Falamos com o pai da Lei de Godwin, que autorizou comparar Bolsonaro a Hitler

O advogado e jornalista Mike Godwin, criador da “lei” que diz que todo debate na internet tende às comparações com nazistas, recentemente ganhou um grande fã-clube brasileiro.

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24 outubro 2018, 10:00am

Mike Godwin. Foto: Voice of America/Cambodia/Creative Commons

O Brasil finalmente se reconheceu em Mike Godwin. O jornalista e advogado, um dos pioneiros na defesa pela liberdade na internet (e também o criador do conceito de meme de internet), talvez seja mais famoso pela chamada “Lei de Godwin”, que diz que, quanto mais se arrasta uma discussão na internet, maior é a probabilidade de alguém invocar Hitler ou o nazismo em geral como argumento para desqualificar o adversário.

Godwin diz que criou a lei como uma maneira de tentar moderar discussões fúteis que empesteavam as discussões sobre seus hobbies no Bulletin Board System, espécie de fórum online predecessor da internet como a conhecemos. Com o tempo, a lei foi ganhando novas versões, incluindo uma reversa que dizia que, com o tempo, uma discussão no fórum neonazi Stormfront se aproximava da possibilidade de alguém chamar o outro interlocutor de “judeu”.

Mais que isso, a lei acabou virando, especialmente em tempos bicudos como os nossos, uma “proibição” à comparação de figuras autoritárias, regimes totalitários modernos e fascismos em geral com o sempre notório ditador alemão. Toda vez que alguém compara Trump, Orbán ou até mesmo Rodrigo Duterte com a nazistada, sempre aparece uma voz conservadora para invocar a Lei de Godwin e chamar a argumentação de “exagero”. Pois bem, há alguns anos o próprio Godwin vem rebatendo esse tipo de aplicação da sua lei — já falou que as comparações das torturas em Abu Gharib poderiam ser comparadas com o III Reich, e foi amplamente claro em liberar geral para chamar os nazistas de Charlotesville de nazistas.

Ou seja, não seria uma surpresa vê-lo “autorizar” os brasileiros a comparar o fascista do momento, o candidato presidencial Jair Bolsonaro (PSL), a Hitler. E Godwin fez isso em grande estilo, colocando sorrisos na cara dos “vermelhos” antifascistas com tiradas zoeiras aos seguidores de Bolsonaro que vieram atacá-lo — na maior parte das vezes em português, com ajuda do Google Translator e do conhecimento básico de espanhol e italiano. Além de adicionar a popular hashtag #EleNão ao seu perfil no Twitter, ainda entregou pérolas de fina ironia, como “compartilho o terror que o povo de São Paulo tem sobre as ciclovias extremamente caras que estão sussurrando nos ouvidos de crianças brasileiras inocentes que elas precisam crescer para serem gays”. Basicamente ele inverteu o “brazilsplaining”, mania da extrema-direita local em dizer que gringos não sabem sobre o que estão falando mesmo quando são especialistas na área — entre suas recentes vítimas estão o Papa Francisco e Roger Waters, que não teria entendido as próprias letras.

Com a contenda, também apareceram milhares de novos fãs de Godwin, que continua fazendo campanha contra Bolsonaro em seu Twitter, entre um e outro tuite analisando Trump ou divulgando sua ótima entrevista com o criador de The Wire David Simon. Aproveitamos os holofotes para puxar uma entrevista por e-mail com ele, onde Godwin conta um pouco mais sobre os primórdios da internet e sobre como viver no mundo do discurso tóxico das redes. Segue a lei:

VICE: Como você poderia resumir a Lei de Godwin para um brasileiro?
Mike Godwin: Escrevi assim, em inglês: “Na medida em que uma discussão online continua, a probabilidade de surgir uma referência a Hitler ou aos nazistas se aproxima de 1”. Essa é a linguagem das probabilidades matemáticas. A Wikipédia em português usa uma tradução razoavelmente precisa, onde coloca 100% no lugar de “1”, o que é essencialmente correto.

É verdade que você criou a lei para ser usada conscientemente? Qual era o seu objetivo?
Eu queria apontar para o fato de que a maior parte das comparações com Hitler e os nazistas que eu via na internet eram hipérboles, exageros excessivos. Isso não significa que todas eram, mas que é importante ter em mente as coisas que fizeram de Hitler e dos nazistas tão unicamente horríveis. A maior parte dos políticos realmente não são comparáveis, mas nesses dias de ressurgimento de nacionalismos divisivos, o número de comparações válidas certamente têm crescido.

Você acha que a lei ajudou a diminuir o uso de hipérboles no discurso online?
Não sei dizer se ela reduziu as hipérboles como um todo — digo, as comparações com Hitler ou os nazistas — mas parece ter funcionado em fazer as pessoas pensarem se esse tipo de comparação é sempre justificável.

Qual foi a pior violação da lei que você lembra?
Não acho que a Lei de Godwin pode ser violada. Ela é como as leis da termodinâmica — ela é inviolável.

Você chegou a ter que adicionar novos corolários à lei?
Eu acho que a internet é muito criativa e não precisa de mim como tutor da Lei de Godwin.

