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Sexo

Homens não deviam ter vergonha de usar brinquedos eróticos

As vendas de masturbadores só aumentam. Por que o estigma continua?

por Zoe Ligon; Traduzido por Marina Schnoor
29 Junho 2018, 10:00am

Arte por Zoë Ligon.

B* começou a se interessar por masturbadores três anos atrás. Na época, ele estava num relacionamento e tomando medicação contra ansiedade que dificultava atingir o clímax. Primeiro ele usou um brinquedo erótico barato comprado pela internet, que acabou quebrando. Depois escolheu algo mais durável. Mas depois de usar o brinquedo pela primeira vez, segundo B me disse por e-mail, ele se sentiu “péssimo por ter comprado, como se estivesse traindo minha namorada... Levei um tempo para me acostumar, mas logo superei a sensação de ser um 'esquisito'”.

E B não é o único. Quando pedi relatos de homens sobre suas experiências usando brinquedos eróticos, muitos dos mais de 100 participantes me pediram para não usar seus nomes verdadeiros. Então me parece que, enquanto fabricantes de brinquedos eróticos masculinos como a Fleshlight International SL relatam crescimento recorde nas vendas, isso ainda não reverteu o estigma cercando homens que usam brinquedos eróticos.

Segundo o fabricante de brinquedos eróticos Adam Lewis da Hot Octopuss, essa visão negativa se deve em parte à aparência e função dos brinquedos eróticos masculinos. “A maioria dos brinquedos masculinos são pensados para replicar a ação que um homem normalmente experimentaria com uma parceira”, Lewis disse numa entrevista pra Thrillist em 2016. Ele disse que isso levava “a uma percepção de que se um homem usa um brinquedo erótico, ele é um pouco pervertido, desesperado ou não consegue encontrar uma parceira”.

A explicação de Lewis para o estigma que cerca brinquedos eróticos faz todo sentido para mim. Isso está presente até na terminologia. “Vagina de bolso” te faz comparar masturbadores automaticamente com buracos humanos. Disso, não é um salto tão grande os tratar como “última opção” para quem não tem sucesso sexualmente.

Em mais de cinco anos trabalhando na indústria adulta e gerenciando uma loja de brinquedos eróticos, e mesmo nos cursos de educação sexual mais abrangentes e progressistas que já fiz, nunca ouvi alguém dizer: “Se masturbar com um tubo de plástico coberto de borracha é saudável e normal — assim como usar um vibrador. Só lave seu brinquedo depois!”

Como mulher, já me senti mal por usar a boa e velha Magic Wand em vez de me masturbar com as mãos. Mas o estigma cercando brinquedos eróticos é ainda mais intenso para os homens. As mulheres contam com o episódio “Rabbit” de Sex and the City, enquanto homens que usam brinquedos eróticos têm sua identidade questionada. Hoje em dia, aparelhos eróticos são vendidos para mães suburbanas em sites de estilo de vida como o Goop e Revolve, e as mulheres podem ver brinquedos eróticos discutidos de maneira aberta e positiva em revistas como Teen Vogue e Marie Claire . Mas não vemos o mesmo diálogo em publicações como a Men's Health. Talvez por isso muitas pessoas que responderam minha pesquisa pessoal disseram coisas como “masturbadores são nojentos” e “homens de verdade transam com bocetas de verdade”. Ou “Quer dizer, nem Austin Powers admitia que usava!”

Na verdade, já vendi masturbadores para todo tipo de pessoa: bombados de academia, pessoas queer, gente com clitóris, banqueiros de Wall Street, homens trans e muitos outros. Nenhum dos meus clientes era o solitário esquisitão que as pessoas imaginam comprando brinquedos eróticos. Então tenho muita empatia pelo pessoal que sente a necessidade de esconder que usa masturbadores. A Fleshlight — basicamente um termo genérico para masturbadores masculinos — merece mais que isso.

Infelizmente, para homens que são honestos sobre usar brinquedos eróticos, as opções são limitadas. A Fleshlight é uma das poucas empresas fazendo brinquedos pensados para parecer com genitais e que são seguros e duráveis. Mas as vaginas de bolso que você encontra por aí às vezes usam químicos cancerígenos que foram proibidos em brinquedos infantis, mas que ainda são usados amplamente pela indústria adulta. “Esses químicos podem bagunçar seus hormônios. Podem causar defeitos no feto, e outros problemas ligados ao funcionamento do fígado e rins”, disse Amanda Morgan, membro da Escola de Saúde Comunitária da Universidade de Nevada, Las Vegas, para a Glamour ano passado. Por outro lado, enquanto a fórmula patenteada de elastômero da Fleshlight não tem cheiro de cortina de box, a maioria dos seus masturbadores “realistas” vêm num único tom de bege pálido. Essa coisa de uma cor só parece desnecessária num mundo onde consolos vêm em todas as cores e estilos possíveis.

