Foto por Larissa Zaidan/VICE. Arte por Flora Próspero

No 'Esquizofrenóias', Amanda Ramalho quer que as pessoas ouçam umas às outras

O podcast sobre saúde mental surgiu da necessidade da jornalista de falar e ouvir sobre seus próprios transtornos, com os quais convive desde os cinco anos de idade.

|
01 Novembro 2018, 10:00am

Foto por Larissa Zaidan/VICE. Arte por Flora Próspero

Aos cinco anos, Amanda Ramalho foi levada pela mãe a alguns cardiologistas. O motivo eram arritmias que a menina sentia com certa frequência mas, mesmo depois de exames e mais exames, os médicos não encontraram nada. A razão para as alterações de batimento foram descobertas só na adolescência da garota: aos 16 anos, Amanda foi diagnosticada com ansiedade depressiva e passou a entender vários comportamentos de sua infância e adolescência, como a intensa timidez e o medo paralisador até de apresentar um trabalho em frente à turma.

Amanda cresceu e, aos trancos e barrancos, aprendeu a lidar com o transtorno e transparecer sua personalidade comunicativa — tanto que passou 15 anos junto à bancada do Pânico na rádio Jovem Pan, antes de se demitir na semana passada por um conflito com a produção do programa. No meio desse ano, ela juntou as forças e dicas que acumulou ao longo dos anos para estrear o podcast Esquizofrenóias, onde, em 12 episódios, conta todas essas histórias e fala sobre problemas de saúde mental que vão de Transtorno Obsessivo Compulsivo ao autismo.

Nessa segunda (29), a Amanda recebeu a VICE pra falar sobre o processo de lidar com a depressão e falar sobre isso publicamente. E conta que o mais objetivo mais importante do podcast é um só: fazer com que as pessoas escutem umas às outras.

VICE: Como foi receber seu primeiro diagnóstico de transtorno mental?
Amanda Ramalho: O meu diagnóstico foi um dos mais precisos. Eu tinha 16 anos, e a psiquiatra me disse que eu tinha ansiedade depressiva. Ela explicou como se a depressão e a ansiedade fossem duas árvores, e eu tivesse galhos de ambas. Mas já me disseram que eu sou borderline, bipolar, muitas coisas.... O que eu tenho na verdade é uma fobia social, hoje eles chamam de ansiedade social, o que significa que pra fazer algumas coisas do dia-a-dia eu fico um pouco mais apavorada do que uma pessoa normal. Mas isso do diagnóstico não é nada definitivo. Você pega como uma verdade, por exemplo, ser bipolar e tomar remédio, mas isso não é você. Você é você, não o remédio que você toma ou o diagnóstico que te deram. Você pode ir pra outro psiquiatra e ele te dar outro diagnóstico — tanto que hoje não se fala mais "ser bipolar", em termos de diagnóstico, e sim "ter o espectro de bipolaridade."

Esse diagnóstico te causou alguma estranheza?
Não. Eu sempre fui esquisita, acho que só deu uma justificativa pra tudo que eu já não me encaixava. Eu lembro que, depois do diagnóstico, uma coisa que me chocou foi quando minha mãe chegou com os remédios e tinha um ansiolítico tarja preta. Isso assusta bastante. Você ouve pessoas falando "eu tenho depressão mas não tomo tarja preta", como se isso fosse um problema.

Ao longo da vida, você usou tratamentos alternativos aos remédios pra tratar a depressão?
Eu demorei mais tempo pra aceitar a terapia do que o remédio, porque eu achava terapia meio bobo. Já fui em vários terapeutas, muitos, e não conseguia me identificar com ninguém. Eu tinha um negócio físico, que era uma manifestação de medo, e tinha que tratar esse medo. Eu nunca tentei outras coisas, mas leio bastante sobre ayahuasca – uma vez eu já quase participei de um ritual, mas meus remédios estavam numa lista dos que podiam dar ruim se usados junto com ela. Tratamentos com cannabis também me interessam.

1541016844223-larissa-zaidan-hero
Foto: Larissa Zaidan/VICE

Antes do Esquizofrenoias, você já tinha falado disso publicamente de alguma maneira?
Não, porque eu não me sentia preparada. Sempre tive essa vontade. Uma vez me chamarem pra escrever um livro e rolou até uma primeira reunião, a editora gostou da ideia, mas no dia de assinar o contrato e definir valores eu tive um ataque de ansiedade e resolvi não fazer. Eu passei um período lidando bem com essas questões, tanto que amigos com problemas com ansiedade e depressão passaram a vir me pedir conselhos, já que eu tinha experiência. E eu entendi que quando as pessoas pedem ajuda, elas não querem uma opinião. As pessoas que ouvem o podcast mandam textões pra mim, mas não pedem resposta. E isso é a coisa mais triste, porque por mais que tenhamos amigos e família, as pessoas não se sentem ouvidas. Falamos muito de nós mesmos e nada acontece, ninguém se ajuda.

