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cinema

"Emoji: O Filme" nem filme é

O longa é essencialmente um comercial de aplicativos.

por Joel Golby; Traduzido por Marina Schnoor
17 Agosto 2017, 10:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

OBVIAMENTE CONTÉM SPOILER DE 'EMOJI: O FILME', SE É QUE ALGUÉM SE IMPORTA.

Emojis são figurinhas que moram no seu celular. Você pensa neles do mesmo jeito que pensa numa banana, ou em fones de ouvido. Eles estão ali, e tudo bem, mas com certeza você pode viver sem eles. Claro, você pensa, tudo bem, tanto faz, né. É muito difícil odiar uma banana, por exemplo, mas você não assistiria um filme de 85 minutos sobre uma banana. Emojis vivem num curioso espaço cinza sem extremos, é difícil sentir qualquer coisa sobre eles — amor, ódio, fogo, gelo — porque eles simplesmente estão lá. Como um apêndice, ou uma máquina de fax. Ferraduras. Picolés. Para algo que deveria abarcar toda a cornucópia de emoções humanas, os emojis são bizarramente neutros.

Então:

Esse é o trailer de Emoji: O Filme. E tenho que dizer: esse também é o enredo inteiro de Emoji: O Filme. Sei que você não curte spoilers, e não quer que nada estrague seu prazer em assistir Emoji: O Filme. Eu entendo. Mas também gostaria de dizer: imagine, do modo mais geral possível, qual poderia ser o enredo de Emoji: O Filme. Pronto, você provavelmente acabou de imaginar o enredo inteiro. Emoji: O Filme é sobre um emoji que fode sua vida como emoji por ter emoções demais, e parte numa jornada de redenção com James Corden. Ele sai do aplicativo de texto e vai para outros aplicativos. Ele vai e volta do Dropbox. Sem brincadeira; não estou zoando. Todo mundo aplaude quando ele volta para salvar os emojis da sorridente rainha má emoji, e ele é ungido como um tipo de rei emoji. É isso, esse é o enredo do filme. O emoji protagonista é o emoji de "meh". Seu nome é Gene. Me perturba que um emoji tenha nome, não sei por quê. Isso o torna mais que um emoji. Algo entre humano e não-humano. Um monstro.

Então.

O ponto é que fui assistir Emoji: O Filme, e foi tudo bem — não ri, mas também não chorei — e tirei cinco conclusões disso. Você, claro, pode ir assistir se quiser – pagando até R$ 60, entrar na fila, ficar com pipoca grudada no seu tênis novo, pagar mais 20 dinheiros pelo combo de pipoca e refri, depois ter seu ingresso rasgado por um menino sem expressão, assistir 30 minutos de comerciais (cinemas: se eu já paguei uma nota pra assistir o filme, por que tenho que ver propagandas também? Você já ganhou seu dinheiro. Eu. Te. Paguei. Para desperdiçar meu tempo. Repensem.), depois os trailers, e finalmente o filme propriamente dito, tudo isso numa sala escura não tão silenciosa assim, com um bando de gente que não consegue ficar uma hora e meia sem ter que levantar pra mijar, e numa temperatura que não é quente nem fria, sem outras opções: a experiência moderna do cinema — então sim, você pode ir ao cinema, e pode assistir o filme, e tirar suas próprias conclusões. Mas você não vai.

Então:

'EMOJI: O FILME' É O PRIMEIRO FILME NA HISTÓRIA A SER FEITO SEM UM PÚBLICO EM MENTE

Ei: Para quem é Emoji: O Filme? Fãs de emoji? Isso não existe. Ninguém vai dizer que é fã de emojis. Mesmo as pessoas que têm aquelas almofadas de emoji não vão dizer que são fãs de emojis. Pode perguntar. Pergunte diretamente por que a pessoa comprou uma almofada. "Sei lá, tava na promoção", ela vai dizer. O filme é para adultos? Não é para adultos. Você sabe que algumas animações são, secretamente, para adultos, né? Você sabe que tem gente crescida que vai assistir os filmes da Disney, que viaja para a Disneylândia. Adultos patológicos, adultos estranhos. Pessoas que têm vontades estranhas que em outra vida poderiam se materializar como infanticídio, mas aqui e agora surgem como uma afinidade sincera com a Disney. Mas esse filme também não é pra eles. É para crianças? Não sei. Conheço crianças. Não pessoalmente, mas o conceito. Eu mesmo já fui criança. Partes de mim ainda são. E como criança, não encontrei nada que redima Emoji: O Filme, fora uma cena na qual o emoji de cocô, dublado pelo Patrick Stewart, faz cocô (*1) e fala com o filho, um cocô menor, sobre as atribulações de ser um cocô que faz cocô. Além disso, o filme é só um monte de referências ao Dropbox que eu não manjo e algumas sequências de dança. Nenhuma criança vai cair nessa merda.

