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Bolsonaro ganhou apoio da rede social Gab, o paraíso de neonazistas dos EUA

Barrados por Twitter e Facebook, simpatizantes do candidato do PSL acharam um espaço livre para se organizar e espalhar ofensas, preconceitos e notícias falsas.

por David Gilbert
05 Outubro 2018, 9:07pm

Ilustração por Leslie Xia.

Jair Bolsonaro, o líder do movimento populista de extrema-direita do Brasil, uma vez disse a uma deputada que ela não era digna de ser estuprada e já elogiou muitas vezes o homem que supervisionava as torturas durante o regime militar no país. Agora, segundo pesquisas, ele pode se tornar o próximo presidente do Brasil. E ele tem um aliado improvável: Gab, uma rede social dos EUA mais conhecida como um paraíso de neonazistas e supremacistas brancos.

Enquanto o Facebook e o Twitter trabalharam para garantir que suas plataformas não tivessem um papel tóxico na eleição presidencial do Brasil, o Gab tem tentado capitalizar sobre a comunidade de direita emergente do país e a histeria de fake news que a cerca. Com mais de 600 mil usuários pelo mundo, a empresa quer aumentar sua base atraindo pessoas influentes da extrema-direita brasileira, incluindo o próprio Bolsonaro.

“Quando Bolsonaro se juntar ao Gab, o Twitter vai morrer no Brasil e a mídia vai entrar em pânico”, disse o fundador do Gab, Andrew Torba, em setembro. Torba, um empreendedor de 27 anos da Pensilvânia, nos EUA, diz que seu site é apolítico, e que seu sucesso no Brasil é uma consequência das ações contra discurso de ódio do Vale do Silício. Mas ele não é discreto em sua admiração pelo político brasileiro. Isso veio depois que o partido do Bolsonaro, o PSL, criou uma conta no Gab em 23 de agosto.

O entusiasmo parece estar compensando. O Gab afirma que mais de 150 mil brasileiros se juntaram à rede social antes da eleição, com 30% do tráfego no site agora vindo do Brasil.

Uma história que vem ganhando tração no Gab agora é a de que Bolsonaro não aceitaria o resultado se perdesse, afirmando que o PT está adulterando as urnas eletrônicas. Ele não deu nenhuma prova para essa acusação, o que não impediu a história de viralizar.

“Essa alegação é muito perigosa. Se, por exemplo, o Fernando Haddad (PT) vencer, já está no ar que eles não vão aceitar o resultado – e aí vamos ter problemas”, disse Yaso Cordova, uma ativista que está monitorando a propagação de fake news no Brasil antes da eleição.

Apesar de representar uma pequena fração da população de 125 milhões de usuários de redes sociais no Brasil, uma nova pesquisa do Atlantic Council diz que a migração de brasileiros para o Gab deve exacerbar crenças extremistas no país e tornar mais difícil rastrear as fake news e propaganda. Isso se torna ainda mais grave com o descontrole de informações falsas que se alastram pelo WhatsApp. De acordo com levantamento recente feito pelo Datafolha, 61% dos eleitores que declaram voto no Bolsonaro leem notícias diretamente no aplicativo, o que facilita a disseminação de mentiras como a de que Manuela D’Ávila, vice do presidenciável Fernando Haddad (PT), usou uma camiseta com a inscrição “Jesus é travesti”.

Um paraíso das fake news

Jair Bolsonaro numa feira de agronegócio em Esteio, Rio Grande do Sul, 29 de agosto de 2018. REUTERS/Diego Vara/File photo

O Brasil é uma tempestade perfeita quando se trata de espalhar notícias falsas. A política está profundamente polarizada, o candidato presidencial líder nas pesquisas é um populista de extrema-direita que sabe usar as redes sociais para passar sua mensagem e se trata de uma das populações mais ativas do mundo nas redes sociais.

Com 122 milhões de usuários no Facebook, o Brasil é o terceiro maior mercado da plataforma, mas em 2018 é a outra propriedade do Facebook, o WhatsApp, que mais preocupa antes das eleições.

Em junho, o governo fez todos os partidos assinarem um acordo de não compartilhar notícias falsas, porém, o esforço se provou pouco eficaz.