Escolhi o formato podcast porque, como eu trabalhei em rádio, tenho mais facilidade de falar. Hoje eu consigo tratar [o transtorno] de uma maneira leve, fazer piada, e a ideia é essa. Não é glamourizar – porque eu também já fui a pessoa que usa camiseta escrito "Rivotril". Então foi no momento certo. Já tomei Rivotril, é horrível. Mas às vezes eu preciso. E tudo bem. Não faço mais nada que eu me envergonhe, e acho que pra falar de saúde mental você tem que estar bem consigo mesmo. Ainda tenho crises, mas trato isso do jeito mais racional e prudente possível.


Leia outras matérias da Semana da Saúde Mental:


Ainda é um tabu falar de saúde mental?
Sim. Quando eu tinha 16 anos, eu precisava ouvir um podcast como esse. Quando eu tive a ideia, achei que ninguém ia se interessar. Por não existir nada parecido até o momento em que eu fiz, acabou sendo um pouco inovador, mas não é nada subversivo. Tem um termo que é "psicofobia", que designa que explica o preconceito que você sofre quando sua doença não é palpável e as pessoas acham que você tem controle sobre ela. Você acaba ouvindo coisas do tipo "vai se tratar", "você é louca". Hoje eu não sinto nada lendo essas coisas, mas se uma pessoas está na vala e ouvir isso, ela vai se sentir encorajada a fazer coisas horríveis. Acho que pouca coisa mudou desde o meu diagnóstico – vejo mais pessoas diagnosticadas, mas não acho que outras pessoas lidem com isso de maneira mais empática.

Como você decidiu quem convidaria pra participar do podcast?
A maioria são pessoas próximas a mim de alguma forma. Tem também os profissionais, mas a maioria são pessoas que eu conheço pessoalmente. O principal é a pessoa estar bem com o próprio transtorno, essa é minha maior preocupação. Se você me entrevistasse num momento triste, eu poderia falar coisas muito mais imprudentes do que estou falando agora. A responsabilidade é essa. Eu faço terapia, e em vários momentos eu falo pro meu terapeuta que eu sou uma farsa, porque eu não sou profissional mas estou falando desses temas. Mas ele me diz que aí é que as pessoas vão gostar, porque elas percebem que eu não sou uma perita em saúde mental. Eu tenho os sintomas e lido com eles. Recentemente, me chamaram pra fazer uma mesa com estudantes da área de psiquiatria da USP, e eu fiquei mal porque pensei "gente, mas eu não sou ninguém." Mas eu sou uma pessoa que passa por isso e lida com isso, então preciso estar lá.

1541017246378-larissa-zaidan-10053
Foto: Larissa Zaidan/VICE

De que outros distúrbios ou doenças você ainda quer falar no podcast?
Eu queria falar do meu, de ansiedade social, mas ainda não achei uma pessoa pra participar. Pedem muito distimia e borderline – uma pessoa com borderline demora dez anos pra ser diagnosticada corretamente, imagina isso? E meu psiquiatra às vezes me ajuda na pauta (risos) e acha que eu tenho que falar de ansiedade social principalmente por causa de crianças e adolescentes meninos, porque as meninas são lidas como tímidas, mas para os meninos acarreta um milhão de outros problemas por causa dos estereótipos de masculinidade.

Agora que você saiu do Pânico, você vai focar no podcast?
Eu acabei a primeira temporada do Esquizofrenoias. Pode ser que tenha um outro episódio até o final do ano, isso está em negociação, mas voltamos em janeiro ou fevereiro do ano que vem. Estou trabalhando em um documentário de medicina com cannabis. Também quero fazer uma série documental cujos episódios são baseados nos depoimentos do podcast, estamos trabalhando no roteiro. Acho que vai ser bem legal, porque as pessoas se interessam e elas precisam. É uma coisa com a qual eu tenho facilidade e me sinto útil.

Quando você trabalha com entretenimento, você não entende sua utilidade social. Mas quando você faz uma coisa pra ajudar – não que seja de uma benevolência absurda – você se sente leve. Eu recebo umas mensagens "minha filha se matou e eu a perdi", e as mães me mandam as fotos, é horrível. Eu tento não me envolver, mas respondo todas as pessoas que falam comigo. E é muito louco porque elas não querem trocar muita ideia, só querem que eu leia o depoimento. E essa é a constatação mais triste de tudo – que merda, ninguém se ouve. Então sei lá, me ouve aí no podcast (risos).

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.