Então esse filme é para ninguém, ele não tem público. Aviso: fui a uma exibição para: 1) pessoas que trabalham no Candy Crush, que aparece brevemente no filme, e que, sério, aplaudiram quando as palavras "Candy Crush" apareceram na tela, então acho que o filme em grande parte era pra elas, o que me parece um público de nicho para um filme que custou US$ 50 milhões; 2) jornalistas. Se eu tivesse que chutar e identificar o público central, eu diria "jornalistas", porque são as únicas pessoas que vão se dar ao trabalho de assistir Emoji: O Filme, só porque precisam regurgitar isso como uma lista de cinco conclusões que tiraram de Emoji: O Filme, porque esse é o trabalho delas.

A HISTÓRIA NÃO TEM MORAL

O principal conflito de Emoji: O Filme é que o emoji de meh (ou Gene, tanto faz) estraga tudo fazendo a cara errada. Devo explicar brevemente como os emojis funcionam segundo Emoji: O Filme: um braço central gigante escaneia o emoji de um muro de caixas e quando eles precisam ser usados, é nessa hora que o emoji correspondente tem que fazer a exata cara do emoji sendo empregado, ou acontece um erro (nesse caso, o erro é que o garoto dono do telefone está tentando xavecar [via emoji] e o xaveco dá errado, então ele decidi ir à loja de celulares no dia seguinte formatar seu telefone), (sim, uma reação um tanto exagerada, mas o emoji atrapalhou o xaveco dele e ele fica puto: você precisa entender isso para o filme fazer sentido). Assim que faz a cara errada, Gene também estraga o braço gigante e arruína todas as caixas. As coisas até pegam fogo uma hora.

Para consertar essa zona ele tem que encontrar uma hacker para hackear sua cara e ele parar de mostrar uma miríade de emoções, aí ele pode ser um emoji funcional de novo. Ele precisa fazer isso antes que o moleque xavequeiro formate o celular. Essa é a jornada do herói.

Mas na sua jornada ele descobre que, na verdade, se expressar é algo bom. E isso não é uma moral. Ninguém precisa saber disso, porque ninguém é obrigado a fazer a mesma cara todo santo dia enquanto um braço gigante te escaneia. Não tem nenhuma lição pra tirar daqui. Nenhuma moral. Além disso: quando volta, Gene, usando seu controle recém-descoberto de suas muitas emoções, ajuda o moleque dono do celular a mandar um belíssimo xaveco, o que o faz decidir não formatar o celular — e todo mundo grita e aplaude. Mas ele só ia formatar o celular — matando assim toda nação emoji que morava no telefone — porque o Gene fodeu tudo em primeiro lugar. Você entendeu? Eles estão torcendo pela única pessoa responsável por sua morte. Seria como se o Donald Trump disparasse um míssil nuclear contra a Coreia do Norte, depois impedisse o próprio míssil de atingir o alvo, e os norte-coreanos dissessem: "Uau, cara. Bom trabalho, Donald Trump. Uhull!". Nada disso teria acontecido se ele não tivesse fodido a coisa toda no começo do filme.

Não tem uma moral nessa história. Gene é um vilão. Ele estragou tudo e quase fez seu mundo ser apagado. Ele é um assassino e deveria ir pra cadeia, não ser eleito o novo rei dos emojis. Estou absolutamente pasmo com esse final.

AMOR ESTRAGA TODO FILME QUE NÃO É EXPLICITAMENTE SOBRE AMOR

Há dois momentos em Emoji: O Filme nos quais achei sinceramente que veria emojis transando, e não sei se isso é algo bom ou ruim sobre a experiência de Emoji: O Filme. Primeiro: os pais de Gene, na busca por seu garoto perdido, vão para o Instagram e têm um momento romântico numa fonte estática num cenário parisiense. Parece muito que eles estão prestes a transar. Eles não transam, mas, tipo: por um segundo parecia que eles iam. Seria um lugar legal pra transar. Eles são adultos. Não tem ninguém por perto. Na verdade é estranho que eles não tenham transado. Segunda parte: Gene e a hacker, uma ex-princesa emoji chamada Jailbreak, estão num barco? Dentro do aplicativo do Spotify? E colocam uma música romântica? E olham nos olhos um do outro? E parece mesmo que eles vão transar?

Esse é o subenredo de Emoji: O Filme: ser você mesmo, e salvar o mundo enquanto isso, faz as pessoas se apaixonarem por você.

Cara: quem diabos quer ver emojis se apaixonando? Todo filme que não é explicitamente sobre amor não precisa de romance. Por exemplo, alguns filmes nos quais se apaixonar é uma coisa boa:

10 Coisa que Eu Odeio em Você
Uma Linda Mulher
Simplesmente amor

Agora alguns filmes em que pessoas lentamente se apaixonam e isso estraga as partes boas do filme:

Velozes & Furiosos
Jurassic World, cara! Parem de se apaixonar, caralho! Fujam dessa porra de ilha!
Emoji: O Filme

Cara, estou tão de saco cheio de pessoas se apaixonando em filmes. Apenas parem. Chega. Cansei.