Além disso, há uma tendência bem broxante entre os fabricantes de lançar masturbadores que são basicamente um amontoado de buracos (brancos) penetráveis. Nas feiras de fabricantes que frequento, sempre vejo um par de seios fundido a uma abertura vaginal e um ânus, ou um pequeno corpo colado a uma bunda enorme. Pesquisando sobre essas criações cronenberguianas no Google, fico sempre surpresa em ver que elas têm avaliações mais neutras que positivas. Esses brinquedos fedem a #padrõesdebelezairreais e me fazem imaginar se os homens veem meu corpo assim – mas sei que os homens devem sentir o mesmo com minha coleção de consolos.

Os vendedores de brinquedos penianos muitas vezes fazem afirmações ridículas sobre suas reais funções. Eles são realmente o segredo para “ereções mais duradoras”, como dito na propaganda? Claro, alguns masturbadores podem ajudar a controlar melhor seu orgasmo, mas esse mesmo ponto de marketing é outro aspecto para uma percepção negativa dos masturbadores. Meu entrevistado, B, fez questão de apontar que a experiência de usar um masturbador não tem nada a ver com sexo com uma vagina real. “Você não pode fazer sexo com uma mulher na mesma velocidade que faz com um masturbador, ou atingir certos ângulos que te ajudam a gozar. Tem jeitos de gozar que eu nem sabia que existiam antes de comprar o masturbador!” E posso imaginar que transar com alguém que te trata como um masturbador não seria muito prazeroso.

E o mercado de masturbadores é cheio de linguagem racista e pouco inclusiva também. Embora grande parte da indústria seja voltada para homens que fazem sexo com homens, o grosso das marcas e lojas mainstream usam um palavreado descaradamente hétero. Um usuário de masturbadores que entrevistei, Jack Lukac, um homem bissexual num relacionamento monogâmico com um homem gay, disse que prefere comprar em lojas voltadas para os gays simplesmente porque elas têm seleções de brinquedos completamente diferentes (e mais avançadas) que lojas de clientela hétero.

Mas nem tudo são más notícias. Tenga é uma empresa japonesa que quer criar um futuro mais promissor para os pênis. Nenhum dos masturbadores deles parece algo humano, e eles passam longe dos aditivos químicos perigosos. Na verdade, muitos dos homens que responderam meu pedido de entrevista fizeram questão de dizer que só compram de marcas japonesas porque a qualidade é superior. E dá para ver — “Em junho de 2017, mais de 55 milhões de unidades foram enviadas para o mundo todo”, a Tenga anunciou ano passado.

Depois de vender os produtos deles por alguns meses, decidi levar um masturbador barato da Tenga para meu colega de apartamento com pênis. Ele nunca tinha usado um brinquedo erótico como esse antes, mas topou experimentar. Nunca pedi um feedback detalhado, mas alguns meses depois de ganhar o produto, ele foi até minha loja e comprou um pacote com seis Tenga Eggs, que são masturbadores variados descartáveis.

Vibração também é uma opção, e uma que me dá esperanças quando se trata de brinquedos penianos. Outro entrevistado disse que nunca curtiu masturbadores, mas acertou na mosca quando descobriu um masturbador que permitia acoplar uma Magic Wand Hitachi. “Era uma coisa incrivelmente intensa e diferente, me senti como quando descobri a masturbação”, uma linda sensação mesmo. “Se os homens soubessem quão insana é a combinação de Hitachi e masturbadores, haveria menos guerras neste mundo.” De maneira similar, Lukac ficou abismado com o elemento da vibração no estímulo. “Depois de usar uma Fleshlight com vibrador pela primeira vez, fiquei preocupado se o brinquedo erótico não era melhor que sexo real com uma pessoa”, ele compartilhou. “Mas eu era jovem e inocente, e acabei aprendendo que não dá para substituir o sexo real — um ser humano traz mais para o quarto que apenas a estimulação física do pênis.”

Também conversei com algumas parceiras de entusiastas de masturbadores. Em vez do esteriótipo de usuários de masturbadores como pessoas solitárias, descobri que as parceiras estavam bastante envolvidas — mesmo quando não usavam os masturbadores com os parceiros. Lenore Black, coach de kink e sexualidade, deu um ovo Tenga para ser parceiro e adorou testemunhar como o brinquedo fazia ele revirar os olhos. “Foi maravilhosamente erótico e íntimo vê-lo gozar com tanta intensidade, parecia que eu estava no controle.” Mas Black teve um momento de desconforto e intimidação, mesmo como educadora sexual: “A ironia disso era hilária, porque é a mesma reação que vejo quando mostrou minha coleção de brinquedos pras pessoas. [Fiquei com medo] que o brinquedo fosse melhor que eu. Ele disse que parecia uma vagina alienígena, e isso dissipou minha ansiedade. Quer dizer, eu também tenho consolos alienígenas. Saquei!”

No final das contas, desaprender a noção que brinquedos são só para “sexo solo” é o primeiro passo para acabar com o estigma que cerca os brinquedos para todos os tipos de corpos. Masturbadores podem ser usados sozinho ou com um parceiro ou parceira. Sem falar que os produtos nas prateleiras estão evoluindo, mesmo que lentamente. Cada pessoa gosta de uma coisa, e todo mundo merece experimentar prazer em seus próprios termos. Então, donos de pênis, anotem aí: há todo um novo mundo de orgasmos depois dessa porta.

*O entrevistado pediu para permanecer anônimo.

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