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Sexo

Passei quatro horas tentando atingir um orgasmo de corpo inteiro

A intensa busca pelo clímax transcendental de que as mulheres (e alguns caras) tanto falam.

por Grant Stoddard; Traduzido por Marina Schnoor
16 Julho 2018, 10:00am

Foto: Juan Moyano/Stocksy.

Ultimamente, quando amigas e parceiras descrevem seus orgasmos, tenho achado difícil me identificar. Muitas vezes, elas falam de experiências de corpo inteiro com uma sensação de formigamento das extremidades que pode durar até 30 minutos. Já meus orgasmos são muito mais localizados e passageiros, e também parecem ir perdendo potência semanalmente. Não me entenda mal, eles ainda são melhores que cutucar o olho com um objeto pontiagudo. Eles também têm cada vez menos em comum com os clímax transcendentais de que as mulheres (e alguns caras) costumam falar. (Invariavelmente, esses caras curtem muito uma rave.)

Orgasmos de baixa potência já me fizeram pensar em me candidatar a tratamento com testosterona — esse é um de uma longa lista de sintomas para níveis baixos do hormônio. Mas quando examinaram meus níveis de “T”, descobriram que na verdade eu estava acima da média para um cara da minha idade.

Essa descoberta significava que eu teria que ir mais longe que receitas médicas para melhorar meu orgasmo. Na minha busca, cruzei com uma praticante de tantra de Manhattan oferecendo algo chamado “orgasmo de corpo inteiro”. Pelo site da Michiko, entendi que ela emprega vários métodos – incluindo respiração, alongamentos, sons, visualizações e massagem – pra ajudar seus clientes de várias maneiras, inclusive para atingir “orgasmos mais fortes e completos”. Uma dessas sessões, dizia o site, podia durar até três horas.

Vinte e cinco anos de experiência e 1000 clientes satisfeitos eram as credenciais dela, mas sendo meio materialista e cético sobre essas coisas hippies, eu estava predisposto a levar minha linha de investigação em outra direção. Mas aí assisti o clipe da música “Ma*Star*bation” estrelando a Michiko tocando keytar. A música e o vídeo eram tão deliciosamente bobos, tão maravilhosamente bizarros, tão diferentes da vibe que eu esperava de uma professora de tantra, que imediatamente marquei uma consulta. Aqui. De nada.

Chego num quarteirão particularmente badalado do centro de Manhattan e toco a campainha marcada como “Michiko”. Minutos depois, ela aparece na porta, oferecendo um grande sorriso, um abraço e me guiando por uma escadaria cinza um tanto deprê. Depois ela me diz para usar o banheiro comum do corredor, que “Kiki” me avisou que “não é muito limpo”. Saio do lavatório descrito perfeitamente por ela e a acompanho até uma sala de 1,5 x 2 metros, que contém uma mesa de massagem e um monte de fumaça vindo de um incensário.

Kiki me convida para sentar na frente dela, com as pernas cruzadas numa pequena faixa do chão desocupada e pergunta os problemas que estou enfrentando. Digo a ela que estou tentando recuperar meu poder orgástico e ela diz que pode me ajudar. Ela acrescenta que trabalha com indivíduos e casais. Antes de conseguir perguntar como mais de duas pessoas cabem neste espaço, ela me pede para ficar de cueca e me vejo no meio de um relaxamento guiado.

Kiki fica de biquíni, que, como o cabelo e o vestido dela, é de um azul vibrante que faz nosso ambiente parecer ainda mais monótono. Ela tem a fala tão mansa que acho um pouco difícil ouvir as instruções dela para “relaxar os ombros” e “fazer um espaço entre as costelas” sobre a música ambiente, sua tigela tibetana e dois bêbados gritando na rua lá embaixo.

Ela me leva por uma série de alongamentos de perna e técnicas de respiração cada vez mais desafiadores, depois me guia por um procedimento onde devo contrair uma série de chakras de energia pelo meu corpo para completar um tipo de circuito. Tem meu “chakra raiz”, formado pelo ânus, órgãos sexuais e umbigo, meu diafragma, pescoço e língua. Depois de várias rodadas contraindo esses chakras, passamos para o próximo exercício de aquecimento.

Kundalini é descrito pelo estudioso americano de religiões comparadas Joseph Campbell como uma energia feminina latente que fica na base da espinha (veja: Kundalini yoga). Kiki me guia para uma posição que ela diz que vai “elevar” a minha. Já tinha ouvido falar em kundalini yoga antes. Com meus braços do lado do corpo e minha cabeça e pernas levantadas a 15 centímetros do chão, Kiki me guia por algumas visualizações que ela diz que vão ajudar depois. Outro exercício é olhar nos olhos um do outro — uma experiência intensa com qualquer pessoa, quanto mais com uma estranha de biquíni — que culmina com cada um de nós colocando a mão sobre o coração um do outro e “disparando energia”.

