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Sexo

Por que homens héteros odeiam tanto astrologia

Seria porque astrologia geralmente é vista como um interesse “de mulher e gay”?

por Hannah Ewens; Traduzido por Marina Schnoor
23 Novembro 2018, 9:00am

Ilustração: Charlotte Mei.

Joe é um homem hétero de 20 e poucos anos. Como muito homens, ele adora rejeitar a astrologia.

“Isso tira a singularidade das pessoas e as reduz a blocos de características”, diz. “Não curto ser o cara da lógica nisso, tipo 'Nossa, como sou cético! Fatos estão pouco se fodendo pros seus sentimentos, filha!' Mas acho irritante pra caralho, os memes são muito chatos e odeio o autoengrandecimento daquela coisa 'É a temporada de [signo do zodíaco], bicho!'”

É assim que ele se refere ao pessoal nas redes sociais anunciando o calendário entrando num novo signo. Até 22 de dezembro, por exemplo, é a temporada do sagitário, bicho.

“Você não é taurino?”, pergunto, sabendo muito bem que ele é. Ele responde: “Você vai me dizer que esse é um comportamento muito de taurino?” Digo a ele que taurinos geralmente são conhecidos por ser do signo que tem menos chances de acreditar em astrologia.

Nos últimos dois ou três anos, a astrologia passou de um interesse de nicho para ser um grande ponto de entusiasmo para muitas mulheres e pessoas queer. Broadly, o canal da VICE voltado para mulheres e a comunidade LGBTQ, recebe muito tráfego por suas matérias de astrologia e horóscopo. Outras plataformas da mídia para mulheres também aumentaram notavelmente seu conteúdo de astrologia. No Reino Unido, as buscas no Google por “mapa astral” dobraram entre novembro de 2013 e novembro de 2018. Desde setembro de 2017, houve um aumento estável de buscas por “compatibilidade astrológica”. Todo esse interesse deu um impulso nas publicações: vendas de livros sobre mente, corpo e espiritualidade estão bombando; em 2017, as vendas aumentaram 13% em apenas um ano no Reino Unido.

Em 2016, os memes mais compartilhados eram sobre saúde mental; agora, memes de astrologia lotam nossas timelines. Em qualquer aplicativo de namoro, você vai achar uma mulher que coloca seu signo em emoji na bio como um resumo de seus traços de personalidade, gostos e um indicador de compatibilidade.

Mas nem todo mundo pegou esse bonde. Joe não está sozinho em sua antipatia pelo boom astrológico; homens héteros frequentemente se mostram apáticos ou aversos a astrologia. Numa pesquisa da Gallup Reino Unido de 2005, um pouco mais de duas vezes mais mulheres disseram acreditar em astrologia comparado com os homens (30% para 14% de uma base de 1.010 entrevistados). Um estudo de 2017 do Pew Research Centre descobriu que 20% dos homens adultos nos EUA acreditavam em astrologia, comparado com 37% das mulheres.

Se você é um cara hétero com muitas amigas, você provavelmente tolera astrologia (“Chegamos num ponto onde vou compartilhar memes de virgem no grupo tipo 'muito eu', mas ainda não gosto”, diz Adam, de Manchester). E se não tem, você provavelmente acha que astrologia é conversa fiada (“Se você mencionar essa merda pra mim, vou achar que você é uma cabeça de vento”, Tom, 25 anos, de Londres). Claro, há mulheres e pessoas LGBTQ que pensam assim também, mas por que essa atitude é tão predominante entre homens héteros em particular? Seria porque astrologia geralmente é vista como um interesse “de mulher”?

Alguns homens com quem falei mencionaram que seus pais liam o horóscopo diário nos tabloides, descobrindo que qualquer resumo vago poderia se aplicar a eles e decidindo nunca mais voltar para a astrologia. “Foi a primeira vez que notei algo tão incorporado na nossa cultura que claramente é besteira, e isso me colocou numa espiral de ceticismo”, diz Sam Hill, 27 anos, de Lincoln.

