Maury em homenagem na Câmara Municipal de Curitiba, em 2011. Trabalho assistencial. Foto: Câmara Municipal de Curitiba

Um dos maiores médiuns do Brasil é acusado de abusar de dezenas de homens

Bem quisto por muitos artistas, desembargadores e médicos, o paranaense Maury Rodrigues da Cruz terá primeira audiência do caso em que é réu por estelionato e violação sexual.

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13 Fevereiro 2019, 1:42pm

Maury em homenagem na Câmara Municipal de Curitiba, em 2011. Trabalho assistencial. Foto: Câmara Municipal de Curitiba

De madrugada, em Curitiba, numa sala escura, o médium Maury Rodrigues da Cruz, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE), alega estar recebendo o espírito do Dr. Leocádio Correia, um médico que teria vivido na segunda metade do século XIX. O médium manda chamar um dos rapazes que o está esperando numa antessala, já anteriormente abordado, com o discurso: "Dr. Leocádio disse que você é especial e tem que ajudá-lo nos trabalhos do espírito".

Nascido na cidade paranaense de Castro, com corpo avantajado, cabelos brancos e fronte saliente, Maury fica deitado de barriga para cima numa maca e pede para o rapaz escolhido pousar as mãos em seu peito, na região do plexo solar. Ele desfalece, e o Dr. Leocádio alega que precisa ser massageado para o médium voltar.

Nas outras sessões, o processo evoluiria. Maury já estaria de camisa aberta, depois de calça aberta, pediria para os rapazes massagearem seu baixo ventre, depois suas genitálias até que, por fim, Dr. Leocádio diz que a única forma de o médium voltar seria por meio do sexo oral. Nesses momentos, não ficaria claro se é Leocádio ou Maury a dar as ordens.

Tal história se repetiu em 76 relatos de homens, ex-frequentadores da SBEE, 20 deles encaminhados para o MP de Curitiba. (Segundo a acusação, 48 dos relatos são reconhecidos em cartório e 28 estão no aguardo do MP para poderem falar). Na maioria dos casos, os rapazes pararam de frequentar a casa antes do ápice dos abusos sexuais, mas em alguns casos, chegou-se ao que disseram ser a tara maior do médium, o sexo oral. Alguns também teriam sido forçados a beijá-lo na boca. “Ele me puxava pelo cabelo para forçar o sexo oral”, conta Júlio Cezar Sá Ferreira Filho, hoje empresário de 39 anos, morador de Frisco, no Texas, nos Estados Unidos. Ele teria sido abusado pelo médium dos 15 aos 17 anos.

Na próxima semana, dia 18, acontece a primeira audiência do caso em que o médium é réu por estelionato e violação sexual. As oito primeiras testemunhas, de um total de 45 que o MP de Curitiba já ouviu, irão depor ao juiz. O processo corre na justiça desde 14/08/2018.

“Este tipo de denúncia parece que virou moda, né? E aqui não foi diferente”, diz Ruy Paz, coordenador geral da casa, 64 anos, porta-voz da SBEE na defesa do médium. Ele acredita que os líderes religiosos, de maneira geral, são alvo de acusações porque atraem pessoas de todo tipo, desde as que buscam ajuda até as que buscam prestígio às suas custas. “Raramente alguém fica sozinho com o Dr. Leocádio e, quando fica, é por alguns minutos apenas, para receber alguma orientação particular. Alguns chegaram a dizer que Maury os pediu em casamento, isso tudo beira o ridículo.”

Gladiomar Saad, professora, mãe de Júlio, ouviu o relato do filho em janeiro de 2018, quando foi visitá-lo nos EUA: “Trabalhei na SBEE como voluntária por 25 anos, já tinha percebido que alguns rapazes começavam a frequentar as sessões de ectoplasmia e depois desapareciam, não voltavam.” Ela conta que ficou em estado de choque por alguns dias, mas, assim que retornou ao Brasil, começou a procurar os rapazes em questão e, quando juntou 20 relatos de abuso sexual, procurou o MP.

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Maury no canal no YouTube em que expõe pensamentos sobre espiritismo. Foto: Reprodução/ YouTube

Ela conta que, lá pelas duas da manhã, os garotos dormiam nos sofás da sala de espera, nas macas, nas cadeiras, e Maury mandava chamar um por um. “E nós sabíamos que eles iriam demorar, porque, segundo o espírito do Dr. Leocádio, eram pessoas especiais, que tinham que ajudar o instrumento”, diz. Nesse período, ele mandava os outros membros para as salas mais afastadas da sala dele. “A cada tanto, entrava alguém na sala onde ficávamos concentrados e dizia: ‘Acordem, o Dr. Leocádio está mandando acordar, está precisando de concentração’”, conta Júlio. Ele e a mãe argumentam que o plano era muito bem arquitetado. Chegava ao ponto de interromperem o sono dos rapazes para deixá-los desconcertados, como que sonâmbulos no momento do abuso e não compreenderem direito o que havia acontecido.

