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reportagem

Por que vitimismo negro não existe

Parte da população branca brasileira tenta deslegitimar o racismo com a falsa ideia da meritocracia num país de herança escravocrata.

por Amauri Eugênio Jr.
11 Dezembro 2017, 10:00am

Muita gente negra já ouviu frases como “Você é negro(a) de alma branca” e “Você é um(a) negro(a) de traços bonitos”, ou teve de aturar alguém tocando o cabelo, pois o achava exótico. Ouvir que não parece ser profissional em certa atividade intelectual ou em um cargo de alto escalão também são fatos constantes na vida de negros. Mas quem reclama disso é considerado vitimista e tem de ouvir um monólogo sobre o primo de um amigo do vizinho que era negro e cresceu por mérito próprio.

“Já ouvi de uma professora na escola que eu era uma negra de alma branca por causa do meu comportamento em sala de aula, além de que sou bonita por ter traços finos e não ter ‘nariz de preto’. Certa vez, uma mulher X virou para trás, em uma fila, e me disse que o meu cabelo era legal, pois estava na moda.” — Leandra Silva*, 19.

Os exemplos do parágrafo acima são formas de racismo. Segundo o Atlas da Violência 2017, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), porém, pessoas negras têm 23,5% mais chances de morrer do que membros de demais etnias. A escolaridade não equipara renda entre negros e brancos — negros ganham 85% do salário de uma pessoa branca em caso de ensino médio completo, e 65% em caso de nível superior. Já as mulheres negras têm salários, em média, 59% menores do que homens brancos.

Não são poucos os exemplos que mostram o racismo como uma constante no Brasil. No último dia 2 de dezembro, por exemplo, uma agência fez um post no Facebook com uma montagem de uma foto de Jim Carrey antes e depois de entrar no setor de estoque. No post do “depois”, Carrey aparece com blackface e cabelo crespo. O meme racista recebeu um sem número de questionamentos a ponto de a empresa retirar o post do ar e se retratar publicamente negando que a publicação teria sido racista.

“Um cara veio de vermelho, outro de azul, mais um de branco e outro de verde. Comentário: ‘Está todo mundo hoje de Power Ranger, menos os Diego*!’ Ele é o ranger preto.’ Estou usando [camisa] vinho e isso aconteceu hoje [5 de dezembro] na firma.” — Diego Moreira*, 30.

Há quem considere normal que negros sofram com a violência urbana e vivam à margem, enquanto causa estranheza vê-los em universidades públicas ou em cargos de chefia, por exemplo. Para Juarez Xavier, professor de jornalismo da Unesp e coordenador do NUPE (Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão) da mesma universidade, a ideia da “‘democracia racial’ reduziu a reação política e social contra o racismo institucional”. O pesquisador explica: “Quando criticavam o racismo no Brasil, dizia-se que não havia [preconceito] como nos EUA – como se a democracia racial no Brasil não tivesse constituído o racismo institucional. Mas quando passou a haver dados [estatísticos] a partir dos anos 1980, eles mostraram que, independentemente do discurso de democracia racial, há bloqueio do acesso do negro ao exercício de direitos sociais, como educação, saúde e trabalho — o que atravessa a máquina do Estado e se retroalimenta com a máquina ideológica que o favorece.”

Mesmo com a gritante desigualdade entre negros e brancos no país, políticas como cotas raciais em vestibulares e concursos públicos são criticadas por suposto favorecimento à população negra. “O ideal seria que as medidas tivessem sido adotado lá atrás. Vemos a tentativa de criação de políticas para inclusão da população negra na sociedade e o que se fala sobre elas é uma argumentação falaciosa. Não há superação da desigualdade sem intervenção do Estado”, acredita Xavier.

“Hoje [5 de dezembro] um cara me disse que o meu cabelo é estranho e parecia que eu havia tomado um choque – ele achou esse comentário muito legal. E há quem diga: ‘Você não é negra, é moreninha’.” — Daisy Coelho, 30.

A proporção de negros em postos estratégicos no Brasil está longe de ser igualitária. Dados mostram que 43 entre 513 se reconhecem desse modo na Câmara dos Deputados. Ainda, 12,8% dos jovens negros estão no ensino superior, enquanto 26,5% brancos estão no mesmo patamar. “Não é só no capital político que há sub-representação do negro: todos [os setores] têm ausência brutal da população negra e o que choca é essa assimetria no Brasil. É necessário haver ações estratégicas para reivindicar espaços nas universidades públicas. A nossa política é para a universalização do acesso de negros a esses capitais.”

Há alguns dias, a atriz Taís Araújo foi ridicularizada após dizer que a cor do filho dela fazia pessoas mudarem de calçada. Na mesma semana, Titi, filha dos globais Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, sofreu ataques racistas. Em todos os casos, a pessoa negra foi ridicularizada por falar sobre racismo, enquanto um indivíduo branco ganhou apoio pelo mesmo motivo.

“Desde que fiz tranças, o que é algo recente, sempre ouço que pareço alguma artista. Não haveria problema nisso se não fosse por acharem que todo negro se parece ou é irmão. Além disso, há diversos pedidos para tocarem o meu cabelo e acho isso um saco.” — Thayse Lopes, 30.

Esses fatos exemplificam a autoridade de fala — a opinião de alguém branco costuma ser sempre a mais respeitada em qualquer contexto. “Há pessoas que têm procurado tirar expressões racistas da fala. Estamos em uma sociedade submersa na prática cultural da escravidão e é de se supor que está impregnada de preconceitos”, destaca Xavier. “Quando há setores da sociedade que aprendem a lidar com a diversidade e erram tentando aprender, vale o processo educativo. Quando se lida com outro fascista, que retroalimenta a fala preconceituosa, isso é crime e a pessoa deve responder na Justiça”, finaliza o professor de jornalismo da Unesp.

*Alguns nomes foram modificados para preservar a identidade dos personagens.

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