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Registrou, Já Era

Tivemos acesso aos arquivos do processo que investigou a morte de Sabotage, e vamos compartilhar aqui trechos recheados de fumaça, sangue, falas desencontradas e procedimentos duvidosos.

A morte do Sabotage, na real, é um assassinato que guarda semelhanças com outras incontáveis “dedadas” que ocorrem no centro do triângulo pobreza/metrópole/tráfico de drogas – inclusive com o costumeiro corpo-mole dos gambés. Tivemos acesso aos arquivos do processo que investigou o autor da morte de Sabotage, e vamos compartilhar aqui trechos recheados de fumaça, sangue, falas desencontradas e procedimentos duvidosos.

Um dia após ter sido alvo de quatro pipocos certeiros, em 24 de janeiro de 2003, o fim do rapper foi motivo de festa na Favela da Paz, zona sul de São Paulo.

“Eu sei que no dia seguinte nós íamos ao velório do ‘Sabotagem’ (sic), e o ‘Derlei’, às três horas da tarde, na frente do bloco 23 com a quadra de futebol, ele disse, ‘derrubei o cara’. Aí, ele voltou a falar, ‘ele vai cantar com São Pedro’. (...) Soltou dois fogos para cima.”

O relato acima foi presenciado por uma das testemunhas-chave do processo que levou a Justiça de São Paulo a condenar o notório traficante da favela Sirlei Menezes da Silva [ou “Derlei”, como é conhecido na área], 29, a 14 anos de prisão em julho de 2010, acusado de assassinar o cantor de rap Mauro Mateus dos Santos -- que também era chamado de “Maurinho” pelos parças. A dedurada cabal sobre a festança foi feita em sigilo, mas o que se sabe é que o cagueta era pai de um dos mortos na rede de tráfico da qual Sabota e Sirlei faziam parte.

E foi na base do disse-me-disse que a investigação sobre a morte de um dos mais importantes rappers do Brasil foi sendo tocada.

Perícia? Até rolou, mas sabe como é... Volta e meia faltam legistas e outros profissionais. Investigação do local do crime? A Polícia Civil fez muitas diligências, nada, porém, que fugisse à praxe dos interrogatórios corriqueiros com quem mora no lugar. Uma confissão de Sirlei no DHPP [Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa], uma semana após a sua prisão, com testemunhas que foram escolhidas a esmo na delegacia? Tem também. Acompanhem:

Sabotage foi morto no caminho que fazia para levar a sua esposa, Maria Dalva da Rocha Viana, ao trabalho na Rua Miguel Stéfano, 100, no Jardim da Saúde. O horário de entrada no emprego de Dalva era 5h30. Segundo o laudo pericial, o rapper tomou quatro tiros às 5h50, na Avenida Prof. Abraão de Morais, 1877, próximo ao Shopping Plaza Sul.

Dalva afirma que não presenciou o crime, já que ele teria sido morto após tê-la deixado no trabalho. Os moradores do local onde Sabota caiu, porém, afirmam ter ouvido uma mulher gritar “ajuda ele, ajuda ele” algumas vezes após o som dos disparos. Outra testemunha em um posto de gasolina afirmou ter visto uma mulher correr até um orelhão para chamar a polícia. Com a confissão do Sirlei, a investigação deixou toda essa treta de fora. E ficou por isso mesmo.

No local da morte foram encontrados três projéteis, uma touca-ninja e uma mochila que Sabotage carregava na hora do crime, com roupas e alguns mini-discs que os boys curtiam na época, e que só rolavam em MD players, uma espécie de pré-mp3 player.

Na mochila não foi encontrado nenhum tocador para os MDs, e a polícia sequer examinou os objetos. Não foi investigado também se nela havia alguma outra coisa antes dos tiros. Sequer há uma foto da mochila no processo. Trocando em miúdos, a hipótese de roubo foi descartada muito rapidamente.

Você sabe o que faz um papiloscopista? Em tese, esse profissional trabalha com impressões digitais deixadas em cenas do crime, vestígios papiloscópicos, na linguagem técnica. Resumindo, é aquele que tira as impressões, e depois identifica quem passou por ali. No caso da morte do Sabotage, a papiloscopista foi além, chegando até a acompanhar a equipe de investigação da equipe “C” Sul do DHPP. O advogado de defesa estranhou o fato, que é mesmo estranho.

Em 1998, de acordo com a esposa de Sabotage, a família toda se mandou da Favela da Paz, onde ele atuava como traficante. Foi nessa época que começou a escalada de mortes entre as pessoas ligadas à rede de tráfico da qual faziam parte o rapper e o seu assassino (que, de acordo com relatos de testemunhas e da polícia, foi chefe do movimento por lá).

Sabota migrou para a Favela do Boqueirão, Jardim Saúde (também na zona sul). Segundo o investigador que cuidou do caso, Maurinho, que tentava se livrar do crime e já dava os primeiros voos longos no rap, ficou sob os cuidados do tráfico local. “Cunha” (ou “Punha”), “Siri” (ou “Riri”) e “Salomão”, de acordo com a polícia, deram segurança ao rapper, que foi aos poucos saindo do crime e se lançando como o cantor que viemos a conhecer na virada dos anos 2000.

Mas em inúmeros trechos do processo, cartas anônimas e testemunhos duvidosos apontaram o próprio Salomão como autor do crime. Nos relatos, o traficante estaria tendo um caso com a esposa de Sabota. Salomão acabou morrendo pouco tempo depois da morte de Mauro, o que levou a polícia a crer que a teoria era uma cortina de fumaça para despistar a investigação.

A prisão de Sirlei ocorreu em 14 de dezembro de 2004, na própria residência do então acusado, em Suzano, Grande SP. Na ocasião, ele “afirma categoricamente” que não teve participação no crime e que na data estava com a sua mãe -- em estado terminal já naquela época -- no Hospital do Controle do Câncer, na região do Brás. Nesse primeiro depoimento, ele afirma que o apontaram como assassino do rapper “por raiva, inimizade, ou tão somente o fato de ser cunhado de ‘Bocão’” (outro participante do tráfico da Favela da Paz e que foi assassinado pouco tempo depois de Sabotage).

Corta. Oito dias depois, na mesma 1ª Delegacia do DHPP, mas com outro delegado, Sirlei “confessa espontaneamente que realmente ‘matou’ a vítima que conhecia pelo vulgo de ‘Sabotage’; que o indiciado confessa também que seu cunhado conhecido como ‘Raí e ‘Bocão’ auxiliou-o na prática do crime”. Além do assassinato, Sirlei também confessa sua participação no tráfico da favela e detalha o esquema com os parceiros e a eventual rixa que levou à saída de Sabota da Favela da Paz.

Deixamos o último e mais suculento detalhe para o fim: na confissão, Sirlei conta que utilizou uma pistola Taurus .380 no crime. Segundo o exame de balística, os cartuchos eram do famigerado e certeiro tres-oitão, o calibre 38. Esse “pequeno” detalhe também não foi investigado a fundo.