“Nunca tivemos qualquer resíduo de conotação sexual envolvido, a casa é muito séria, foi construída com muita dificuldade pelo professor Maury, que recebe o Dr. Leocádio e também outros espíritos”, diz Armando Petrelli, dentista, membro da SBEE, participante das sessões de ectoplasmia há 35 anos . “Quem levou a Gladiomar para a SBEE fui eu. Logo depois, ela se separou do marido, alcoólatra e cocainômano, o pai do Júlio, e se aproximou demais do professor Maury, que deu tudo para ela, tanto é que ela comprou uma chácara ao lado da dele.”

Gladiomar vendeu tudo e se mudou para próximo da casa de Maury. “Maury viu que eu não sabia de nada e que também era uma presa fácil neste sentido, pois era atenciosa com ele, até a roupa dele eu lavava, para você ter ideia”, diz ela. Às sextas-feiras, ela e o atual marido, Leonardo Castilhos, esperavam até às seis horas da manhã para trazê-lo de volta à chácara. “Eu arrumava a cama dele, ajeitávamos as coisas e depois vínhamos para casa.”

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Gladiomar, na ponta da mesa, serve comida para Maury e amigos. Foto: Acervo pessoal

Maury é um dos líderes espirituais mais influentes do Brasil. Atores famosos como Tony Ramos, Christiane Torloni, Beth Goulard, Othon Bastos, entre muitos outros, são membros da SBEE. A atriz Nicete Bruno é vice-presidente da casa. Além deles, há desembargadores, procuradores federais, médicos. Seu advogado, René Dotti, foi um dos encarregados, em Curitiba, da defesa do ex-presidente Lula.

Segundo Gladiomar, há dois médicos irmãos, Dr. Severo Ferreira Ruppel, psiquiatra, e Dra. Maria Lúcia Ruppel, clínica geral, que corroboram com o esquema de Maury: “Estes dois médicos já atenderam pessoas com a queixa abuso sexual, sabem, têm consciência e continuam lá defendendo o Maury”. Outra questão levantada por ela é o fato de que os médicos validam o tratamento recomendado pelo Dr. Leocádio, emitindo receita com CRM sobre as instruções do espírito.

O paciente passa pelo Dr. Leocádio e é encaminhado para os postos dentro da SBEE, os Centros de Orientação à Saúde (COS). Lá existem vários especialistas voluntários, médicos que atendem dentro do campo da medicina. A receita é assinada pelo médico. “Dr. Leocádio passa a orientação, inclusive, de alguns medicamentos, mas deixa o médico conversar com o paciente”, explica Ruy. “O médico de carne e osso é o responsável pela receita, Dr. Leocádio passa as orientações numa folha A4, escreve mensagens, recomenda que a pessoa deve tomar 1,5 litro de água por dia e sugere uma série de coisas para o médico fazer a prescrição.”

“E minha mãe achando que aquilo lá iria ajudar, pois diziam que quem ficasse até às 3 horas na ectoplasmia iria ser re-energizado e teria um dia melhor ainda no trabalho, na escola, os espíritos iriam estar presentes”, conta Júlio. “Começava com grupos de mulheres que ele vinha com o papo de reencarnações para manipulá-las financeiramente e terminava com grupos de garotos que ele ia abusar.”

Defesa de Maury diz que se trata de armação

A defesa argumenta que tudo começou numa reunião em 17 de fevereiro de 2018, fora da SBEE. “O grupo chamou vários membros da SBEE que tem liderança na sociedade, levantou essas acusações e colocou uma condição (isso está gravado e em poder do judiciário e do MP): ‘ou o professor se afasta, ou nós vamos começar a soltar vídeos na internet’”, explica Ruy.

Quem estaria por trás deste plano seria Gladiomar Saad, Leonardo Castilhos e Luiz Vencato, economista que trabalha no mercado financeiro e foi donatário da SBEE. “Júlio foi colocado para fazer o trabalho sujo, soltar vídeos com ameaças na internet”, afirma Ruy Paz. Eles teriam como objetivo transformar a SBEE numa ONG que arrecadaria fundos internacionalmente e tomaria conta do atual patrimônio. “A dona Gladiomar convenceu todos esses rapazes a inventar relatos falsos contra o professor Maury.”

