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Motherboard

“Nenhum de nós sabe como ‘Mr. Robot’ vai terminar”

Em entrevista ao Motherboard, Carly Chaikin, a atriz que interpreta Darlene na série, conta o que podemos esperar na terceira temporada.

por Miles Surrey
16 Outubro 2017, 9:00am

Crédito: USA/ Divulgação

Mr. Robot é uma série que valoriza seus espectadores mais detalhistas — basta perguntar para os fãs que participaram de uma complexa caça ao tesouro digital para assistir ao primeiro teaser da nova temporada. A narrativa críptica da série americana — narrada em grande parte pelo protagonista Elliot Alderson — também confunde os atores.

Carly Chaikin, que interpreta a ativista hacker Darlene, me disse que um dos maiores desafios do elenco é não saber o que o criador de Mr. Robot, Sam Esmail, planeja para o fim da série. Os atores recebem um resumo do destino de seus personagens em cada temporada, mas nenhum deles sabe como a história vai terminar. É aí que entram os fãs mais investidos da série.

Conversei com Chaikin sobre a terceira temporada da série (que estreou na última quarta-feira nos EUA e ontem no Brasil, no canal Space), os fãs de Mr. Robot, Donald Trump e o destino de sua personagem. Nossa conversa foi editada a fim de garantir mais clareza ao material final. Essa entrevista contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Mr. Robot.

MOTHERBOARD: Darlene começa a terceira temporada em uma posição difícil: ela acaba de descobrir que o FBI vinha seguindo ela e a fsociety . Como isso afeta sua personagem nessa temporada?
Carly Chaikin: A Darlene passou por muita coisa nessa última temporada: o amor da vida dela levou um tiro e morreu na sua frente, o irmão dela sumiu e o FBI a capturou e disse que eles já a seguiam há tempos. Nem preciso dizer que isso tudo deixou ela muito mal.

Por isso ela começa a terceira temporada muito confusa, tipo, que merda eu faço agora? Como saio dessa?

Mr. Robot
não corre o risco de ser confundida com uma série leve mesmo quando ela parodia sitcoms — mas o arco da Darlene nessa segunda temporada foi especialmente pesado. Ela matou alguém, e a única pessoa em quem ela confiava, Cisco, foi assassinado pela Dark Army. Em sua opinião, qual foi a cena mais desafiadora da última temporada?
O que dificultou as filmagens foi o fato de que a gente estava filmando várias cenas diferentes de uma só vez. Nós filmamos, em sequência, três cenas diferentes que se passavam na cozinha da casa inteligente. Na primeira cena eu contava para os outros que havia matado Susan [advogada da E-Corp na série]. Depois disso, a gente gravou as cenas anteriores, nas quais a gente tentava elaborar um plano.

Eu não sabia que ia me sentir tão abalada depois de fazer a cena em que eu falava do assassinato para eles, então tive dificuldade em mudar de chave e voltar para esse momento frenético, esse momento de "o que a gente vai fazer?". Esse salto entre as duas cenas foi a coisa mais desafiadora da temporada.
Mas também temos a cena em que eu mato a Susan, que é uma das melhores coisas que já gravei.

O Esmail (Sam Esmail, roteirista da série) conversou com você antes dessa cena para explicar exatamente o que ele queria ou ele te deixou livre para fazer a cena do que jeito que você achava melhor?

Eu fiz a cena do meu jeito. Esse é um assunto interessante; eu estava falando outro dia que, embora a gente lide com temas muitos pesados, não temos tempo para ensaiar. É diferente do que acontece em filmes, que sempre têm um período de ensaios antes das filmagens durante o qual as pessoas conversam sobre todas as cenas. Nosso tempo é limitado.

Então em cenas como essa nós fazemos todo o trabalho sozinhos — a gente chega, marca a cena e começamos a gravar. Eu havia trabalhado muito nessa cena, mas ele [Sam] olhou para mim e disse "eu não quero saber o que você pensou, só quero ver o que você vai fazer".

Fizemos a cena uma primeira vez e ele amou. Depois disso só fizemos alguns ajustes. Mas fora esses detalhes, acho que ele gosta de ver o que a gente traz para o set.

Me parece que a segunda temporada colocou as personagens femininas à frente das histórias mais interessantes da série — em especial sua personagem, Angele e Dom, a agente do FBI. Vimos até um
episódio sem nenhuma aparição do Elliot e do Mr. Robot. Para você, qual é a diferença entre o tratamento dado às personagens femininas nessa série e ao que você já viveu em outros projetos?
Acho que não existe comparação com outros projetos dos quais participei. Essas três mulheres não apenas ocupam diferentes espaços e representam diferentes meios — o meio tecnológico, o meio corporativo, o FBI — como também são mulheres fortes, poderosas e independentes que não precisam de um homem para guiá-las. E muito menos para protegê-las.

