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ISIS

Como quatro garotos de Londres se tornaram os 'Beatles' do ISIS

A história dos quatro britânicos infames por torturar e decapitar prisioneiros na Síria.

por Adam Forrest; Traduzido por Marina Schnoor
22 Fevereiro 2018, 12:00pm

Da esquerda para direita: Aine Davis, Alexanda Kotey, El Shafee Elsheikh e Mohammed Emwazi. Ilustração: Dan Evans.

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

Eles eram britânicos, todos os quatro. Era inegável. Eles escondiam os rostos e falavam sobre seu ódio pelo Ocidente, mas o sotaque inconfundível significava que os prisioneiros de Raqqa sabiam uma coisa sobre seus carcereiros do ISIS. Eles eram britânicos, então os prisioneiros os chamavam de “os Beatles”.

Os reféns podiam não saber, mas seus carcereiros tinham muito mais em comum do que o jeito como falavam. Os quatro cresceram na mesma área no oeste de Londres, andavam pelas mesmas ruas dentro e fora de Ladbroke Grove, misturando visitas à mesquita com futebol e videogames.

Os quatro se encantariam com ideias extremistas com vinte e poucos anos. Não encontrando um papel satisfatório na vida adulta em Londres ou como reconciliar suas identidades muçulmanas e britânicas, cada um deles partiu para uma batalha num país distante – uma batalha que acabaria com todas as chances de construir uma vida normal voltando para casa. Na Síria, eles se voltariam para brutalidade e caos. O governo americano disse que o grupo foi responsável pelos espancamentos, execuções falsas e decapitações de mais de 27 pessoas.

Mas como quatro garotos britânicos acabam envolvidos com uma violência tão desprezível que sua nação acabaria os rejeitando? E o que suas histórias nos dizem sobre os passos fatais que as pessoas tomam no caminho para a radicalização?

As quatro identidades da notória célula do ISIS foram finalmente divulgadas no começo do mês, quando oficiais norte-americanos revelaram que as Forças Democráticas Sírias (FDS), apoiadas pelos EUA, tinham prendido os últimos dois membros dos “Beatles” que ainda estavam foragidos: Alexanda Kotey, de 34 anos, e El Shafee Elsheikh, de 29.Aine Davis, um membro identificado anteriormente, continua numa prisão turca. O homem de 34 anos foi condenado por ser membro de uma organização terrorista e recebeu uma sentença de sete anos e meio em novembro de 2015. Mohammad Emwazi, o membro mais conhecido como “Jihaji John”, foi morto no mesmo mês, atingido por um ataque de drone aos 27 anos.

Alexanda Kotey, que não foi criado como muçulmano, parecia ser o mais devoto e zeloso com sua religião. Crescendo em Shepherd's Bush com a mãe grega-cipriota, tendo perdido o pai quando era criança, ele era torcedor do Queen's Park Rangers, e os vizinhos lembram de vê-lo jogar futebol com o irmão mais velho no jardim da casa.

Em algum ponto entre a adolescência e a faixa dos vinte anos, Kotey se converteu ao Islã. A mistura da religião recém-descoberta e uma política simplista que via os muçulmanos como vítimas de uma opressão global nas mãos dos ímpios se mostraria intoxicante. Logo, Kotey era um influenciador-chave para outros jovens muçulmanos que compartilhavam sua visão de “nós versus eles” em seu estande perto da mesquita Al-Manaar, próxima da estação Westbourne Park.

Emwazi e Davis também frequentavam a mesquita de Al-Manaar, levando a suposições preguiçosas de que foi lá que eles se radicalizaram. A grande mesquita funciona como um centro para a ampla comunidade muçulmana do oeste de Londres – 3 mil pessoas frequentam Al-Manaar toda semana; não é um lugar onde uma panelinha íntima aprenderia sobre a jihad.

A mesquita vem tentando a todo custo se distanciar das ações de indivíduos que podem ter passado por ela. “Não fazemos perfil de fiéis com base em sua etnia ou o tipo de ideias que eles podem ter na cabeça”, disse um porta-voz. “Isso algo que não poderíamos saber ou controlar.”

El Shafee Elsheikh. Foto: Facebook

Como Kotey, El Shafee Elsheikh adorava futebol e torcia para o Queen's Park Rangers. Ele também foi criado por uma mãe solteira, originalmente do Sudão, e cresceu em White City, não muito longe do estádio Loftus Road do QPR.

A mãe de Elsheikh explicou como ele mudou repentinamente em 2011, passando a escutar CDs com sermões de Hani al-Sibai, um clérigo radical egípcio que mora no oeste de Londres, e que continua nas listas de sanções da ONU, EUA e União Europeia como suspeito de apoiar a Al-Qaeda.

