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Entendendo a onda de violência que ronda pelo Ceará

Disputas pela posição estratégica do Estado no comércio de drogas e ineficiência do governo fizeram mais de 2,7 mil assassinatos no Estado somente em 2018.

por Ives Aguiar; ilustrado por Felipe Pessanha
30 Agosto 2018, 10:00am

Dezesseis ônibus queimados, 16 prédios públicos e privados atacados a tiros e 150 motocicletas queimadas no estacionamento do DETRAN: saldo de cinco dias de ataques na capital cearense no final do mês de julho. Os ataques foram considerados uma reação à morte de integrantes de uma facção criminosa durante uma troca de tiros com a polícia. Oito envolvidos foram presos.

Os incidentes dão continuidade à narrativa crescente do índice de violência no Ceará. De acordo com dados da própria Secretaria de Segurança Pública do estado, houve 5.134 homicídios no ano passado, um aumento de 50,7% em relação a 2016. A disputa pelo controle do tráfico de drogas no estado é apontada como uma das causas para tanta violência.

No ano passado, Fortaleza enfrentou uma onda de ataques a cerca de vinte ônibus, reivindicada pela facção Guardiões do Estado (GDE), que exigia a transferência de membros do grupo para uma unidade prisional onde eram maioria. Os ataques só foram encerrados por causa do clamor da população.

O Ceará tem sido considerado um ponto estratégico para a venda de drogas. O próprio Ministro da Justiça, Torquato Jardim, declarou que o estado é geograficamente favorável para o crime, afirmando que quem o domina tem o controle do Nordeste nas mãos.

Depois que o policiamento aumentou na tríplice fronteira do Paraná, especialmente no combate à drogas vindas do Paraguai, as quadrilhas começaram a explorar uma nova rota, pelo rio Solimões, conseguindo trazer produtos diretamente da Bolívia. Os entorpecentes vão para outros estados do Brasil e saem para a Europa através do Ceará, que se tornou um dos principais distribuidores de drogas do país.

O Ceará é o estado brasileiro mais próximo da Europa, com voos diretos saindo de Fortaleza, o que chama atenção de grandes facções como o PCC, que tem ganhado cada vez mais território fora do estado de São Paulo. O PCC é aliado ao Guardiões do Estado, criado em 2016. Do outro lado, o Comando Vermelho buscou apoio de um grupo que possui forte influência na rota Solimões, a Família do Norte (FDN).

O objetivo das facções é aumentar o número de filiados e o controle da distribuição de entorpecentes. O PCC tem buscado aumentar suas operações no estado, afrouxando suas leis de ‘batismo’ recrutar menores de idade.

A rivalidade entre os grupos deu origem à maior chacina registrada na história do Ceará, em janeiro, com a morte de 14 pessoas na casa de shows “Forró do Gago”, em Fortaleza. O ataque foi comandado pelo GDE de dentro da prisão. O local era conhecido por ser frequentado por membros do Comando Vermelho.

Três dias depois da chacina em Fortaleza, uma rebelião na Cadeia Pública de Itapajé deixou 10 mortos. O confronto foi entre membros do PCC, aliado do GDE, e do Comando Vermelho.

Dois meses depois, a capital cearense foi palco de outra chacina, no bairro Benfica, onde sete pessoas foram assassinadas. Duas delas vendiam drogas na praça onde o ataque começou ataque foi motivado pelo controle do tráfico na região. Membros do Comando Vermelho estavam entre os mortos e o único suspeito preso até o momento pertence ao GDE.

Entre as duas chacinas, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, estiveram no Ceará para lançar o Centro Regional de Inteligência Integrado da Polícia Federal no Nordeste, o primeiro do país.

Parte do lucro obtido no tráfico é usado para ajudar as operações comandadas de dentro das prisões. O bloqueio do sinal para celulares nos presídios mostra-se uma questão estratégica no combate ao crime, e também é motivo de reações violentas de grupos criminosos no Ceará.

A promessa do bloqueio no estado nasceu em 2002, mas sem sucesso. Em março de 2016, foi aprovada uma lei estadual que tentava aplicar a instalação dos bloqueadores, obrigando as operadoras de telefonia celular a criarem uma 'sombra' para impedir que o sinal chegasse aos estabelecimentos prisionais.

