Quem quer ser presidente

Geraldo Alckmin: o picolé de chuchu que tenta ganhar sabor para acalmar o País

Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de Geraldo Alckmin, candidato do PSDB.

por Fernando Cesarotti; ilustrado por Cassio Tisseo
03 Setembro 2018, 10:00am

Ilustração: Cassio Tisseo

Era uma vez um candidato sem sal, mas tão sem sal, que parecia um chuchu. Pior, um picolé de chuchu: aguado, insosso, sem gosto. A falta de sabor, porém, não se refletiu em falta de voto: o tal candidato, chamado Geraldo Alckmin, ganhou três vezes a eleição para ser governador de São Paulo e acumulou quase 14 anos à frente do Estado mais rico do País. Agora, disputa pela segunda vez a Presidência pregando, a seu estilo, calma e tranquilidade.

Político discreto, daqueles famosos pelas boas negociações de bastidores, Alckmin galgou espaços e superou desafetos até chegar aos postos de comando justamente por ser um “come-quieto”, um clichê geralmente associado aos mineiros, mas que explica muito bem esse paulista de Pindamonhangaba — sim, ele e Ciro Gomes são conterrâneos.

Talvez pela ascendência: Geraldo é sobrinho-neto de José Maria Alckmin, folclórico político mineiro que foi ministro da Fazenda no governo de Juscelino Kubitschek e chegou a vice-presidente de Castello Branco, o primeiro dos generais a assumir o poder após o golpe militar de 1964. Outro parente famoso foi o tio, José Geraldo Rodrigues Alckmin, apontado ministro do Supremo Tribunal Federal. O pai, Geraldo José, sempre foi partidário da UDN, mas não seguiu carreira na política. Veterinário, era considerado o homem mais inteligente de Pindamonhangaba naquele começo dos anos 1970 quando o filho resolveu seguir a carreira de médico e se matriculou na faculdade na vizinha Taubaté.

O jovem Geraldo dividia o tempo entre os estudos e as aulas que dava num curso de madureza, espécie de supletivo da época, voltado para adultos que queriam se alfabetizar. Com fama de atencioso, entrou no foco dos políticos de então, e foi convidado pelo MDB, o partido de oposição aos militares, para sair candidato a vereador. Segundo um amigo contou à Folha de S.Paulo em 2000, não soube dizer não ao convite. Tinha apenas 19 anos, mas um sobrenome de status e a fama de ser gente boa. Não deu outra: eleito com 1.447 votos, mais de 10% do total de eleitores na época.

O bom trabalho conciliando a política e os estudos levou Alckmin à prefeitura em 1976. Eleito, antes mesmo de se formar médico, exerceu o mandato por seis anos e foi considerado um bom prefeito, responsável por ajudar a cidade a se modernizar, com a chegada de indústrias e a pavimentação de ruas. Deixou o mandato alguns meses antes e se elegeu com tranquilidade deputado estadual em 1982, quando o partido já se chamava PMDB e venceu a eleição para governador em São Paulo, com Franco Montoro.


Acompanhe a nossa cobertura das Eleições 2018:


Alckmin teve uma passagem discreta pela Assembleia Legislativa, ao menos aos olhos do público; dentro do partido, ganhou status e a chance de se candidatar a deputado federal na eleição seguinte, em 1986. Era uma eleição importante: os vencedores seriam os responsáveis por formular a nova Constituição do País. Alckmin se elegeu e foi importante membro da Constituinte, apresentando projetos que, se não entraram na Carta Magna, se desdobraram em leis próprias: o Código de Defesa do Consumidor e a lei de doação de órgãos. Além disso, fez parte do grupo que, descontente com as manobras do presidente José Sarney para garantir cinco anos de mandato, deixou o PMDB para fundar o PSDB, ao lado de nomes como Montoro, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso.

Em 1991, depois de se reeleger deputado, assumiu a presidência do Diretório Estadual tucano, de onde alçou seu voo mais alto: com os contatos pelo interior do Estado, garantiu a vaga de vice-governador de Mário Covas na chapa nas eleições de 1994. Impulsionado pelo sucesso do Plano Real, que levou FHC à Presidência, Covas venceu uma batalha renhida contra Francisco Rossi e assumiu o governo com a missão de sanear as contas públicas. A Alckmin, coube o papel de comandar a privatização de uma série de empresas estatais, como as distribuidores de energia elétrica Eletropaulo, Cesp e CPFL e o banco Banespa, vendido ao grupo Santander. Covas e Alckmin se reelegeram em 1998, e dois anos depois o vice-governador perderia pela primeira vez uma eleição, ficando em terceiro na campanha para prefeito de São Paulo. Foi quando ganhou a alcunha de “picolé de chuchu”, “vice do Covascilante” — os termos já são encontrados numa coluna de José Simão na Folha em 18 de março de 2000. Anos atrás, disse ao Pânico, na rádio Jovem Pan, que o apelido não o incomoda.

