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Os filmes da DC têm um problema: seus heróis

A DC tem vários problemas com seus filmes, mas talvez suas ideias antigas sobre “o super-herói” sejam o mais difícil de resolver.

por Noel Ransome; Traduzido por Marina Schnoor
25 Maio 2018, 2:26pm

Imagem: Wikipedia Commons/Reprodução.

Vamos aos fatos. Liga da Justiça rendeu menos bilheteria no seu fim de semana de estreia que os dois primeiros filmes dos Vingadores (e com certeza menos que o mais recente) e Batman vs Superman: A Origem da Justiça. O Universo Estendido da DC está com problemas agora. E esses problemas não são grandes nomes, sets ambiciosos ou orçamento pra efeitos especiais, e a DC sabe disso.

É fácil culpar diretores ou roteiros confusos pela série histórica de filmes objetivamente ruins da DC — só Mulher-Maravilha conseguiu algum respeito da crítica desde que a trilogia do Cavaleiro Negro de Christopher Nolan acabou — mas não vamos esquecer que a DC é uma empresa obviamente perdida entre duas eras de heroísmo. O período antiquado da era de ouro dos quadrinhos da DC, e a guinada atual do Universo Estendido DC, cujos filmes precisam de uma bela plástica na esperança de atrair gente como eu.

Veja a única melhor e pior sequência de Batman vs Superman, por exemplo — um filme tão bosta que só assisto para achar mais coisa pra odiar. Batman está prestes a empalar o Superman quando o kriptoniano murmura: “Salve... a Martha.” Bats responde com “Por que você disse esse nome?” E ele parece realmente surpreso e tal.

Aí a Lois, toda Lois, aparece e grita “É o nome da mãe dele!” Horas de planos assassinos e conflitos de interesse destruídos por uma conversinha kumbaya (as mães deles têm o mesmo nome).

A construção para esse momento, claro, é a história toda do Superman causado uma penca de danos colaterais numa cidade em O Homem de Aço de 2013. O Batman tá puto com isso, então dá várias merdas que levam até essa cena besta.

Sim, é uma cena ruim demais; a execução é tão brega que fica engraçado, mas também é legal. Fora a coisa toda de conflito de poderes, cada personagem mostra falhas humanas nessa cena. Batman percebendo que meio paranoico e louco. E Superman percebe que seus altos padrões morais inumanos o colocaram em problemas bastante humanos.

Tem um motivo para esses momentos de personagens imperfeitos serem tão atraentes. Torcemos pelas Arya Starks, Walter Whites e Omar Littles, que podem matar, mas isso vem de motivações com que é possível se identificar de certa maneira. Sim, eles são vilões descarados em alguns momentos, mas são nas falhas deles que vemos que eles são humanos; aquela coisinha especial que a Marvel parece ter “sacado” lá nos anos 60 e 70.

Stan Lee e seu corroteirista Jack Kirby estavam numa missão para repaginar algumas antigas convenções dos quadrinhos em 1961, lideradas pela DC. O momento era de Guerra Fria e movimentos pelos direitos civis. Então os super-heróis bonitões de corpos esbeltos e cabelos perfeitos foram substituídos por desajustados problemáticos como Deadpool e Wolverine. Eles eram heróis calejados e marcados, com quem era mais fácil de se identificar para mim como fã.

Comparativamente, não posso dizer o mesmo de muita coisa do universo da DC, e por extensão, dos filmes da DC, com heróis pinçados da era dos anos 30 e 40. Mulher-Maravilha e Superman eram ídolos otimistas para a geração da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Por natureza, suas aventuras falavam de encarnações perfeitas da lei, ordem e valores mainstream do americano ideal. E isso significa que personagens como o Superman — bom, imaculado, de olhos azuis, aquele cabelinho — não lembravam ninguém que eu conhecia, e ainda não conheço.

Quando Zack Snyder pegou o projeto do Homem de Aço, ele tentou esconder essas questões do Superman. Tinha aquela coisa toda da relação dele com a humanidade e sua preocupação com a Lois. Mas colocando o Superman na frente de um conflito com seres tão poderosos quanto ele — a única solução da Terra para evitar a destruição total — Snyder ainda conseguiu fazer o contrário. Em vez de um herói falho, ele levou a diante aquela coisa toda de salvador perfeito — ainda aquele exemplo simbólico e inspirador para todo mundo em volta dele.

E tudo que há para dizer é que Snyder não precisava fazer isso sob qualquer lei intransponível do personagem. A DC está familiarizada com mudanças de personalidade se o período pede. Tipo, não há dúvida que o herói mais falho da DC continua sendo sua bilheteria de maior sucesso nos últimos 30 anos – tanto nos sucessos do Batman de Tim Burton (Batman e Batman: O Retorno) e na visão de Christopher Nolan. Os dois diretores investiram num personagem infeliz, obcecado com a morte da família. Esse foi um herói que sofreu uma modernização significativa nos anos 80 – graças aos quadrinhos de Frank Miller – falando mais sobre um herói com falhas profundas, e assim mais gostável.

Claro, com os anos, roteiristas de quadrinhos tomaram suas liberdades com a linha mais realista de personagens da DC (por exemplo, Gotham Central). Mas a dicotomia central do universo de filmes da DC ainda está naquela fase de clareza cristal – sempre evitando o lado sujo de seus ícones. Você não vê isso com heróis da Marvel, como o babaca pretensioso Tony Stark, o egoísta Thor e o adolescente desajeitado Homem-Aranha.

Roteiros sólidos e boas escolhas de direção ajudaram a Marvel como qualquer outra empresa antes disso, mas as razões subjacentes para o Marvelverso ter se saído tão bem voltam aos pontos acima. É possível se identificar com seus personagens. Eles têm aquela coisa que permite que eles sejam o centro de seu próprio universo, sem a necessidade de um grande conflito exterior para colocar as coisas em movimento (o que, sendo justo, tem acontecido com frequência). É por isso que uma Guerra Civil entre os heróis da Marvel era algo crível; dez anos de ideologias, egos e falhas que meio que representam minhas próprias amizades perdidas e vícios. E quando as mortes inevitáveis vierem no Vingadores: Guerra Infinita, elas serão sentidas porque nos importamos com esses personagens.

Se a DC quer ter apelo com um público maior fora das páginas dos quadrinhos (ou seja, fazer filmes lucrativos), ela precisa retrabalhar suas ideias sobre brevidade e heroísmo. Não estamos mais nos anos 40. Não precisamos de heróis perfeitos. Precisamos das lutas humanas. Precisamos ver o Superman encarar as realidades de poder ilimitado e corrupção que vem com ele (como na série Injustice). Colocado em teste, ele é tão bem ajustado quanto parece? Os personagens da DC precisam lutar com seus fracassos. Aquele momento que eles se atrasam para salvar o dia. Que tipo de depressão vem com essas realidades? Seria bom prestar mais atenção em seus conflitos internos — um filme por vez, não um grosso de seus feitos.

Como a Marvel conseguiu fazer, é preciso mostrar como os heróis podem ser incríveis apesar de sua humanidade. Precisamos ver como heróis são capazes do bem e do mal, e são inseguros como qualquer pessoa comum — e por sua vez, reconhecer que o heroísmo pode existir em todos nós. Dê a eles aquelas falhas, a falta de filtro a bagagem emocional, e permita que eles façam o que têm que fazer de qualquer jeito. Esse é o tipo de coisa que sempre vou engolir e acho que o público também.

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