Em entrevista à VICE, Vencato diz que a tese é ridícula. “Um complô para tomar conta de um patrimônio falido, que não me interessa. Eu ajudei a construir e agora está falido. Como o Ruy é conivente com aquele esquema, é melhor para ele achar que há um complô contra o Maury”, explica Luiz Vencato. Ele acredita que Ruy Paz tinha conhecimento dos abusos sexuais, pois participava de todas as sessões de ectoplasmia. “Mas para ele é uma práxis normal abusar das pessoas, deve se satisfazer com o que ele ganha lá dentro, ministrando esses cursos. É um dependente da SBEE”, continua.

Vencato diz ser uma vítima de estelionato do médium paranaense. Em seu depoimento no MP, ele conta que espíritos se manifestavam no médium, Irmã Marina Fidélis, principalmente, para pedir favores financeiros: “’Você precisa ajudar o médium a pagar as contas, pagar o caseiro, precisa consertar a casa do sítio dele, ele tem um problema no ciático, precisa trocar o colchão da cama dele’, dizia. Então, eu depositei todo mês 4 mil reais na conta dele por alguns anos. Entreguei os comprovantes no MP”, conta.

Ao todo, entre doações e o que ele define como charlatanismo e estelionato, Vencato investiu cerca de 2 milhões e 500 mil reais na SBEE. Dr. Leocádio e Irmã Marina Fidélis se manifestavam, diziam que ele era muito importante na vida de Maury, porque numa vida passada os dois teriam se encontrado. “Fiquei sendo participante da vida passada dele, assim como seis outros rapazes que foram vítimas de abuso sexual”. Também foram entregues ao MP de Curitiba escrituras de 12 apartamentos registrados no nome de Maury. “São ganhos ilegais, incompatíveis com o salário dele como professor”, afirma Gladiomar.

A acusação começou a pesquisar a vida do médium e diz ter constatado que sua biografia é uma farsa, uma falácia. “Maury diz que é sobrinho do ex-governador do Paraná Moisés Lupion, e que viveu no Castelo do Batel, isso foi desmentido por sobrinhos de Lupion”, conta Gladiomar.

Recentemente, surgiu a primeira denúncia de abuso sexual de uma mulher, que preferiu não se identificar: “Eu fui criada na primeira creche do Maury, onde ele iniciou o Lar Escola, meu avô era caseiro dele e seu braço direito”. Tinha por volta de cinco anos de idade, Maury, por volta de 40. “Minha avó já havia falecido e minha mãe fazia o serviço da casa para meu avô”.

Numa tarde, estava na creche vendo as crianças brincar. A construção era toda de madeira e tinha um porão, onde ficavam os banheiros. “Eu entrei ali para brincar. Nisso, Maury foi até o banheiro e, quando saiu, perguntou o que eu estava fazendo ali. Então, ele me chamou”. Quando chegou perto dele, ele a pegou e disse: “’Eu posso pegar aqui?’. E foi com a mão na minha genitália. Depois, me deu um beijo, passou aquela língua nojenta na minha boca e eu fiquei apavorada, comecei a chorar e saí correndo.”

A mulher conta que entrou na casa do avô correndo, foi até o quarto e não saiu de lá, morrendo de medo. Um pouco depois, Maury foi até a casa. Como se nada tivesse acontecido, conversou com a mãe e perguntou: “Sua menina está aí?. E minha mãe ainda me chamou para eu conversar com ele. Só espiei do quarto, ele estava na porta conversando com minha mãe e olhou para mim rindo, com aquela cara nojenta dele.”

Ele percebeu que ela não tinha falado nada para a mãe. “No momento do abuso, ele me disse para eu não falar nada para o meu avô, porque se eu falasse, iria levar uma surra”. Depois disso, ela evitou ir até a casa do avô e, quando ia, ficava dentro de casa perto de algum adulto. “Eu acredito que Maury deve ter abusado de muitas crianças ali da creche. Se ele fez isso comigo, neta do braço direito dele, imagino o que ele fazia com as crianças da creche, que ficavam ali período integral?”.

Mais de 500 membros da SBEE se manifestaram em favor de Maury Rodrigues da Cruz. Dizem ter conhecimento das sessões de ectoplasmia e afirmam que não há nada de irregular na prática. Artistas, membros do Magistrado e médicos manifestaram razões particulares e profissionais para não darem entrevista à VICE.

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