Muitos admitiram que não curtem astrologia por ser uma coisa muito voltada para um gênero. “Quando criança, as mulheres faziam chá da tarde na casa da minha vó, onde as colunas de astrologia do Mail e do Sun eram lidas com graus variados de mistério e risadinhas”, lembra Bob, 36 anos. “Hoje, horóscopos ficam perto das seções femininas do jornal ou em revistas para mulheres como a Woman's Own ou Take A Break. Não lembro da Esquire ou da Loaded terem páginas assim quando eu lia essas revistas muitas luas atrás.”

A opinião dele sobre astrologia? “Perda de tempo. Desperdício de energia. Desperdício de papel barato. É tipo loteria para pessoas solitárias.”

Sam também acha que astrologia sempre foi muito voltada para o gênero feminino, e que a resposta masculina pra isso – ignorar a astrologia – faz sentido. “É difícil explicar o que quero dizer, mas, por exemplo, se uma garota na escola gosta de um certo livro, os meninos não vão gostar por medo de serem chamados de gay ou algo assim, aí o livro vira um livro de menina”, falou. “O mesmo pode ser dito dos horóscopos. Acho que as mulheres são atraídas por eles por um senso de curiosidade e espiritualidade que é desencorajado nos meninos desde cedo.”

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Ilustração: Charlotte Mei.

Sem surpresa, encontros têm fornecido um palco para tensão. Com as mulheres cada vez mais viciadas em astrologia, mais homens héteros são obrigados a se envolver com isso. A maioria dos homens com quem falei disseram que papos sobre astrologia acabam com um encontro, ou sobre ex-namoradas que eram “obcecadas demais” por horóscopos.

“Depois dos estágios iniciais de 'se conhecer melhor', ficou aparente que ela tinha um lado muito espiritual: tinha piercing no nariz, passou um ano na Índia, escrevia horóscopos, além de fazer umas leituras de tarô e dar avisos gerais de 'cuidado com o carma'”, relata Laurie, 29 anos. “No começo eu até gostava: como um homem falido espiritualmente, era legal ter alguma direção para guiar minha vida além de uma culpa profunda de classe média por terem feito bullying comigo na escola. Ela conheceu meus pais – um encontro que achei que estava indo bem, até meu pai rir na cara dela quando ela perguntou o signo dele e sugeriu que cancerianos geralmente têm dificuldade para apreciar música.”

O casal acabou fazendo uma jornada “fria” de trem para casa, com a ex chateada pelo pai de Laurie ter tido tão pouca paciência com suas crenças. Os dois tiveram uma discussão explosiva sobre astrologia que terminou com ela “consultando alguns mapas para que eu sacasse se minhas tomadas de decisão ou razão estavam sendo afetadas negativamente por Mercúrio ou qualquer merda assim”, e Laurie terminou com ela por mensagem no celular.

Kevin, da Irlanda, diz que a ex usava seu mapa astral para justificar comportamentos escrotos ou mau humor, enquanto Paul de Essex diz que uma mulher com quem ele transou uma vez olhou o mapa dele e ficou mais interessada por causa da suposta compatibilidade, “mas ignorou todas as coisas que sugeriam que eu era difícil (sou mesmo) e que não estávamos destinados a ficar juntos (não ficamos)”.

Adam, 26 anos, estava saindo com uma amiga quando um interesse inicial em astrologia se tornou uma porta de entrada para todo tipo de droga New Age, como tarô e leitura de mão. “Não era algo que eu gostava, mas acabou se tornando uma característica definidora da nossa relação", contou. “Isso deixa de ser um interesse e vira um traço de personalidade, tipo: 'Sou uma mina da astrologia'.”

Adam namoraria outra mina da astrologia? “Se for um interesse menor da vida dela, isso não me incomodaria. Se for algo muito importante? De jeito nenhum.”