“Vemos a explosão do WhatsApp como um jeito perfeito de espalhar fake news”, disse Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, o mais antigo serviço de fact-checking do Brasil. “O que vimos é que não dá para combater notícias falsas no WhatsApp, já que você não tem nenhuma ferramenta para ver o que está sendo compartilhado.”

O grande volume de usuários no Brasil e a escala do conteúdo compartilhado pelo WhatsApp tornam quase impossível de policiar a ferramenta. A natureza criptografada da plataforma significa que conteúdo se espalha por grupos grandes de usuários em segundos. Bolsonaro e seus simpatizantes usam a plataforma como arma; são centenas de grupos enviando milhares de mensagens por dia para simpatizantes, muitas delas fake news e desinformação pensadas para manchar a reputação de seus oponentes, segundo um relatório recente.

“A direita alternativa brasileira é inspirada na alt-right dos EUA – é como uma colaboração”

Para combater isso, o WhatsApp começou a trabalhar com o Comprova, um projeto de jornalismo colaborativo que junta 24 redações numa tentativa de desmascarar desinformação. Esse foi o primeiro grupo a ganhar acesso ao Business API do WhatsApp, o que permite que jornalistas do Comprova exponham fake news sendo espalhadas na plataforma.

O esforço tem mostrado relativo sucesso: 20 mil pessoas já entraram em contato com o Comprova desde o começo do projeto em agosto para denunciar fake news.

O Facebook e Twitter também estão na missão de derrubar notícias falsas. A rede de Mark Zuckerberg removeu 196 páginas e 87 contas, incluindo contas ligadas ao grupo ativista de direita MBL. Enquanto isso, o Twitter se juntou ao Comprova, uma decisão que levou muitas contas famosas de direita reclamarem de censura.

Como reação a isso, a ofensiva do Vale do Silício sobre as fake news e discurso de ódio deu retornos consideráveis ao Gab. Mas Torba diz que a plataforma não está tentando interferir no resultado da eleição.

“O Vale do Silício silencia abertamente vozes conservadoras, populistas e nacionalistas, enquanto impulsiona e força agendas 'progressistas' para bilhões de pessoas”, disse ele a VICE News. “O Gab é uma plataforma que aceita todo mundo e não tenta silenciar arbitrariamente um lado ou outro do espectro político.”

Apesar de dizer que seu site é apolítico, Torba vem usando seu próprio perfil para elogiar Bolsonaro e gerar apoio para o populista de direita fora do Brasil. (Torba “vazou” parte de sua entrevista com a VICE News em seu perfil público e no Twitter, uma ação que resultou numa onda de ódio racista e antissemita de usuários do Gab.)

“Bolsonaro é um tesouro nacional do Brasil”, Torba escreveu em agosto. “Os norte-americanos devem apoiá-lo e apoiar os brasileiros que estão lutando por seus direitos e soberania nacional.”

Ele também postou screenshots do vídeo em que Bolsonaro diz à deputada Maria do Rosário que ele não a estupraria porque ela “não merece”. Acima das imagens, Torba escreveu: “Quanto mais vídeos do Bolsonaro assisto, mais gosto dele”.

Bolsonaro ainda não se juntou ao site, mas seu filho Flavio já tem uma conta verificada na rede social.

Torba e outros simpatizantes da extrema-direita nos EUA receberam de braços abertos os brasileiros que pensam como eles, mas, em vez de tentar impactar diretamente as eleições do país sul-americano, oferecem conselhos.

“Os norte-americanos devem apoiá-lo e apoiar os brasileiros que estão lutando por seus direitos e soberania nacional”

“A direita alternativa brasileira é inspirada na alt-right dos EUA – é como uma colaboração, em vez de influência ou intervenção”, disse Cordova.

Um novo relatório do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council descreve o Gab como “um espaço fértil para a propagação de desinformação no Brasil". "A plataforma em si age como uma gigantesca bolha filtrada”, afirma.

Ser banido de sites mainstream como o Facebook e Twitter pode limitar o alcance de pessoas tentando espalhar discurso de ódio, mas o crescimento do Gab preocupa quem está tentando monitorar as atividades de extremistas na internet.

“Isso pode levar esses usuários para sites marginais onde praticamente não existe políticas contra discurso de ódio e isso torna mais difícil monitorar as atividades deles”, disse Luiza Bandeira, assistente do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council.

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