Phoenician Sailor como Geralt, de The Witcher. Imagens: Phoenician Sailor/Reprodução.

Este cara se veste de personagem de videogame para sussurrar no seu ouvido

Com vídeos de ASMR, o youtuber e cosplayer Phoenician Sailor mistura games, relaxamento e uma certa tensão sexual.

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fev 9 2018, 4:45pm

Phoenician Sailor como Geralt, de The Witcher. Imagens: Phoenician Sailor/Reprodução.

Sussurros, unhas batendo de leve em objetos, pinceis acariciando a lente da câmera ou o microfone e muito, mas muito roleplay (ou “interpretação de papéis”): o ASMR, ou “Autonomous Sensory Meridian Response” (em português: Resposta Autônoma ao Meridiano Sensorial) é uma técnica de relaxamento arrepiante e uma tendência de vídeos no YouTube do mundo todo.

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A fala suave e os diversos barulhos usados pelos youtubers dessa categoria — carinhosamente apelidados de ASMRtists — provocam arrepios no couro cabeludo, relaxamento e sonolência. E, apesar de recentes, estão sendo desenvolvidas até algumas pesquisas científicas que comprovam a eficácia da técnica como forma de terapia. Dentre os muitos gatilhos que os ASMRtists usam para provocar o relaxamento em seus ouvintes, a interpretação de personagem talvez seja o mais famoso deles. São milhares de vídeos onde esses youtubers assumem papéis de médicos, maquiadores, vendedores. Ou no caso de Phoenician Sailor, personagens de videogames e cultura pop.

Phoenician como Joel, de 'The Last of Us'.

Phoenician Sailor (às vezes conhecido como Phoenician Smith) é um ASMRtist que se destaca entre os vários que apareceram no YouTube nos últimos anos, porque decidiu unir a produção de vídeos de ASMR com roleplay de personagens famosos de videogames.

“Eu sou gamer a muito tempo. Meu primeiro emprego foi na EB Games, que virou a Gamestop, quando eu tinha 15 anos”, conta “Sou um grande fã de RPGs orientais. Jogos sandbox, narrativas distópicas, isso e aquilo. Provavelmente os meus jogos favoritos de todos os tempos são Elder Scrolls e a série antiga de Fallout, incluindo Wasteland."

O artista já assumiu o papel de vários personagens, com uma produção de dar inveja. Como Joel, de The Last of Us, Geralt, de The Witcher, e até um tavernista de Skyrim. “Eu amei The Last of Us, mas eu certamente nunca achei que eu iria interpretar o Joel; a única razão de eu tê-lo feito foi porque alguém pediu e eu quis comprar os adereços por diversão, tentar usar alguns efeitos de maquiagem, e fazer alguns efeitos de pós produção em vídeo para conseguir um visual bem estilo videogame.”

Tavernista de 'Skyrim'.

Phoenician diz que não vai muito a fundo em técnicas de interpretação e caracterização. “Talvez eu volte e jogue o jogo um pouco mais para me lembrar dos poderes do personagem e algumas particularidades do mundo. Eu fiz isso com o vídeo de The Witcher, mas para os vídeos de Skyrim e The Last of Us eu nem precisei fazer isso, os jogos eram tão parte de mim que as fontes para interpretar aqueles personagens só estavam ali.”

Apesar de ASMR e vídeos de sussurro serem associados a fetiches e conteúdo pornográfico, Phoenician evita ao máximo chegar nesse tom. "Eu não tenho problema nenhum com conteúdo sexual em ASMR. Acho que é perfeitamente válido", explicou. "Não é algo que eu faço, eu tento fugir de triggers que podem ser publicamente percebidos como sexuais, mas é claro, quase tudo que você faz no contexto da intimidade, o que quase todo ASMR é, pode ser interpretado como sexual por alguém."

Fugindo um pouco dos personagens reconfortantes, um dos vídeos de Phoenician entra em uma vibe meio sinistra, que se intensifica com a técnica de ASMR.

Você acorda no chão de uma sala escura com algumas poucas luminárias vermelhas. Vários equipamentos de fotografia te rodeiam, assim como o professor Jefferson, da Blackwell Academy, usando um terno preto e os óculos redondos de sempre. Sua visão ainda é turva e é difícil entender o que Jefferson diz, mas os efeitos dos sedativos que fizeram isso com você logo vão passando. Você está na Dark Room — do jogo de 2015 Life is Strange, do estúdio francês Dontnod —, e em vez de uma tortura traumatizante, Phoenician (dessa vez interpretando Jefferson) transforma tudo em mais uma experiência de relaxamento.

“Eu interpretei o Jefferson porque eu joguei Life is Strange e fui totalmente levado por ele. Eu prefiro que o meu conteúdo seja um pouco diferente, então a ideia de um ASMR alocado na Dark Room me apeteceu bastante!”

Além da presença de personagens, Phoenician também enxerga muitas possíveis semelhanças entre os jogos e os vídeos de ASMR, que podem explicar por que o nicho de ASMRs para gamers tem crescido a algum tempo: “Muitos jogos compartilham construções similares com vídeos de ASMR. A ideia de uma narrativa em primeira pessoa, uma pessoa falando diretamente com você, a ideia de imergir-se fingindo que você está no mundo da pessoa que está falando, ser considerado o centro do universo por aquele que fala, esses todos são conceitos que os gamers estão inatamente familiarizados com, então eu acho que é mais fácil de entender o conceito de ASMR.”

O ASMR de videogames — que vai desde roleplays até gameplays completos com a música baixa e sussurros —, vem crescendo como uma comunidade com ouvintes assíduos que muitas vezes dependem dos ASMRtists para dormir ou se acalmar. “Só estou feliz que esse espaço existe e que um pequeno número de pessoas gosta dele e o aproveita.” E sobre o que o inspira, finaliza: “Eu posso me inspirar por um ponto de vista político, por uma visão de um assunto que eu nunca vi ser explorada, ou pela possibilidade de fazer algo que me desafia tecnicamente. Eu não preciso ser o primeiro, mas eu não quero ser o último.”

Uma sensação não muito difícil de se encontrar em alguém que ama videogame.

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