Todas essas coisas já foram observadas por astrólogos profissionais também. Jessica Lanyadoo, que apresenta o Ghost Of A Podcast, disse: “Conheço muitos homens héteros cis astrólogos, mas nem tantos homens héteros cis fãs de astrologia”. O astrólogo Randon Rosenbohm concorda, dizendo “é uma coisa de garotas e gays”.

“A astrologia é um jeito natural e intuitivo de falar sobre o tempo, e as mulheres estão mais em sintonia com a natureza”, continua Randon. “Homens são construtores que trabalham com o mundo material. A menos que você dê a um homem hétero evidências de que a astrologia é real, eles têm menos chances de achar isso remotamente interessante.”

Em outras palavras, Randon acha que os homens são mais propensos a um desdém imediato, enquanto as mulheres podem sentir alguma coisa. Um grande estudo divulgado este mês descobriu que mulheres são mais empáticas e homens são mais analíticos, e que há algumas evidências mostrando que o cérebro das mulheres vai ficar com uma sensação de angústia enquanto o cérebro dos homens vai procurar uma solução. Mas biologia de gênero é um campo altamente contestado: nem todo homem é um construtor, e nem todo mundo com um útero é destinada a estar mais em sintonia com a natureza.

Com ou sem essa suposta “intuição natural”, as mulheres certamente são mais atraídas pelas indústrias de autoajuda e terapêutica. Muitas vezes, há pouca separação entre autoajuda e astrologia; com a última sendo usada como um tipo da primeira. O Ghost Of A Podcast, por exemplo, tem uma parte de autoajuda sobre ansiedade, e uma parte com as previsões astrológicas para a semana seguinte.

“A astrologia não tem medo de símbolos que exploram nossas fraquezas e 'sentimentos fracos', como luto, trauma, tristeza, negação, percepções equivocadas, projeções, autossabotagem, vitimização”, diz o astrólogo Danny Larkin. “E isso vai contra o jeito como os homens héteros são constantemente encorajados a viver, se fechando em vez de se abrir. E é fácil observar que mulheres e pessoas queer geralmente estão do outro lado do chicote em muitas situações, então é mais fácil para elas se identificar com os temas difíceis que a astrologia aborda.”

Tentar entender a personalidade sua e dos outros, tentar prever o futuro: no final das contas, isso é uma tentativa de ter algum controle quando não temos nenhum. Mulheres e pessoas queer são atraídas pela astrologia porque isso oferece uma comunidade e refúgio, algo no qual você pode se apoiar, considerando que a religião é um negócio que tem ficado um pouco de lado nessa época atual.

Num patriarcado heterossexual, homens héteros cis têm menos motivos que o fazem procurar refúgio. E é durante períodos de estresse significativo que as pessoas se voltam para a astrologia no final das contas. Num estudo de 1982, o psicólogo Graham Tyson descobriu que pessoas que constantemente consultavam astrólogos faziam isso em respostas a estresses, escrevendo: “Sob condições de alto estresse, o indivíduo é preparado para usar astrologia como um mecanismo para lidar com isso, mesmo que se em condições de menos estresse ele não acreditasse nisso”.

Pessoalmente, meu vago interesse por astrologia desde criança se solidificou quando fiz meu mapa astral e descobri que ele era estranhamente preciso. Quando prazos conflitantes se juntam com meus níveis já altos de ansiedade, ou se não estou me cuidando direito, noto que me volto mais para aplicativos e podcasts de astrologia. Mas sem a “introdução” inicial, eu nunca teria descido pelo buraco do coelho. É uma questão do ponto de entrada que te leva até lá.

Pergunto a Joe se posso fazer o mapa astral dele. Ele diz que sim, então entro no Cafe Astrology e faço o mapa, compartilhando algumas de suas características: teimoso, estoico, gosta de prazer e artes, pode ficar facilmente com o ego ferido quando não é “ouvido”.

Sim, bastante preciso, ele diz – mas expressar qualquer tipo de alegria com a correção astrológica seria um endosso que ele jamais daria.

@hannahrosewens

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