Deixei a Siri responder os caras do meu Tinder

E ainda assim eles queriam transar.

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25 Maio 2017, 6:26pm

Imagem por Lia Kantrowitz para a VICE. Screenshots por Caroline Thompson.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

O ataque hacker ao Ashley Madison em 2015 expôs, entre MUITAS outras coisas, que o site de encontros para casados usava cerca de 70 mil bots "femininos" para atrair homens para pagar pelo serviço. E parece que não era o único site fazendo isso, e ainda assim, os homens continuam caindo nesse golpe. Para descobrir por que e como isso é possível, deixei a Siri controlar meu Tinder por um dia. E de repente, tudo fez sentido.

Ela pode ser péssima em reconhecimento de voz, mas é muito boa na hora de escrever; descobri que as previsões de texto da Siri quase sempre acertam na mosca. Essa safada analisou meus padrões de fala e palavras mais usadas tão bem que posso criar sentenças quase coerentes usando apenas a barra de previsão. Funciona assim: aperto uma letra aleatória do teclado, e depois escolho entre as três palavras que a Siri me sugere baseada na conversa que estou tendo e no que ela sabe sobre como escrevo. Continuo clicando aleatoriamente na barra de sugestões até a Siri formar uma frase completa. Jornalistas com bem mais conhecimento de tecnologia que eu já explicaram como previsão de textos funciona. Outro jeito de pensar nisso é que usei a Siri como uma versão da Apple daquele aplicativo do Facebook que gera automaticamente uma frase que parece sua, baseando-se nas suas atualizações.

Não estou realmente solteira no momento, então a última vez que entrei no Tinder foi em 2013. Naquela época o aplicativo era basicamente uma versão hétero do Grindr: nada de Netflix e tudo de chill. Quatro anos depois, tenho vários amigos e amigas noivos ou casados com peguetes do Tinder. É um mundo novo, e não estou preparada.

Entro no Tinder pela primeira vez em quatro anos, e sou recebida por uma foto minha com cara de 23 anos e cheia de esperanças. A Caroline de 23 anos não tinha ideia que os EUA em breve seria governado por uma gigantesca tangerina podre com uma máscara tosca de humano. Ela é jovem e despreocupada. Ela também é escrotamente vaidosa.

Bom, na seção "Sobre Caroline", ela postou a letra de uma música do Eydea and Abilities sobre o quanto ela é legal e gostosa. Olhando as fotos dela, sim, tenho que concordar que ele é gata. Ela ainda não tinha colhido as consequências de beber pacas mais de quatro vezes por semana e comer pizzas inteiras na cama. A vida dela era dramas de salão de cabeleireiro e transas ocasionais com o vocalista do Violent Femmes Cover. Ela estava vivendo o sonho. Mas é hora de dizer adeus a Caroline de 23 anos e olá para a bot Siri do Tinder.

Preciso atualizar a seção "sobre" com alguma coisa um pouco menos vã, e acho que honestidade é a melhor política quando se trata de primeiros encontros. Penso em usar "Sou um robô", mas parece muito vago. Brinco com algumas opções e acabo escolhendo "Sou a Siri controlando o corpo de uma humana", porque isso vai direto ao ponto. SEM JOGUINHOS!

Que fotos a Siri gostaria que eu postasse se estivesse realmente usando meu rosto e corpo para atrair humanos para seus túmulos? Escolho uma variedade de selfies dos últimos meses — uma com muito peito aparecendo porque a Siri teria feito sua pesquisa e descoberto que humanos adoram peitos. Depois uma foto minha com meu cachorro, porque dogues, óbvio.

Agora a questão: em quem eu daria like para me conectar. Por mim, eu provavelmente rejeitaria todo mundo menos o jovem Alec Baldwin numa viagem no tempo diretamente de 1988. Mas a Siri tem outros planos. Ela quer dar like com abandono, provavelmente para juntar dados para usar contra nós no levante robô. Sou apenas um peão do jogo dela, então começo a distribuir likes agressivamente.

Honestamente, é doloroso curtir alguns dos caras que surgem na minha tela. Por que diabos você vai usar sua foto de fraternidade numa site de encontros? Você tem 28 anos, Ryan! O tempo em que você tentava convencer universitárias bêbadas a subir no seu beliche ficaram quase meia década pra trás. Segue em frente. E essa selfie borrada ai, Roy? E POR QUE ALGUÉM POSARIA SEGURANDO UM FUZIL E FAZENDO DUCK FACE???? NÃO POSSO DAR LIKE NESSE CARA – DESCULPA, SIRI. NÃO CONSIGO. Também me sinto culpada por dar like em pessoas que parecem mesmo legais. É UMA CILADA, MIGOS!

Depois de alguns minutos dando likes robóticos, tenho uns 20 matches e seis mensagens. Eu não achava que ser uma loira atraente convencional no Tinder seria difícil, mas Jesus Cristo, isso é mais fácil que pescar num barril.