Ainda assim, há boas razões para acreditar que a radicalização de Elsheikh não aconteceu da noite para o dia. As decepções se acumulavam. Ele tinha casado no Canadá em 2010, mas sua esposa não conseguiu o visto para vir para o Reino Unido. Ele não conseguia ser promovido em seu emprego numa garagem local, apesar de estudar engenharia na faculdade. E seu irmão mais velho estava preso por posse de armas depois de uma briga de gangues.

“Pode parecer que a radicalização acontece rapidamente – mesmo para as famílias, mas a crise psicológica subjacente leva muito mais tempo para se desenvolver”, explica o Dr. Afzal Ashraf, especialista em terrorismo e ideologia extrema na Universidade de Nottingham. “A frustração cresce durante um longo período, e de repente encontrar um grupo oferecendo uma visão de mundo em preto e branco que faz sentido para como você está se sentindo.”

Mohammed Emwazi, A.K.A. Jihadi John.

Mohammed Emwazi também teria sido influenciado pelos discursos inflamados de Hani al-Sibai, e viria a abraçar uma forma crua do Islã político sem nenhum período prolongado de estudo religioso.

Criado por imigrantes kuwaitianos em diferentes casas em North Kensington, um pupilo da Quintin Kynaston Academy, ele não era conhecido por ser particularmente devoto quando era adolescente. Torcedor do Manchester United que adorava rap e usava bonés de basquete, ele disse a amigos de escola que odiava Tony Blair e George Bush. Professores o ajudaram com questões de controle de raiva.

Emwazi fez amizade com Bilal al-Berjawi e Mohammed Sakr, dois caras ligeiramente mais velhos de Nort Kensington que foram lutar com o grupo islâmico al-Shabaab na Somália. Eles seriam mortos num ataque de drone lá em 2012.

“Emwazi saiu de uma rede maior de jovens islâmicos da área do oeste de Londres”, explica Raffaello Pantucci, autor de We Love Death as You Love Life: Britain's Suburban Terrorists. “Al-Berjwai e Sakr eram muito proeminentes entre as pessoas indo e voltando da Somália, e Emwazi frequentava esse círculo. Havia uma sobreposição de pequenos gangsteres e pessoas que se voltaram para a jihad.”

Em 2009, com apenas 21 anos, Emwazi viajou para a Tanzânia, dizendo que queria fazer um safári. Agentes do MI5 o interrogaram lá, o acusando de tentar entrar em contato com a Somália para lutar com o al-Shabaab. Ele passou um tempo se movendo entre o Kuwait e Londres até que oficiais de imigração o impediram de retornar ao Kuwait. No começo de 2013, ele conseguiu deixar o país, dizendo aos pais que estava indo para a Turquia para ajudar refugiados.

Aine Davis. Foto: Polícia Metropolitana de Londres.

Aine Davis cresceu em Hammersmith com a mãe e um pai ausente – mas pouco se sabe sobre sua infância. Como jovem adulto, ele juntou uma sequência de condenações por tráfico de drogas antes de ser preso em 2006 por posse de arma. Acreditasse que ele se converteu ao Islã na prisão ou logo depois que foi solto.

Se Davis era o criminoso mais experiente dos “Beatles”, ele pode – perversamente – ter ido para a Síria para continuar no caminho dos justos. Sua esposa, Amal El-Wahabi, sugeriu em seu julgamento em 2014 (ela foi condenada por tentar transferir dinheiro para Davis na Síria) que deixar Londres deveria ser algo bom para seu “corpo e alma”. Mas ele saiu do Reino Unido em 2013 para fazer algo muito mais perturbador que tráfico de drogas.

Kotey teria viajado para lá em algum ponto depois de fugir de um comboio de ajuda humanitária em Gaza em 2009. Elsheikh teria ido para a Síria em algum momento de 2012 e inicialmente se juntou a afiliados da Al-Qaeda antes de ir para o ISIS. Emwazi e Davis chegaram a Síria em 2013, o ano em que o ISIS – inicialmente estabelecido no Iraque – começou a dominar territórios importantes dentro do país.

É possível que algum deles tenha viajado com intenções não violentas, atraídos apenas pela ideia de ajudar vítimas do regime de Bashar al-Assad?

“Quem ia em 2011 e 2012, provavelmente acreditava ou começou acreditando que era o Che Guevara, fazendo o bem e salvando os oprimidos”, diz Raffaello. “Mas quando a causa se estabeleceu com um califado com o ISIS, você não pararia por nada para servir a causa, então isso obviamente se tornou uma coisa muito diferente.”

Por qualquer razão que seja, os quatro londrinos ficaram e prosperaram. Muito tem sido escrito sobre a cultura do martírio entre jihadistas, o desejo de buscar a morte, mas o Dr. Afzal Ashraf acredita que temos subestimado quão animados muitos jovens islâmicos se sentiram de estar no time que estava ganhando. “Esses caras foram atraídos por uma promessa crível de sucesso”, ele diz. “O sucesso espetacular do ISIS, quando eles estavam ganhando terreno, significou que muitas pessoas vivendo com a narrativa de perda ficaram empolgadas de ser parte de algo que estava prosperando.”