Alckmin nem teve tempo de lamentar a derrota: assumiu o governo logo depois, em janeiro de 2001, quando Covas se afastou por causa das implicações de um câncer na bexiga — que provocaria sua morte em março, quando Geraldo se tornou de fato o governador. Em 2002, candidato à reeleição, segurou-se firme na “onda vermelha” que levou Lula à Presidência e ganhou mais quatro anos de mandato. Renunciou em abril de 2006 para se candidatar a presidente, mas não conseguiu superar Lula e ficou marcado por um feito ainda inédito nas eleições presidenciais brasileiras: ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Foi nessa época que Alckmin sofreu com aquele que até hoje é seu calcanhar de Aquiles: a segurança pública e a ascensão do PCC (Primeiro Comando da Capital), a facção que domina os presídios de São Paulo e, hoje, em boa parte do país. O tucano é acusado de ter sido leniente com os líderes da quadrilha, numa espécie de acordo tácito que garante, em troca, menores índices de criminalidade. Geraldo, obviamente, nega qualquer acerto com os criminosos. Logo após sua saída do governo, em maio de 2006, o PCC realizou uma série de ataques a policiais, que ficaram conhecidos como os Crimes de Maio e resultaram oficialmente em mais de 500 mortes. Na campanha presidencial, Alckmin adotou uma postura agressiva contra Lula, que na época tinha de lidar com as acusações do Mensalão, e, ao mesmo tempo, confusa sobre ideologia econômica: depois de falar em reduzir impostos, inibir a corrupção e melhorar a gestão dos serviços públicos, foi acusado de ser “privatista” e, para negar, apareceu com uma jaqueta com logos de estatais como o Banco do Brasil, a Petrobrás e os Correios. Acabou recebendo quase 2,5 milhões a menos de votos na segunda rodada: foram 37.543.178, pouco menos de 40% dos votos válidos.

Em baixa, Alckmin saiu candidato pelo PSDB a prefeito de São Paulo em 2008, mas não teve apoio nem mesmo em boa parte do próprio partido, que preferiu apoiar a reeleição de Gilberto Kassab, que havia sido eleito vice de José Serra quatro anos antes e assumido a prefeitura em 2006 para que Serra se candidatasse (com sucesso) a governador. Sua vida política parecia acabada, mas Alckmin aceitou o cargo de secretário de Estado do Desenvolvimento, que lhe garantiu retomar a rede de contatos pelo interior. Não deu outra: diante da falta de renovação nos quadros da legenda, voltou a concorrer ao governo do Estado nas eleições de 2010, vencendo no primeiro turno, com 50,63% dos votos válidos. Repetiu o feito quatro anos mais tarde, desta vez com 57,31% dos votos. No Palácio dos Bandeirantes, ficou conhecido por governar com mão de ferro, de forma centralizadora, e conseguiu passar ileso por uma série de acusações de corrupção que envolveram seu governo, como subornos para obras do metrô e desvio de verba da merenda. Com forte apoio na Assembleia, foi pouco incomodado por CPIs e pôde dedicar boa parte do mandato a costurar nacionalmente uma nova candidatura à Presidência.

Costurou bem: não só garantiu de novo a vaga como presidenciável como conseguiu o apoio do Centrão, o grupo de partidos de centro-direita que bancou o impeachment de Dilma Rousseff, sustentou a permanência de Michel Temer e o ajudou a aprovar medidas impopulares como o teto de gastos públicos e a reforma trabalhista. Daquelas misteriosas coincidências da vida, “Centrão” era o apelido dado ao grupo de parlamentares que, na Constituinte, se posicionou a favor de Sarney e provocou a dissidência no PMDB que gerou o PSDB — e Geraldo foi um dos pioneiros dessa turma.

O apoio lhe rende uma boa parcela do horário eleitoral, que usará para tentar conquistar votos hoje destinados a Jair Bolsonaro (PSL), para quem perdeu boa parte de seu possível eleitorado — no último Datafolha, apareceu apenas com 6% das intenções de voto. Por isso, embora apresente um perfil conservador — é católico e já foi ligado à Opus Dei, mas negou —, tenta se posicionar como um candidato mais tranquilo, preocupado com a segurança pública, que prega o fim da corrupção e o enxugamento do Estado, mas não resolve as coisas a bala, como mostrou em seu primeiro filme de campanha. Em suma, um sujeito calmo, que até resolve os problemas — mas insosso como um picolé de chuchu.

Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho
Formação: Médico anestesista, formato pela Universidade de Taubaté (SP)
Idade: 65
Patrimônio: R$ 1.379.131,70
Trajetória (partidos): MDB-PMDB-PSDB
Vice: Ana Amélia Lemos (PP)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente . Novos perfis toda segunda, quarta e sexta.

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