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Bloco Porão do Dops irá acontecer em lugar fechado

Vice-presidente do grupo Direita Brasil, responsável pela criação do evento, diz temer uma “carnificina”.

Marie Declercq

Marie Declercq

Imagem: Reprodução/Facebook

Esta reportagem foi atualizada às 11:30 do dia 9 de fevereiro.

Desde que foi anunciado, o Bloco Porão do Dops marcado para acontecer no dia 10 de fevereiro, causou muito desconforto. Organizado pelo grupo Direita São Paulo, o evento prometia muita “opressão” em frente à antiga sede do DOI-CODI na Vila Mariana, local onde eram realizadas torturas de presos políticos. Após inúmeras manifestações e notas de repúdio de políticos e organizações de Direitos Humanos, uma ação instaurada pelo Ministério Público de São Paulo e a agressão de um membro do grupo, um dos organizadores do Direita São Paulo diz que o evento será feito em lugar fechado.

Com homenagens a figuras da ditadura militar, que durou no país de 1964 a 1985, o bloco irá fazer reverência a nomes como Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-COI durante o período, e também Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Dops na época. O evento foi amplamente criticado e denunciado na internet. O grupo conservador da Direita São Paulo, desconhecido até então, ganhou menções na imprensa, além de chamar a atenção de internautas.

A reportagem entrou em contato com o Facebook a fim de saber o posicionamento da rede social depois que postagens questionavam a criação do evento na plataforma. À VICE, a empresa informou que “o Padrões da Comunidade do Facebook definem quais conteúdos são permitidos ou não na plataforma. Contamos com nossa comunidade para denunciar conteúdos que possam violar nossas políticas para que sejam revisados por nossos especialistas". O evento virtual continua no ar, no entanto.

No dia 29 de janeiro, o MPSP instaurou uma ação contra os organizadores do bloco alegando que “o evento enaltece o crime de tortura. (...) A ação não pretende proibir a realização do bloco, mas sim o enaltecimento ou divulgação de tortura”. O MP exigiu também que os organizadores do bloco parassem de divulgar o evento e estabeleceu uma multa de R$ 50 mil por dia a ser recolhida ao Fundo Especial de Despesa de Reparação de Interesses Difusos Lesados em caso de descumprimento da decisão, além da instauração de inquérito policial pela Polícia Militar.

Douglas Garcia, vice-presidente do Direita São Paulo, atacou abertamente o MPSP na sua página pessoal. “A Casa Grande surta quando a senzala quer comemorar o carnaval no Porão do DOPS. (...) Consegui fazer os promotores agirem contra a própria agenda vitimista”, escreveu o jovem no Facebook. “Independente do que acontecer daqui pra frente: eu venci, nós vencemos, o Brasil real e o Direita São Paulo venceram.”

No dia 2 de fevereiro, o grupo conservador contabilizou uma vitória. A juíza Daniela Pazzeto Meneghine Conceição, da 39ª Vara Cível negou o pedido liminar do Ministério Público alegando que não encontrou indícios de enaltecimento de crimes contra a humanidade. No dia seguinte após a decisão, Garcia voltou às redes sociais para denunciar a agressão de Jonas Serejo, um jovem de 25 anos que disse ser atacado por um grupo de pessoas.

Segundo os vários vídeos e postagens de Douglas, Jonas foi atacado próximo ao Metrô Ana Rosa quando estava a caminho de uma palestra. O jovem estava com a camiseta do Direita São Paulo e foi atacado com chutes, socos e spray de pimenta sem a chance de se defender. “Tinha cerca de cinco comunistas que partiram pra cima dele”, diz o vice-presidente do grupo.

A agressão de Serejo, segundo o grupo de conservadores, foi atribuída à página Periferia Antifascista. “[ A página] confessou que tinha sido eles, facilitaram nosso trabalho”, acusa Douglas. Nós entramos em contato com os antifas, porém não obtivemos resposta. Em uma entrevista ao UOL, os acusados negam ter participado da agressão.

A Secretaria de Segurança Pública confirmou as informações de Douglas. Dois boletins de ocorrência foram registrados no 27º DP, um de lesão corporal contra Serejo e outra e ameaça e injúria nas redes sociais registrado pelo próprio Douglas na mesma delegacia. No boletim, no entanto, foram registrados três agressores e não cinco.

Após o acontecimento, Douglas afirma que o bloco ainda acontecerá neste sábado, porém em um lugar fechado e sem divulgar o endereço nas redes sociais. “A ideia era o bloco ser anual e a gente também queria sair na rua, mas como você percebeu aqui não é um país democrático. Como vão famílias, não quero ser responsável por uma carnificina”, justifica.

Na tarde de quinta-feira (8), o Tribunal de Justiça de São Pauloconcedeu uma liminar proibindo a divulgação nas redes sociais e a realização do bloco em espaços públicos, sob pena de 50 mil reais de multa em caso de descumprimento. O desembargador relator José Rubens Queiroz Gomes, da 7ª Câmara de Direito Privado considerou que o evento efetua a "apologia ao crime de tortura" e também deixou claro que não se trata de uma censura prévia à livre manifestação do pensamento. O desembargador também afirmou que o grupo Direita São paulo não fez a inscrição do mesmo perante a municipalidade de São Paulo.

Como apurado pela VICE, os organizadores já tinham decidido fazer o bloco em um local fechado por medo de represálias.

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