Enquanto alguns recrutas estrangeiros acabaram se desiludindo por serem usados como bucha de canhão por comandantes do ISIS principalmente no Iraque, os quatro londrino encontraram um novo papel-chave em Raqqa. Eles ficaram incumbidos de guardar os reféns ocidentais num lugar que os cativos chamavam de “A Pedreira”.

“Eles podiam não ser combatentes úteis, já que não tinham muita experiência no campo de batalha, mas seriam uma unidade natural capaz de trabalhar junta”, diz Pantucci. “Falantes de inglês, que maneira melhor de mandar a mensagem para o resto do mundo? Eles se tornaram úteis para propósitos de propaganda.”

Alexanda Kotey depois de sua captura em janeiro pelas Forças Democráticas Sírias. Foto via FDS.

E o grupo fazia mais que simplesmente manter as pessoas ali. Reféns sobreviventes descreveram o talento deles para atormentar os prisioneiros. Javier Espinosa se refere a eles como personagens “psicopatas”. O jornalista espanhol lembrou como Emwazi sussurrou em detalhes o que aconteceria se ele cortasse a garganta de Espinosa: “Primeiro a faca vai cortar suas veias. O sangue vai se misturar com a sua saliva.”

O refém holandês Daniel Reye Ottosen descreveu como os carcereiros britânicos brincavam com eles, os fazendo cantar músicas sobre Kenneth Bigley, o refém da Al-Qaeda decapitado no Iraque. “Eles não recebiam ordens para nos bater... eles faziam isso porque queriam, porque gostavam.”

Em seu livro de memórias, Ottosen descreveu “George” como aquele que dava as ordens, e também o mais imprevisível. “Ringo” filmava quando era preciso. Mas era “Jihadi John” que assumia o papel principal, se tornando infame ao redor do mundo.

Em agosto de 2014, o ISIS divulgou um vídeo mostrando uma figura vestida de preto: Emwazi decapitando o fotojornalista americano James Foley. Em setembro, ele apareceu em outro vídeo – a decapitação do jornalista americano Steven Sotloff. Mais assassinatos se seguiram: as mortes dos trabalhadores humanitários britânicos David Haines e Alan Henning, do trabalhador humanitário americano Peter Kassig e dos jornalistas japoneses Haruna Yukawa e Kenji Goto.

O governo americano diz que a célula decapitou 27 reféns no total. Acreditasse que vítimas do grupo incluíam combatentes sírios capturados no campo de batalha.

Com Emwazi morto, ainda não está claro quem dos londrinos sobreviventes eram “George”, “Ringo” e “Paul”. O jornalista francês Nicolas Henin, um refém sobrevivente, me disse que não pode esclarecer a identidade deles. Ele cita o processo legal que ainda pode se desenrolar envolvendo Kotey e Elsheikh. Apesar de o Reino Unido supostamente ter tirado a cidadania deles, oficiais americanos e britânicos ainda discutem onde eles serão mantidos e como vão encarar julgamentos. Ontem, a secretária do Interior Amber Rudd insinuou que eles podem voltar ao Reino Unido, apesar do secretário de defesa Gavin Williamson ter dito anteriormente: “Acho que eles nunca mais deveriam colocar os pés neste país. Eles deram as costas para a Inglaterra, para nossos valores e tudo que defendemos – eles são o pior do pior”.

Mesmo agora, com tudo que sabemos, é estranhamente tentador acreditar que pelo menos um dos membros do grupo tinha algum senso de decência, que nem todos os quatro eram igual e inteiramente maus. Mas há poucas evidências de decência a que se agarrar. O Departamento de Estado dos EUA disse que Kotey “provavelmente se envolveu nas execuções do grupo e métodos excepcionalmente cruéis de tortura”. Elsheikh “ganhou uma reputação por waterboarding, execuções falsas e crucificações”.

Não podemos considerar os quatro jihadistas casos isolados, exceções, mas a jornada deles para a escuridão não foi inteiramente sem sentido. Serviços de segurança acreditam que 800 cidadãos britânicos fugiram para se juntar ao ISIS. Provavelmente há lições para aprender com todas as 800 histórias.

Precisamos entender melhor por que tantos muçulmanos de segunda e terceira geração se sentiam tão incertos de seu lugar, e por que essa versão adulterada e politizada do Islã oferece tanta clareza e propósito.

No final das contas, o Reino Unido vai ter que pensar em contranarrativas mais convincentes para transformar a história dos jihadistas londrinos uma nota de rodapé na história, em vez de num sinal do que o futuro ainda reserva.

@adamtomforrest / @dan_draws

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