É ótimo interpretar uma personagem que não é apenas uma extensão do personagem masculino. Minha personagem não é a namorada do protagonista, mas sim a irmã dele, o que não significa que ela não seja importante por si só. Nós dois temos nossas histórias, motivações e objetivos. Isso permite com que cada personagem tenha sua própria importância.

Mr. Robot
é uma série que valoriza o olhar atento de seus fãs. O Reddit da série fica extremamente ativo durante a transmissão dos episódios. Quando você lê os roteiros dos episódios, você acha que consegue entender o que Sam está querendo fazer?
Bom, primeiro: nossos fãs são gênios, e eu aprendo muito com eles. Leio alguns tweets e fico "eita!". A inteligência dos fãs me impressiona muito. Um exemplo é o teaser da nova temporada, com toda aquela coisa do código morse.

É, isso foi uma loucura.
Não consigo entender como alguém olhou para a foto e pensou, "ah, tem algo escrito em código morse na gravata". Eu nem teria prestado atenção na gravata. Fiquei impressionada. Os fãs nos incentivam a manter a qualidade da série, a manter a história sempre interessante e empolgante.

Eu pensei que ninguém ia adivinhar o mistério da segunda temporada e no primeiro episódio todo mundo já sabia que o Elliot estava na cadeia. Felizmente, a gente já sabia — me contaram antes de me entregar o roteiro do episódio. Mas existem coisas que nenhum de nós sabe, como o final da série, por exemplo.

Vejo algumas falas no roteiro e penso, "eu sei que isso aqui tem um significado maior, que não é só um diálogo qualquer". Mas agora eu já desisti de perguntar porque sei que o Sam não vai me dizer nada.

Se o Sam pudesse te responder qualquer pergunta, qual pergunta você faria?

Não quero dizer qual seria minha pergunta. Não quero que os fãs pensem sobre ela.

Justo. Você tem o costume de acompanhar as teorias sobre Mr. Robot publicadas pelos fãs em sites como o Reddit?
Eu não entendo muito bem como o Reddit funciona. Tentei entrar nele e fiquei completamente perdida, mas eu gosto de ler teorias. Algumas são tão bizarras que nem consigo imaginar como alguém pensou nelas. Outras fazem muito sentido.

É muito interessante ver o que os fãs entenderam e o que eles perderam.

Qual foi a teoria mais louca que você já viu?

Lembro que na primeira temporada alguém falou que o Elliot era filho do Tyrell. [risos] O Elliot seria filho do Tyrell e da Joanna, ou algo do tipo — eu não lembro direito, mas a ideia é que ele era filho de alguém importante.

É claro que não sei tudo sobre a série, mas essa teoria me deixou bem confusa.

Sim, é uma teoria bem louca. Lembro de ler uma teoria que dizia que todos os personagens, incluindo a sua, só existem na cabeça do Elliot.
Sim, conheço essa teoria. E se isso fosse verdade eu ficaria tipo "que coisa estúpida!"
Acho que seria uma saída fácil demais — o Elliot acorda e nada disso aconteceu. Mas talvez isso aconteça e eu tenha acabado de criticar minha própria série.

Um dos temas abordados por
Mr. Robot é a paranóia particular à era digital. A série foi uma das primeiras a fazer referência à candidatura de Donald Trump, o que, em retrospecto, ganha ares de presságio. Você planejam falar sobre o mandato Trump na terceira temporada?
Essa é uma pergunta interessante, porque a série atualmente se passa em 2015. Na primeira temporada nós estávamos em sincronia com o tempo presente, mas agora o resto da série se passará no passado. Isso quer dizer que a série acontece num mundo pré-Trump.

É claro que Mr. Robot não seria a série que tanto amamos se ela não fizesse referência ao que está acontecendo, mas é divertido pensar que a série sempre se passará em um mundo pré-Trump. Também me impressiona o fato de que, apesar de estarmos no passado, a série continua extremamente atual.

O que você pode nos dizer sobre a nova temporada? O que podemos esperar da Darlene nesse ano?
Eu não poderia estar mais animada para a estreia da terceira temporada. Acho que a temporada passada foi mais lenta, mais focada nos personagens. A gente entrou na cabeça de todos os personagens e começou a entender todos eles bem melhor.

Na terceira temporada, nós retornamos ao ritmo mais acelerado e empolgante da primeira temporada — mas agora saindo de uma temporada que nos mostrou mais sobre o psicológico de todos os personagens. Isso cria uma experiência mais completa. Essa temporada vai ser emocionante, assustadora e divertida.

No caso da Darlene, veremos como ela irá sair de uma situação inescapável. Essa jornada — que começa com ela sendo pega pelo FBI e tendo suas atividades expostas para o mundo — será muito divertida.

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