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A mulher por trás do Dia Internacional da Mulher era uma refugiada socialista

Theresa Malkiel veio para Nova York quando adolescente fugindo de violência antissemita na Rússia. Dezoito anos depois, ela fundou o Dia da Mulher, o precursor do DIM.

por Mary McGill; Traduzido por Marina Schnoor
08 Março 2018, 12:00pm

(Ilustração por Calum Heath.)

Matéria originalmente publicada pelo Broadly.

O Dia Internacional da Mulher é comemorado em mais de 100 países, destacando as conquistas das mulheres e a luta constante por igualdade. O que às vezes passa batido é a origem radical da data, incluindo as ativistas incendiárias que a instigaram. Uma delas ascendeu das fábricas sujas da Nova York do começo do século 20 para se tornar aquela que mudou o jogo: Theresa Malkiel.

Apesar das origens exatas do Dia Internacional da Mulher não serem inteiramente claras, Malkiel leva o crédito por fundar seu predecessor, o Dia da Mulher. Mas a questão é que o Dia da Mulher está longe de ser a única conquista dela. Theresa dedicou sua vida a melhorar as condições de mulheres da classe trabalhadora e mulheres imigrantes, focando nas questões críticas do direito ao voto, naturalização e acesso à educação. Infelizmente, como muitas de suas contemporâneas, a vida de Malkiel é, como a historiadora Sally M. Miller escreve, “não muito conhecida e os registros sobre o trabalho dela são escassos”.

O que sabemos sobre Malkiel mostra que ela era uma mulher sagaz com um senso profundo de justiça. Ela chegou a Nova York aos 17 anos, em 1891, com sua família depois de fugir do antissemitismo na Rússia. Como muitas jovens imigrantes, ela foi obrigada a se sustentar, encontrando trabalho numa fábrica de casacos na indústria de confecção notoriamente exploradora. As condições eram péssimas: fábricas perigosamente superlotadas e 65 horas de trabalho por semana eram comuns; as trabalhadoras tinham que fornecer material de costura do próprio bolso e geralmente ficavam trancadas para evitar que fizessem pausas.

Convencida de que o único jeito de mudar essas injustiças era com as mulheres se unindo, Malkiel se tornou uma organizadora. Para ela, solidariedade não era suficiente; isso tinha que ser reforçado por ação estratégica. Como Miller observa: “A experiência a tinha ensinado que a América para uma mulher imigrante solteira não era como os primeiros sonhos sugeriam; a vida em si a radicalizou”.

Malkiel usou suas habilidades consideráveis como escritora para contar a luta das trabalhadoras da indústria de confecção. “Ela escreveu para o jornal diário do Partido Socialista em Nova York na época do levante das costureiras de camisa de 1909”, me disse a professora de história da Dartmouth College Annelise Orleck. “Isso envolveu entre 20 e 40 mil trabalhadoras da indústria, fazendo dessa a maioria greve de mulheres daquela época. Theresa escreveu sobre a greve e ficou interessada em usar essas greves, que envolviam muitas mulheres nas ruas, para começar a chamar a atenção do público para as condições que as trabalhadoras experimentavam.”

Publicado em 1910, o romance de Malkiel, The Diary of a Shirtwaist Striker, capturou a coragem das grevistas. A dedicatória do livro diz: “Para as heroínas anônimas da Greve das Costureiras de Camisas eu dedico este diário”. Depois do incêndio da fábrica Triangle Shirtwaist, onde 146 trabalhadores morreram, o romance de Malkiel e a atenção que ele recebeu ajudaram a instigar reformas nas leis trabalhistas.

Uma foto de janeiro de 1910 de um grupo de mulheres que participou da Greve das Costureiras de Camisas de 1909. Foto cortesia da Biblioteca do Congresso Americano.

“Sim, as condições eram muito difíceis, e quero usar essa oportunidade para dizer que continuam difíceis”, diz Orleck, quando pergunto sobre o que trabalhadoras como Malkiel passavam. “Várias questões erodiram as vitórias conquistadas pelo movimento trabalhista do começo do século 20 – horas máximas, pagamentos de hora extra, finais de semana. Coisas que eram padrão não são mais – não só nos EUA, mas no mundo inteiro. A indústria de confecção triplicou nos últimos 18 anos. Entre 2000 e 2015 fomos de 20 milhões de trabalhadores nessa indústria para algo entre 65 e 70 milhões no mundo. A maioria mulheres, e elas ainda passam por situações muitos similares às que Theresa Malkiel descreveu em 1909.”

Malkiel se juntou ao Partido Socialista da América e acabou eleita para seu Comitê Nacional das Mulheres. Foi durante seu tempo no comitê que Malkiel estabeleceu o Dia da Mulher, que foi realizado em Nova York em fevereiro de 1909. Naquele dia, uma multidão de 2 mil pessoas se reuniu na frente do Murray Hill Lyceum, na 34th Street, para ouvir mulheres feministas e socialistas falando sobre a importância da igualdade e a urgência do voto feminino.

“Certamente eram”, responde a Dra. Deborah Stienstra quando pergunto se Malkiel e suas contemporâneas eram radicais. Stienstra escreveu muito sobre movimentos feministas internacionais. Para contextualizar as lutas encaradas por mulheres como Theresa, ela se refere a uma famosa música do movimento trabalhista, “Pão e Rosas”.

“Mesmo se nunca ouviu a canção antes”, diz Stienstra, “você vai saber que é sobre o acesso de mulheres a alimento para suas famílias, poder trabalhar, celebrar e reconhecer que essas eram mulheres trabalhadoras – não mulheres burguesas; eram mulheres que realmente precisavam ser parte da economia para que suas famílias sobrevivessem.”

Apesar de Malkiel eventualmente ter se casado com um empresário, escapando assim da vida nas fábricas, seu compromisso com a justiça social nunca diminuiu. A perspectiva dela é melhor ilustrada por sua prosa. Muito antes de Hillary Clinton tornar famoso o refrão “direitos das mulheres são direitos humanos”, Malkiel fez a ligação num ensaio de 1909.

“A questão das mulheres”, ela escreveu, “é nada mais nada menos que uma questão de direitos humanos. A emancipação da mulher significa na verdade a emancipação do ser humano vivendo dentro dela”.

Pergunto a Stienstra o que as mulheres de hoje podem aprender com Malkiel e as rebeldes de sua era. “Acho que a lição mais importante é trabalhar juntas para conseguir mudanças”, ela diz. “Somos mais fortes juntas. Uma única voz não é suficiente. Precisamos nos unir e ser consistentes com o tempo, resistir e lutar contra a opressão, lutar por outros que não têm o mesmo acesso a esse poder coletivo.”

Um sentimento encarnado pela própria Theresa Malkiel, simbolizado até hoje na comemoração global da feminilidade que ela ajudou a criar.

@missmarymcgill

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