Quem quer ser presidente

Eymael: o democrata cristão e candidato profissional que defende a família

​Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de José Maria Eymael, candidato do DC.​

por Fernando Cesarotti; ilustrado por Cassio Tisseo
19 Setembro 2018, 1:42pm

Ele é um democrata cristão, e isso certamente você já sabe, graças ao jingle mais pegajoso da política brasileira. Mas José Maria Eymael não é só isso: é um político profissional, que nos últimos 35 anos disputou 12 eleições, cumpriu dois mandatos de deputado federal e neste ano se candidata pela quinta vez à Presidência, tentando convencer as pessoas de sua capacidade de governar o país com um plano conservador em que se destaca a defesa da família em seu formato tradicional, pai-mãe-filhos, com espaço também para o combate à corrupção e o enxugamento do Estado, que deve ser transformado ”de senhor em servidor”.

O jovem José Maria nasceu em Porto Alegre e estudou na PUC local, formando-se em Filosofia e Direito. Como tantos outros candidatos, foi na universidade que começou a se envolver com política, como presidente do centro acadêmico dos filósofos e também da federação dos estudantes de universidades privadas do Estado. Com 22 anos, entrou no PDC, então um partido pequeno e conservador, que fazia escada para a UDN na oposição ao presidente João Goulart, mas tinha quadros que depois fariam fama como opositores ao regime militar, como André Franco Montoro, futuro governador paulista, e Plinio de Arruda Sampaio, que terminaria a vida filado ao PSOL.

Durante a ditadura, Eymael se dedicou basicamente a enriquecer: exerceu a advocacia, mudou-se para São Paulo e virou também empresário. Em 1980, com o fim do bipartidarismo, filiou-se ao PDS, sucessor da Arena, o partido de sustentação dos militares, e logo em seguida transferiu-se para o PTB, então liderado pelo ex-presidente Jânio Quadros, saindo como candidato a deputado estadual, sem sucesso. Três anos depois, foi um dos líderes da recriação do PDC, ganhando o direito de sair pelo partido como candidato à prefeitura de São Paulo. Foi quando ofereceu ao mundo sua obra magna, o jingle de autoria do alfaiate José Castro, retratado nesta matéria do jornal O Globo.

Eymael não passou do nono lugar na eleição, com 4.578 votos. Mas, no ano seguinte, repetiu a musiquinha, com pequenas alterações na letra, e, com mais de 72 mil votos, elegeu-se deputado federal constituinte. Na elaboração da Carta Magna, engajou-se em projetos de defesa dos trabalhadores, como o aviso prévio e a jornada semanal de 44 horas.

Reelegeu-se em 1990, com votação bem inferior, 34 mil votos. Tentou a eleição para prefeito novamente em 1988 e 1992, sempre com votações inexpressivas, e em 1993 fundou um novo partido: o PDC fundiu-se com o PDS para criar o PPR, e ele decidiu então criar o PSDC, e se consolidou como uma espécie de “candidato profissional”: nas últimas seis eleições presidenciais, concorreu em cinco e só ficou de fora em 2002, quando preferiu sair para deputado federal por São Paulo e fracassou fragorosamente, com menos de 9 mil votos. Também saiu mais uma vez para prefeito de São Paulo, em 2012, mas ficou em penúltimo lugar, com 5.382 votos. Ao todo, se consideramos as 18 eleições vividas pelo Brasil desde a redemocratização, em 1985, Eymael esteve presente em 12, ou dois terços delas. Neste ano, a novidade é a mudança do nome do partido, que desde o ano passado se chama apenas DC, Democracia Cristã, graças à nova legislação que desobriga o uso da palavra “partido”.

Para presidente, aliás, seu desempenho tem sido uma gangorra: de 171.287 votos em 1998, caiu para 63.294 em 2006, ano em que teve a chance de participar de alguns debates eleitorais no primeiro turno; em 2010, subiu para 89.350 votos, e desceu de novo em 2014, quando convenceu exatos 61.250 eleitores. No ano passado, seu nome milagrosamente apareceu nas manchetes, e não foi exatamente por uma boa causa: foi acusado por ex-executivos da Odebrecht, em delação premiada, de ter recebido doação de R$ 50 mil por caixa dois nas eleições de 2010. Ele negou ter recebido recursos não declarados.

E aproveitou a chance para falar de um de seus motes de campanha: a luta contra a corrupção. No seu plano de governo, dividido em 25 diferentes propostas, ele promete executar princípios empresariais para “prevenção, detecção e correção” de atitudes ilícitas. Nas pautas comportamentais, se expressa de forma conservadora: defende o “resgate e a proteção dos valores éticos da Família e a satisfação plena de suas necessidades”, sem falar em nenhum momento em pautas identitárias, como defesa dos direitos LGBTI ou de suporte a mulheres e negros. Em sabatina na TV Brasil, propôs inclusive a criação do Ministério da Família, deixando claro que, para ele, família é a união entre homem e mulher – mas “sem discriminar homossexuais”.

Na política econômica, Eymael não se coloca exatamente como um liberal: é contra a privatização de empresas estratégicas, como a Petrobrás, e sugere uma política orientada para o desenvolvimento, com redução das taxas de juros para o setor produtivo e estímulo ao agronegócio e ao turismo de negócios, entre outros setores. Também promete apoio aos empreendedores e à construção civil. Na área tributária, sua especialidade como advogado, sugere a simplificação da estrutura de cobrança – mas fala, de forma vaga, em “redução da carga tributária e respeito à capacidade contributiva”, sem dizer como fará para que os ricos paguem mais impostos.

Na segurança, o democrata-cristão promete endurecer o policiamento de fronteiras, com apoio das Forças Armadas, para evitar a entrada de drogas e armas, além de reformar o sistema penitenciário – de novo, sem grandes detalhes. Na educação, promete escola integral durante o ensino fundamental e retomar a disciplina Educação Moral e Cívica, invenção da ditadura militar abolida após a redemocratização. Até agora, não vem convencendo muita gente: no último Datafolha, não atingiu nem 1% das intenções de voto.

José Maria Eymael
Formação: Bacharel em Filosofia e Direito, ambos pela PUC-RS
Idade: 77
Patrimônio: R$ 6.135.114,71
Trajetória (partidos): PDC-PDS-PTB-PDC-PPR-PSDC/DC
Vice: Hélvio Costa (DC)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente . Novos perfis toda segunda, quarta e sexta.

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