ISSO PODE SER O QUE FILMENTE VAI MATAR OS EMOJIS

Emojis sempre sofreram para se enquadrar no conceito de legal: coisas legais e emojis não andam de mãos dadas. Todo mundo curtiu a novidade quando eles apareceram, quando eles bombaram alguns anos atrás, certo? Todo mundo curtia usá-los nas mensagens, ou colocá-los ao lado de nomes na nossa lista de contatos. Acho que muita gente tem um menu de "emojis favoritos" que toca seu coração. Mas quando sua mãe descobre como usar emojis, isso acaba com a marca. O mesmo vale para lojas de 1,99 vendendo merchandise pirata de emojis. Você não sente que tudo bem se você nunca mais visse o emoji mostrando a língua na vida? E quando os caras da direita alternativa começaram a usar o emoji de sapo junto com seus nicks no Twitter: essa é a definição jurídica do contrário de legal, né? E quando a gente achava que os emojis já tinha chegado ao fundo do poço, aparece isso: um filme de 85 minutos onde um emoji aprende sobre amor, ser você mesmo, emoções, liberdade de expressão, Dropbox, Spotify e Instagram. Essa é a coisa menos legal que já aconteceu com qualquer outra coisa. Isso pode empurrar os emojis do penhasco. Usá-los casualmente em mensagens de texto é um endosso desse tipo de comportamento. Melhor parar de vez.

ESSE FILME É IMPOSSÍVEL DE CATEGORIZAR

Um dos meus filmes favoritos é Transformers 4: A Era da Extinção, e não porque é um bom filme — não, esse filme é uma bosta —, mas por causa do oportunismo sem vergonha do merchandising. Veja essa cena, por exemplo, na qual Mark Wahlberg bate um transformer num caminhão de Bud Light, depois toma uma cerveja com raiva por causa disso:

Quanto será que isso custou? Ou essa parte, onde um transformer é da marca Oreo; por quê? OK.

Emoji: O Filme é assim por 85 minutos. É essencialmente um longo comercial de aplicativos. Tem Instagram e tem Facebook. O objetivo é chegar ao Dropbox e ascender para a nuvem. Todos os aplicativos padrões estão aqui: Twitter, Spotify. Aí tem uma cena de dez minutos na qual, para escapar dos bots que o perseguem, o emoji mergulha no aplicativo Just Dance, que obviamente todo mundo tem. Todo mundo adora Just Dance. Por isso ele aparece no filme: por causa do amor sincero do público pelo aplicativo, não por causa de alguma transação comercial. É muito difícil fazer a crítica desse filme, porque ele meio que não é um filme: só uma série de comerciais costurados numa forma vaga de filme. O principal aqui: Emoji: O Filme não é nem um filme.

E mais: Emoji: O Filme não é ruim. Era isso que a maioria das pessoas na exibição que assisti saíram do cinema dizendo, com um tom de surpresa na voz: "Bom, não é tãããão ruim assim!" É bom? Também não. É um jeito completamente neutro de gastar uma hora e meia da sua vida. Ele simplesmente está lá. Ele acontece. A classificação de 8% no Rotten Tomatoes não significa nada, porque esse sistema de classificação foi criado para julgar filmes de verdade. Pedir que Emoji: O Filme siga a estrutura e a forma de um filme é como pedir para um abajur fazer uma equação, ou classificar a habilidade de um cachorro em fazer o jantar. Cachorros não podem fazer o jantar porque não foram criados pra isso. É injusto classificá-los quando eles derrubarem a bandeja de batata assada no chão da cozinha.

E é por isso que James Corden é o dublador perfeito para o Hi-5: James Corden é fundamentalmente, até o osso, um babaca pentelho que eu detesto. Mas ele também é legalzinho, né? Ele é inofensivo. Com seu sucesso nos EUA construído sobre ser um sincofanta animado, e seu sucesso no Reino Unido construído sobre ser o que sua mãe acha que é engraçado, tudo isso com uma risada xerocada do Ricky Gervais e sendo onipresente, ele é tudo e nada ao mesmo tempo: irritante, sem graça; simpático, charmoso; James Corden ocupa esse espaço curioso onde ele é o cara mais irritante do planeta, mas também OK. É o chato de Schrödinger. Ele nasceu pra estar nesse não-filme.

PRA ONDE VAMOS AGORA?

Ah: pra baixo. Agora é só decida. Emoji: O Filme é, não importa como você olhe, a morte da cultura. Sem histórias, sem personagens gostáveis. Só os nomes de vários aplicativos repetidos até a exaustão. Sem público. Sem razão para existir. E mesmo assim existe. É esse — esse é o momento para qual vamos apontar e dizer "Merecemos tudo que aconteceu depois". Consumimos tanta merda que alguém fez Emoji: O Filme, aí consumimos ele também, porque a gente adora merda, todo tipo de merda. O filme já rendeu uma grana. Vai ter uma continuação. A gente pediu por isso. E essa é a parte mais triste — só vai piorar.

@joelgolby

(*1) E isso fodeu com a minha cabeça. Como um cocô pode fazer cocô, e o que ele caga se já é um cocô? Seria como seu eu fosse ao banheiro e cagasse um braço. Que negócio ridículo.

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