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O zine 'United Forces' registrou a adolescência do metal brasileiro

Integrante da formação original do Rot e dono da Extreme Noise Discos, Marcelo R. Batista lança livro que compila o saudoso fanzine metal-punk e memórias da debutante cena metal no país.

por Eduardo Ribeiro
08 Fevereiro 2018, 12:00pm

Capas das edições do fanzine 'United Forces'. (Divulgação)

Todo mundo do punk e do metal underground de São Paulo e que não é comédia tá ligado no Marcelo, da Extreme Noise Discos/Absurd Records, por sua história como vocalista do Rot, fundamental banda de grindcore do Brasil. Mas antes desse grande feito, aos 15 anos, ele já lançava, em novembro de 1986, a primeira edição do United Forces, um fanzine que cobriu os anos enraizadores da cena pesada-extrema nacional. De leitor de fanzines e revistas musicais e colecionador de fitas cassetes, flyers e cartazes de shows, ele virou fanzineiro. As influências principais da publicação incluíam a Rock Brigade e o zine Heavy Metal Maniac. “Porém, foi um fanzine punk chamado Holocauto, editado por um amigo meu, que me despertou a vontade de também fazer aquilo”, acrescenta ele. “Era tudo bem descontraído e imaturo. Não éramos, nem de longe, especialistas em música, apenas fãs determinados a transmitir o pouco que sabíamos.”

Com lançamento previsto para fevereiro, um compilado de 320 páginas traz aos nossos dias o sabor do underground daquela época. Depois de um empenhado trabalho de resgate, Marcelo chegou ao livro United Forces – revirando arquivos: 1986-1991 (Extreme Noise Discos). Além da reprodução dos originais dos nove exemplares do fanzine, entre uma edição — leia-se capítulo — e outra foi incluído muito material inédito dos arquivos do autor. Fotos, flyers, cartazes de shows e textos que contam um pouco de como ele descolava o material para cada número, como eram os shows, os discos marcantes... Assim, o leitor consegue desfrutar de uma visão ampla sobre o estado das coisas três décadas atrás.

Naqueles tempos, o envolvimento do Marcelo era mais com a cena do metal, embora conhecesse e curtisse várias bandas de punk-hardcore. “No começo tudo era baseado nas informações que lia em outras publicações ou que eram transmitidas verbalmente quando me encontrava com o pessoal no Centro de São Paulo. Depois, com a necessidade de saber mais e de divulgar coisas que a mídia não divulgava, comecei a me corresponder com as bandas, com outros fanzines e com pessoas de tudo quanto é canto do Brasil”, conta ele, que também imprimia o senso de humor e crítico dos quadrinhos do Angeli, Marcatti, Fernando Gonsales, Glauco e Laerte na publicação. “Eu era bem adolescente, minhas ideias eram bem confusas, e, muitas vezes, passavam longe desse politicamente correto que existe hoje. À medida em que ia recebendo informações sobre isso ou aquilo, tentava assimilar ao máximo, e isto se reflete muito no decorrer de cada edição do fanzine”, acrescenta.

O mais legal desse resgate é topar com entrevistas de nomes em suas fases mais míticas, tipo Sarcófago, Carcass e Darkthrone, realizadas em 89 — o Darkthrone estava apenas na segunda demo e poucos conheciam. Outros pingue-pongues clássicos são os do Mystifier, Abhorrence (embrião do Amorphis), Loucyfer, Sextrash e Mutilator. Havia também espaço para assuntos políticos. Marcelo relembra, por exemplo, que “em 90 me tornei vegetariano e fiz uma matéria falando sobre o abuso sofrido pelos animais nos laboratórios, e entrevistei um inglês que participava de um grupo que se empenhava na defesa dos direitos dos animais.”

As maiores tiragens e números de páginas do United Forces ficaram para as duas últimas edições. A número #8 saiu com 46 páginas e 250 cópias, mais duas tiragens de 100 e 150. Já a nona teve 60 páginas e 220 cópias no total. E consideremos que muita gente duplicou e distribuiu mais algumas dezenas ou centenas por conta própria. Fotocopiado, a diagramação do fanzine foi melhorando com o tempo. Acabou, porque em 90 o Marcelo ajudou a montar o Rot e teve que escolher entre o acúmulo de correspondências do zine ou da banda — “Chegava a receber de 20 a 50 cartas por dia!” — entre outras razões, como falta de grana pra rodar em gráfica.

