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É isso que acontece quando 6 mil neonazis se reúnem

Fomos ao maior festival ultranacionalista da Alemanha, o 'Rock Against Überfremdung'.

por Johannes Musial; Traduzido por Marina Schnoor
02 Agosto 2017, 4:13pm

Fotos por Sarah Lehnert.

Essa matéria foi originalmente publicada na VICE Alemanha .

Um céu cinza carregado pairava sobre a cidadezinha alemã de Themar, no estado de Turíngia, no dia 15 de julho de 2017, enquanto 6 mil neonazis chegavam para o maior concerto de extrema-direita do país em uma década. O sol, parece, não tem tempo pra essa merda. A fotógrafa Sarah Lehnert e eu temos – apesar de estarmos presos no congestionamento no caminho para o festival, que se move ainda menos conforme nos aproximamos do nosso destino.

Dos dois lados do nosso carro, centenas de homens passam com camisetas com mensagens celebrando Hitler e o Nazismo – por exemplo "Wer A sagt, muss auch Dolf sagen" ("Quem diz A tem que dizer Dolf", uma piada com o provérbio alemão "Wer A sagt, muss auch B sagen".) Eles seguram suas latas de cerveja com força e não parecem muito relaxados ou prontos para curtir uma festa. Pelos últimos 10 quilômetros do caminho, passamos por um posto da polícia atrás do outro, mas agora não tem um policial à vista, só neonazis. A fotógrafa e eu abaixamos os vidros das janelas chegando mais perto do evento, chamado Rock Against Überfrembung ("Überfremdung" é uma palavra peculiar alemã que pode ser traduzida toscamente por "inundados por estrangeiros").

Um dos participantes que parecia mais animado no caminho pro festival.

Os organizadores escolheram realizar o festival em Turíngia porque o estado abriga a maior comunidade de extrema-direita do país. "Não recebemos um imigrante sequer durante a crise de refugiados", o prefeito de Themar, Hubert Böse, disse com orgulho para a Spiegel Online. "Só 2,7% da nossa população é de estrangeiros, e são todos bem integrados."

Hoje, os participantes do festival vão assistir shows de, entre outros, "Stahlgewitter" (Tempestade de Ferro) – uma banda cujas letras focam na glória e poder do exército de Hitler – e o novo grupo de Michael Regener. Regener é o ex-vocalista do Landser, a mais famosa banda neonazista alemã. Em 2003, a Landser foi proibida e declarada uma organização criminosa. Regener pegou três anos de cadeia por incitar violência contra a comunidade judia.

Centenas de policiais do país inteiro foram trazidos para Themar.

A lista de palestrantes conta com os ativistas de extrema-direita mais proeminentes do país – membros dos principais partidos nacionalistas alemães (NPD, Die Rechte e Der Dritte Weg) e organizações de direita locais como a Thügida. Até a organização de artes marciais russa White Rex, que ensina nacionalistas a lutar, vai fazer uma aparição no palco.

Honestamente, ver tantos neonazis num lugar só me assusta. No Rock für Deutschland (Rock pela Alemanha), um evento similar que aconteceu na cidade próxima de Gera, cerca de 800 neonazis apareceram. Mas hoje, cerca de 6 mil deles vieram do país inteiro para comemorar suas crenças ao som das bandas de rock mais fascistas da nação.

Paramos o carro para dar um pequeno passeio a pé. Todo mundo que veio para o festival parece ter recebido o mesmo memorando sobre o dress code – cabeça raspada, jeans e camiseta preta com alguma coisa escrita em alemão. Os homens fazem o melhor para parecerem o mais intimidadores possível, andando de um jeito tão tenso que parecem que estão contraindo o esfíncter para o ódio não vazar.

O pub Leão Dourado, propriedade de um dos organizadores do evento, Tommy Frenck.

Antes de ir para o local do festival, muita gente passa pelo pub Leão Dourado, um conhecido ponto de encontro nazi da área. O dono é um dos organizadores do evento, Tommy Frenck, um político do NPD famoso por fundar um grupo de "defesa de cidadãos" e organizar marchas à luz tochas em sua cidade, Schleusingen, a uns dez quilômetros de distância.

"Usar a palavra Hitler numa camiseta pode ser ilegal", Frenck disse a um canal de TV local, "mas HTLR quer dizer Lar, Tradição, Lealdade e Respeito, por que alguém proibiria isso?". Seu negócio vai bem, considerando o grande Hummer preto estacionado na frente do pub. No aniversário de Hitler, em 20 de abril, o pub vende schnitzel por €8,88 – 88 sendo o código para a saudação nazista "Heil Hitler". A demanda foi tanta que Frenck precisou fazer reservas.

No centro da cidade, não dava para saber que o evento estava acontecendo. A polícia fechou a principal avenida numa tentativa de manter os neonazis longe da maioria dos 3 mil moradores locais. Mas a cidade parecia deserta mesmo assim – com a maioria das portas trancadas e as cortinas fechadas. O supermercado não abriu e o mercado de pulgas local foi cancelado.