Pouco mais de um mês depois da aprovação da lei, a página ‘Polícia Civil do Ceará em Ação’ recebeu uma mensagem endereçada a deputados com ameaças.

“Não queremos saber o que o Sr. Governador irá fazer pra vetar essa lei que o senhor e seus amigos fizeram. Mas o senhor dê um jeito de vetar o mais rápido possível, pois caso contrário iremos tomar atitudes drásticas, o crime está muito bem preparado para uma guerra contra o seu governo”, dizia a carta mandada para página por um perfil falso.

Ainda no mesmo dia, um carro com 48 bananas de dinamite e 13,3 quilos de explosivos foi encontrado estacionado próximo a Assembleia Legislativa do Ceará. Foram necessárias cinco horas para desativar as bombas e ninguém se feriu.

Em agosto de 2016, o Supremo Tribunal Federal derrubou a lei, apoiando a ação contrária criada pela Associação Nacional das Operadoras Celulares. Leis similares em outros estados também perderam validade.

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT-CE), continuou a apoiar publicamente o bloqueio de sinal, até que, em fevereiro deste ano, o Senado aprovou a lei do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), que obriga a instalação de bloqueadores em presídios e penitenciárias no Brasil.

Dias depois da aprovação, a parede da casa de Eunício foi pichada com os dizeres “Presídio Mudo, Eunício Morto”. Já no mês de março, senador e o governador Camilo Santana receberam outra ameaça através de uma carta deixada por bandidos que tentaram invadir um prédio dos Correios em Fortaleza.

“Vamos começar a mexer com a política, onde vocês não terão mais o direito de colocar nenhum cartaz, showmício e campanhas onde estiver o tráfico de drogas, influenciaremos nas eleições todas as vezes agora. Só candidatos que olham pelo povo entrarão nesses locais para fazer campanha. Os outros podem ir com a polícia colocar seus cartazes. Ao saírem, iremos tirar. Se mandarem distribuir panfletos, iremos atirar”

No seguimento da carta com a ameaça, a sede da Secretaria da Justiça e Cidadania foi alvejada. A polícia estava à espera de um possível ataque e durante o confronto três criminosos morreram.



O primeiro semestre de 2018 registrou um aumento de 3,5% no número de assassinatos em relação ao mesmo período de 2017. Mas em julho deste ano, o estado apresentou uma redução de homicídios pelo quarto mês seguido: foram 378 registros, uma queda de 20,3% em relação a julho do ano passado.

Questionada sobre a onda de violência no estado, a SSPDS afirmou à VICE Brasil que “não tem medido esforços para combater as mortes violentas e vem reforçando ações de enfrentamento à criminalidade em todo o território cearense.” De acordo com a secretaria a redução de homicídios nos últimos meses deve-se entre outras medidas a expansão das 16 bases de policiamento 24 horas em pontos estratégicos em periferias na capital cearense e a contratações de novos profissionais, aquisição de equipamentos e viaturas.

Em resposta aos cinco dias de ataques a prédios públicos e coletivos no fim de julho, a SSPDS informa que quatro suspeitos foram presos. No total, dez suspeitos ligados aos ataques desde o mês de março estão detidos. Para a secretaria o Centro Regional Integrado de Inteligência do Nordeste, que começará a funcionar ainda neste semestre em Fortaleza, vai contribuir para diminuição do número de homicídios e assaltos no estado. “O equipamento reforça o entendimento do Governo Federal, através do Ministério da Segurança Pública, de que a violência tem sido uma problemática nacional, e que requer o envolvimento de todas as esferas para combatê-la”, diz a SSPDS.

Com o início da campanha política, o tema da segurança pública será explorado por todos os candidatos, uma vez que é uma das principais preocupações dos eleitores brasileiros. Em uma checagem recente realizada pelo Truco nos Estados, da Agência Pública, críticas à atual segurança pública do estado pelos candidatos ao governo foram classificadas como verdadeiras, enquanto declaração do atual governador defendendo a secretaria foi apontada como incorreta. O tópico promete dominar a campanha eleitoral em todo o país, mas terá uma relação especial com o eleitor cearense.

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