É difícil saber o que fazer realmente com uma instrução tipo “dispare sua energia pela mão para o meu peito”, mas devo estar fazendo certo porque toda vez que tento, Kiki convulsiona, revira os olhos e seu sorriso aumenta. É o mesmo tipo de reação que lembro de experimentar quando meus orgasmos disparavam todos os cilindros. Quero essa sensação de novo.

“Agora você recebe minha energia”, ela diz.

Depois de uma hora de exercícios preparatórios bastante intensos, eu esperava e até queria sentir um fluxo de energia no meu peito quando ela disparava. Infelizmente não senti nada – e acho que não ganho nada fingindo. Depois de umas cinco rodadas dando e recebendo energia, pude ver que, assim como minha aventura com hidroterapia de cólon, eu devia estar fazendo algo errado.

“Tente imitar o que eu faço”, diz Kiki, e estremece quando lanço alguma mágica no esterno dela a queima roupa. Eu sabia que “fingir até conseguir” era uma estratégia eficiente para várias áreas, mas não imaginei que sexo tântrico fosse uma delas. Faço o melhor para imitar os estremecimentos de êxtase dela. Logo depois disso, Kiki me pede para subir na mesa.

O que se segue é uma massagem longa com movimentos leves e pequenos acompanhados por barulhos marcantes que a Kiki faz com a boca. Uma energia sexual se manifesta de maneira breve durante a hora em que fico deitado de bruços, mas quando me viro, ela já tinha sumido.

Enquanto olho para o teto, Kiki massageia, depois beija meus pés, tornozelos e coxas por algum tempo. Enquanto beija, ela coloca os dedos da mão direita sobre meu chakra raiz — e os dedos da mão esquerda no chakra sacral, alinhado com a cintura da minha cueca.

Como uma determinação obstinada, Kiki vibra os dedos nesses dois pontos por um tempo considerável. Sinto que ela está esperando uma reação de mim que aparentemente está sendo difícil de provocar. Enquanto suas tentativas sinceras continuam, ela coloca minha mão de volta no peito dela, mas está cada vez mais claro que seja lá o que deveria estar acontecendo, não está.

“Os outros clientes já apresentam alguma reação neste ponto?”, pergunto quando percebo que nossa sessão já está entrando na quarta hora.

Ela diz que sim e, do jeito mais simpático possível, confirma que realmente sou um cliente difícil. Kiki fez a lição de casa, e leu minhas explorações lascivas em nome do jornalismo. “Acho que talvez seja porque você já fez muito sexo”, ela diz como explicação. “A maioria dos meus clientes sentem mais o que estou fazendo.”

Esses clientes, preciso dizer, desembolsam uma quantia considerável pelo serviço. Eu não desembolsei. A sessão que estou fazendo de graça geralmente custa US$ 340 (uns R$ 1258). Considerando que eles gastam uma soma e tanto, imagino se os clientes pagos dela são mais mente aberta que eu e portando mais sintonizados com a energia da Kiki. Mas aí, do nada, sinto um formigamento, depois como uma corrente zumbindo no meu braço direito depois no esquerdo. Fico chocado com esse desenvolvimento e falo para Kiki, que redobra seus esforços. Estou prestes a me tornar um crente da energia sutil? Estou prestes a ter um orgasmo de corpo inteiro sensacional? Estou prestes a ter que pedir desculpas para minha mãe e minha melhor amiga — que fazem reike — por zoar um pouco com elas?

Mas depois de dez minutos, a sensação como de experimentar um choque de baixa potência é tudo que consigo. Começo a ficar em paz com o fato de que sou basicamente um Trouxa do Harry Potter e que essa foi uma longa corrida para pequenos resultados.

“Quero tentar mais uma coisa”, diz Kiki, percebendo como já está tarde.

Ela me convida para sentar de pernas cruzadas com ela no chão. Ela pede meu consentimento — que dou sinceramente — antes de sentar no meu colo me encarando. Os fãs de Kamasutra sabem que essa é a posição de lótus. O plano é pressionar meu peito contra o dela. Aí devo empurrar minha energia direto do meu coração para o dela. Depois ela vai sugar essa energia em seu chakra sacral — que é na virilha — e disparar contra o meu chakra sacral. Nesse ponto, tenho que sugar a energia no meu chakra do coração e disparar contra o dela, criando assim um circuito.

A Kiki é tão incrivelmente gentil e fofa que posso ter me convencido a sentir alguma coisa, mas sinceramente, acho que só estava empolgado por estar abraçado com outra pessoa praticamente nua.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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