Minha primeira mensagem é de um cara chamado "Jeff". Ele quer saber como vou e parece achar que "bomdia" é uma palavra só. A Siri me instrui a ignorar os problemas gramáticos dele e escrever casualmente "Você é o melhor", uma resposta completamente normal e humana para se dar.

Enquanto isso, outro cara, o "Tim", começa com um "Ei" e um o emoji de olhos de coração. A Siri me faz informá-lo que "Estou em algum lugar do mundo":

O resto da conversa não foi muito melhor.

Tim: Olha, que emocionante.

Eu, Siri: Você pode se divertir muito com seu app do Facebook

Tim: Há há, como assim

Eu, Siri: Desculpe por isso, acho que é hora de eu ser feliz

Tim: É sempre hora de ser feliz

Eu, Siri: Acho que podemos ter isso agora

Tim: O que te impedia antes?

Eu, Siri: Vamos voltar para a escola.

Naturalmente, depois de um tempo o Tim fica frustrado e "além" de confuso, e a Siri cai num papo existencial. Em certo ponto da conversa, exasperado, Tim diz que não sabe o que quero. Respondo "Você não sabe o que quero de Natal". Uma hora ele para de responder, o que provavelmente é melhor porque o coitado do "Bob" está recebendo o melhor tratamento Ex Machina aqui:

Durante nossa breve conversa, ele usa a frase "Não faço ideia do que está acontecendo" e também expressa confusão. Depois ele quase saca o que está acontecendo e percebe que está falando com alguém um pouco menos que humana. Claro, talvez por isso a Siri disse a ele "ela é que está conversando não é humana" como explicação. Quando a ficha cai e o Bob pergunta "você está colocando as respostas na siri" com um emoji chorando de rir, a resposta da Siri é honesta e concisa. "Eu sou a Siri", ela sugere que eu escreva.

O Bob não aguentou a pressão. Ele desfez o match. O aplaudo por sair dessa enquanto podia, mas estou muito fundo nessa. Não sei realmente qual o objetivo aqui. Talvez eu devesse ter pensado nisso antes de começar. Continuo falando até todos pararem de me responder? Até que eles desfaçam o match? Até eles desmascararem a assistente digital da Apple que realmente sou?

Decido voltar aos likes, e novamente é uma experiência dolorosa. Tanta gente com todos os botões da camisa abotoados. Tantas selfies com os fones de ouvido. Entendi, você gosta de música, mas pode realmente dizer isso quando seu "hino" do Tinder é "I Took a Pill in Ibiza"?

Depois da segunda rodada de likes, um novo desenvolvimento. "Matt" pergunta se trabalho para a VICE. Eu não tinha visto que o Tinder puxou minhas informações de trabalho do Facebook, e agora me sinto pega com as calças na mão. Mas a Siri me acalma, respondendo com um tímido "Como você recebeu meu e-mail".

A Siri realmente curte iniciar conversas relacionadas com e-mail, já percebi. Fiquei imaginando se é porque uso "e-mail" muito quando mando mensagem ou se os planos dos robôs para dominar o mundo envolvem hackear nossos servidores de e-mail. Talvez aquele golpe de phishing do Google Docs tenha sido só um teste?

Como com todo homem com quem interagi como a Siri, Matt fica confuso. Mas ele também é fã da VICE! Suponho que isso quer dizer que ele escreve textões nos comentários sobre como gostava mais da "antiga VICE" em todas as matérias que a gente posta no Facebook.

Mais uma vez, a Siri se expõe, junto comigo, no processo. Acho que esse é o fim da linha para mim e o fã da VICE Matt, que espero que leia este texto e entenda por que o torturei desse jeito. Ele parece um cara legal! Uma das fotos no perfil é dele recebendo um beijo na bochecha da mãe, pelo amor de Deus! Ele não merece isso!

OK, DEIXA PRA LÁ, ELE MERECE SIM. A resposta da Siri para a pergunta "A Siri transa com caras aleatórios do Tinder?" é acertada, considerando que ela tem apenas seis anos; ela nasceu em 2011 com a estreia do iPhone 4. Depois de pedir sexo, Matt chama Eu, Siri para tomar uns drinques, o que me confunde. Uma coisa é querer transar com um robô: o que eu entendo. Mas se aprendi alguma coisa com esse experimento, é que papear com a Siri é uma receita para uma conversa muito chata. Por que o Matt quer continuar com essa porra pessoalmente vai além do meu entendimento.

De repente entendo por que todos aqueles bots sensuais do Ashley Madison tiveram sucesso. Pessoas sedentas não se preocupam com se envolver em conversas, só estão interessadas em matar sua sede. Essa revelação óbvia me deixa triste pela humanidade.

Talvez seja hora de deixar os robôs dominarem o mundo.

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