Perto do local do festival, um homem aparava seu gramado. Ele conheceu sua esposa 30 anos atrás no pub que agora está cheio de fascistas. Ele me diz que não frequenta mais o bar, mas que está acostumado com os nacionalistas na área. "Eles são pessoas como eu e você", diz. Em outro lugar, numa rua paralela, um homem de chinelos não consegue esconder sua frustração. "Esses caras de extrema-direita deveriam ir para outro lugar", ele disse. "A maioria das pessoas só quer que a vida volte ao normal depois do fim de semana."

Um morador de Themar que conheceu a esposa no pub local que virou ponto de encontro dos neonazis.

Antes da ascensão de Hitler ao poder, Themar era lar de uma grande população judia. Pela cidade, você acha vários Stolpersteines – memoriais marcando as últimas casas conhecidas de judeus mortos durante o Holocausto. Alguns moradores com quem falamos acham que mais deveria ser feito para impedir Themar de se tornar ponto de encontro de racistas. O conselho do condado tentou impedir Bodo Dressel – ex-membro do partido de direita AfD – de emprestar seu campo para os organizadores do evento, mas um tribunal decidiu que o concerto era legal e não podia ser proibido.

Enquanto o festival começa, um grupo de manifestantes se junta perto do local, depois de um contraprotesto pelas ruas de Themar. Esse não é o único sinal de protesto – pela cidade, faixas e cartazes antinazistas estavam pendurados nos postes.

O contraprotesto marchando pelas ruas da cidade.

Cerca de 20 jornalistas estão dos dois lados da estrada principal que liga o estacionamento à entrada do festival. As pessoas entrando vieram de toda a Europa – algumas usando a insígnia do Blood & Honour, uma organização neonazista britânica proibida na Alemanha. Alguns cobriram suas tatuagens de símbolos ilegais com adesivos. Enquanto passam, alguns fazem pose para as câmeras como se estivessem num tapete vermelho. Outros são menos simpáticos: "Bastardos", um deles grita para nós. "Vou te matar", outro ameaça, e alguns só nos mostram os dedos do meio.

A raiva deles parece particularmente dirigida a mulheres. Gritos de "vadia" e "Vou te foder" são ouvidos aqui e ali. Uma fotógrafa recebeu uma cusparada, enquanto outra mulher de hijab foi ameaçada e chamada de "faxineira". O fluxo de nazistas continua até bem depois do final da tarde – o número surpreendeu até os organizadores, que tiveram que rearranjar as barreiras de proteção nos cantos do terreno para dar mais espaço aos participantes.

As barreiras negras também são uma tentativa de bloquear a visão do festival – apesar de não esconderem todas as bandeiras associadas ao Terceiro Reich tremulando acima dela. Na entrada da grande barraca branca cobrindo o palco, os participantes são revistados por policiais que foram chamados de toda a Alemanha. Tem até um canhão de água para o caso de tumulto. O custo adicional de segurança foi pago pelos contribuintes de Turíngia – enquanto os 6 mil participantes pagaram €35 para entrar, os organizadores do festival arrecadaram mais de €200 mil só em ingressos.

Barreiras foram erguidas para bloquear a visão dos jornalistas do concerto.

De onde estávamos na rua, era difícil entender as músicas que tocavam, mas pudemos ouvir gritos de apoio ao vice de Hitler, Rudolph Hess, e o slogan "Frei, Sozial und National!" (Sociali Nacionalismo Livre). Em certo ponto, uma das poucas mulheres participando do evento escalou a barreira e avançou contra uma fotógrafa, mas a polícia interveio. "Tenho dois filhos, quero minha privacidade", ela grita para os policiais enquanto é afastada.

Em seu pequeno jardim do outro lado da rua, um homem late que nós, jornalistas, deveríamos deixar os neonazis em paz. "No final das contas, o que podemos fazer sobre isso?" Esse parecia o sentimento geral entre muitas pessoas na área. Muitos locais acham que desde que eles não fiquem violentos como os manifestantes no G20 em Hamburgo, os nazistas podem ter o dia deles – tudo vai voltar ao normal amanhã.

A polícia no local do festival.

Mas não é tão simples assim – o ódio não para quando o festival acaba. No sábado seguinte, 29 de julho, eles voltariam para o Rock for Identity, um evento parecido no mesmo lugar que atraiu 3.500 pessoas ano passado. Uma das bandas, o Frontalkraft, vai estar aqui cantando: " Negra é a noite em que atacamos / Brancos são os homens que vão vencer pela Alemanha / Vermelho é o sangue no concreto".

Até final do festival, a polícia prenderia 46 pessoas por crimes como agressão física, danos à propriedade, carregar armas sem licença ou mostrar símbolos proibidos – um deles sendo a saudação nazista realizada no palco por um dos artistas.

A Alemanha em 2017 não é só um lugar onde casamento gay e cannabis foram legalizados, mas também onde eventos assim acontecem. Naquela noite fomos embora, acelerando a 170 km/h na Autobahn, deixando para trás milhares de pessoas numa grande barraca branca em Themar, com os braços direitos levantados para Hitler, gritando "Heil! Heil! Heil!" pela noite.

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