De esguelha na promoção do livro, o Marcelo fez um Instagram com uma pá de imagens. Pegamos carona e pedimos a ele que falasse um pouco de algumas delas. Dá um ligo:

Venom e Exciter em turnê

“Acho que esse evento marcou muito o underground nacional. Ambas as bandas tocaram em várias cidades brasileiras. Em São Paulo, o show foi numa quarta-feira para cerca de dez mil pessoas e a banda de abertura foi o Vulcano. Era um cenário completamente diferente do que temos hoje em dia: do lado de fora a galera fazia uma fila enorme para entrar no ginásio do Corinthians. Apesar da empolgação geral, o clima era tenso, a tropa de choque estava em peso na entrada do ginásio, revistavam todos que iam entrando, removiam cinturões, braceletes e tudo mais que considerassem inviável. Cacetadas eram dadas gratuitamente nos mais exaltados."

Som de fita

“Até metade dos anos 80 os discos importados eram extremamente caros e a solução era comprar fitas cassetes com os discos gravados. Elas eram vendidas nas lojas e nos corredores das Grandes Galerias (posteriormente chamada de Galeria do Rock) em São Paulo. Ainda tenho várias dessas fitas guardadas comigo e algumas eram tão especiais que eu mesmo fazia as capas!”

Vulcano. Foto: Reprodução


1986: Invasão Headbanger

“Bandas como Vulcano, Sepultura, Dorsal Atlântica, Taurus e Korzus já tinham seus álbuns lançados e faziam shows com certa frequência. A Cogumelo Records lançava a primeira edição da coletânea Warfare Noise, com as bandas Mutilator, Holocausto, Sarcófago e Chakal."

Megatério. Foto: Reprodução

Clássico sem registro

“Bandas iniciantes pipocavam de todos os cantos do país. Eu costumava frequentar os ensaios do Megatério, na Vila Leopoldina, São Paulo. A banda era bastante promissora. Gravaram demos e fizeram vários shows bem agitados, mas, assim como tantas outras, nunca registraram seu trabalho em um LP.”

Kreator queimando a largada

“Os shows nacionais rolavam com muita frequência. Entre 1987 e 88 vi Sepultura, Korzus, Ratos de Porão, Megatério, Vulcano, Vodu, Anthares, Necromancia, MX e mais um número incontável de bandas. Em 1989 a Heavy Metal Maniac anunciou a vinda do Kreator ao Brasil. A venda de ingressos foi um sucesso e, no dia do show, veio a notícia de que o Kreator não tocaria. O show aconteceu assim mesmo, mas muita gente acabou indo embora antes mesmo de começar.”

Morbid Angel no Dama Xoc em 1991. Foto: Reprodução

Templo do metal

“O Dama Xoc se transformou num dos principais palcos para o metal em São Paulo. Assisti diversos shows lá e consegui registrar isso em algumas fotos que nem sempre saíam com boa qualidade. Entre os mais marcantes estão Napalm Death com Sepultura, em 1990, Ratos de Porão [foto abaixo] e Volkana, em 1989, Nuclear Assault e Sepultura, em 1989, e Morbid Angel [foto acima] em 1991.”

Ratos de Porão no Dama Xoc. Foto: Reprodução

Zine é compromisso

“Me correspondia com um número incrível de pessoas do Brasil e também do exterior. Recebia fitas demo, fotos, cartazes de show, discos, fanzines e tudo mais que desse para ser enviado pelos correios. Para o fanzine, destaco entrevistas com bandas como Carcass, Sarcófago, Blood, Scum, Darkthrone, Anthares, Necromancia, Ação Direta, Necrobutcher, Pentacrostic, Nuclear Death e tantas outras. Foram, ao todo, nove edições do United Forces.”

Necrobutcher. Foto: Reprodução

Uma era chega ao fim

“Em 1991, quando o Sepultura atingia o mainstream e o thrash metal parecia perder sentido no meio underground, uma enxurrada de bandas extremas inundou a cena mundial. Aqui no Brasil, uma das primeiras bandas a levantar essa bandeira foi o Necrobutcher, formado em 1989, em Santa Catarina. Também em 1991 o nono e último número do United Forces foi lançado, com 60 páginas.”

Leia mais sobre fanzines de música que fizeram história na coluna Zine é Compromisso.

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