Você se lembra de ver o debate online em um estado tão tóxico como tem sido nos últimos anos?
Sim e não. A toxicidade sempre esteve ali, e os meios online ajudaram pessoas com pensamentos e opiniões terríveis a ficarem menos escondidos (eu acho que isso é algo bom, porque impede que nos deixemos levar pela ideia de que a toxicidade humana emocional e política estaria em declínio). Na medida que vemos mais gente online, certamente veremos mais episódios de opiniões tóxicas. Isso é uma desvantagem do acesso cada vez mais amplo à internet. Ainda assim, sou a favor de ampliar esse acesso, porque essas ideias terríveis precisam ser respondidas e refutadas em público.

O diretor Adam Curtis, assim como outros críticos das redes sociais, critica em seu filme Hypernormalisation o que ele chama de “tecnoutópicos”, como John Perry Barlow, pelo seu foco no individualismo e no escapismo, que de alguma maneira teriam moldado a maneira como nos relacionamos com a internet. Você acha que os “pais fundadores” da internet são de alguma forma responsáveis pelo que vem acontecendo?
É uma opinião popular hoje em dia para certas pessoas dizer que, se ao menos os “tecnoutópicos” ou “tecnolibertários” tivessem sido mais sensatos no princípio, e mais cientes de como a internet e as redes sociais poderiam ser mal utilizadas, nós não teríamos os problemas de comportamento que vemos na internet hoje. Mas essas pessoas não conhecem a história da liberdade civil na internet. O primeiro impulso dos governos, incluindo o governo dos EUA, foi de encontrar meios para censurar a internet. A “Declaração de Independência do Ciberespaço” de Barlow foi um desafio ao impulso pela censura, que Barlow corretamente reconheceu como conduzido por pessoas que realmente não tinham uma experiência real com a internet. Era um grito de guerra, um pouco de poesia, uma letra de música (as pessoas tendem a esquecer que Barlow era antes de tudo um poeta, e que ele não estava tentando ser um James Madison ou um Alexander Hamilton). Nos EUA há uma grande diferença entre a nossa Declaração da Independência e a nossa Constituição. Escrevi mais sobre o assunto aqui.

Você ainda acredita que a internet pode ser uma força positiva para a democracia e para a vida das pessoas em geral? Se for, porque estamos cercados de fascistas neste momento?
Sim, vemos as pessoas usando a internet de maneira positiva o tempo todo — às vezes a parte positiva acaba sendo o trabalho de desafiar os fascistas. No Brasil a questão é que os fascistas da vez usam apps específicos — notadamente o WhatsApp — que não expõem as suas campanhas de propaganda e manipulação para a internet como um todo, onde as mentiras e preconceitos poderiam ser combatidos.

Você disse que aprendeu novas expressões com usuários brasileiros. Quais foram as melhores?
Nenhuma que eu gostaria de repetir!

Você agradeceu aos brasileiros pelo Marco Civil da Internet. Por que ele merece elogios?
O Brasil foi pioneiro ao reconhecer que, antes de um país passar uma lei contra crimes virtuais, precisa decidir que interesses na internet precisam ser protegidos. O Marco Civil da Internet fez isso, e foi um ótimo exemplo positivo para outros ativistas da internet no mundo todo.

Como um advogado que lutou por uma internet livre por toda a vida, quem você acha que são os maiores inimigos da liberdade de expressão e da privacidade na internet hoje?
O primeiro inimigo é o censor: a pessoa que acredita que a coisa mais importante é censurar as divergências e os dissidentes. O segundo inimigo é o traficante de ódio: a pessoa que usa a internet, assim como outros meios, para levar medo e ódio aos outros — acho que aí cabe o seu Bolsonaro. Certos políticos norte-americanos também cabem na mesma definição, É um problema que todos devem conhecer, mas não deve se render a isso.

Bolsonaro agora está mirando no WhatsApp, que implementou um filtro para combater o problema das notícias falsas, chamando isso de censura e prometendo passar uma lei que forçaria o WhatsApp a não apontar ou barrar links e imagens classificados como "fake News" e nem limitar o alcance dessas mensagens. Você acha que ele está sendo censurado?
Se Bolsonaro está usando o WhatsApp para conduzir uma campanha de desinformação, está dentro do direito do WhatsApp decidir não ser um veículo para espalhar mentiras. Sem contar que ele pode estar violando a lei eleitoral. Mas isso parece consistente com o que sabemos de Bolsonaro, que ele violaria a lei eleitoral — Bolsonaro claramente não é uma pessoa comprometida com coisas como leis.

Você conquistou uma legião de fãs brasileiros. Pretende visitar o Brasil em breve?
Eu adoraria voltar ao Brasil. No momento estou um tanto pobre para conseguir ir com os meus meios, mas tenho a esperança de receber um convite para ir ao país para falar e compartilhar o que sei sobre internet e democracia. Tenho um grande carinho pelo Brasil, pelo seu papel no progresso das liberdades civis na internet, e pelos inúmeros incríveis brasileiros que eu conheci e com quem trabalhei, tanto ao vivo como pela internet.

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