localizada em um terreno grande. Eles estavam arando a terra quando chegamos, e a decoração da casa era psicodélica. Nas paredes haviam imagens de Buda e Jesus. Toda quarta-feira, o grupo se reunia para um culto mais tradicional, focado em orações e meditação. Os rituais lisérgicos aconteciam nos finais de semana.

Ao observar e entrevistar os participantes desses "rituais de amor", os pesquisadores descobriram que muitos dos Discípulos eram ex-presidiários ou dependentes químicos que haviam adotado o LSD como forma de tratamento. Muitos desses indivíduos afirmavam ter encontrado Deus graças ao uso ritualístico do LSD. E o mais importante: nenhum havia sofrido qualquer reação adversa à droga.

Essa afirmação chocou os psiquiatras. O que diferenciava esse grupo daqueles que haviam sido internados em hospitais psiquiátricos após ingerir a mesma substância? Em outras palavras, quais seriam os fatores que, juntos, resultariam numa bad trip?

"A complexidade dessa reação — que não pode ser prevista nem pelos melhores testes ou dados clínicos — significa que não compreenderemos as reações adversas ao LSD tão cedo".

Para responder essa pergunta, os pesquisadores iniciaram um estudo que comparava as reações de 25 Discípulos às de 25 pacientes que haviam sido hospitalizados em decorrência de reações adversas ao LSD, entre elas "alucinações... ansiedade que beirava ao pânico... depressão, muitas vezes associada a pensamentos suicidas ou tentativas de suicídio, e... confusão mental". Em 1968, a dupla publicou os resultados da pesquisa no Journal of American Psychiatry, marcando assim a primeira tentativa científica de identificar as causas da bad trip.

O estudo revelou não haver diferenças significativas entre os dois grupos em termos de gênero, raça, idade, educação formal ou "privação afetiva precoce". Quarenta e quatro por cento dos pacientes (comparado com apenas 24% dos Discípulos) possuía algum histórico de transtornos psiquiátricos, mas isso não foi considerado como fator decisivo para uma experiência psicodélica traumática. Dentre os membros do grupo religioso com um histórico de transtornos psicológicos, não houve relatos de experiências negativas com o LSD.

Leia mais na reportagem de Motherboard.