O Frenesi Polirrítmico, Primitivo e Demente do Hablan por La Espalda

Há 20 anos externando os demônios internos na forma de um tipo de música que mistura hardcore com candomblé e psicodelia, a banda Uruguaia comenta seu quinto álbum, ‘Sangre’.

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17 Abril 2015, 2:00pm


Foto por: Ernesto Ryan

Um dos shows mais catárticos e ensandecidos que já tive a chance de assistir em minhas andanças pelo underground foi o desses doidos urugaios do Hablan por La Espalda. Aquilo era mais do que uma banda punk fazendo uma baguncinha no palco. Era uma verdadeira entrega, um rito tribal, psicotrópico, transcendental, lascivo e libertário. Isso já faz uma cara, foi em 2001. Na época, eles se aventuravam num tipo de som que vagava entre o hardcore, a psicodelia e o pós-punk. E esses elementos continuam presentes na música feita por Valentín Guerreros (guitarra), Martín Solana aka Tuka (guitarra), Fermín Solana aka Paracetamol (voz), Victor Borrás (baixo), Charly Priario (batería), Ismael Varela aka Sr. Pharaon (percussão e arranjos) e Andrés Varela (teclados). O lance é que, em 20 anos de banda e cinco álbuns depois, o som do HPLE foi ficando cada vez mais expansivo, acolhendo influências tão diversas e entrecortadas como as linhas do metrô de Nova York.

Sangre, o quinto LP da banda que passa a ser distribuído no Brasil pela Läjä Records a partir deste sábado (18), pode ser descrito como uma síntese de suas distintas fases. Há traços do candomblé mais uma vez, como em Macumba, trabalho anterior lançado em 2009, mas também há punk, hardcore, psicodelia e muita emoção. Nas palavras de Fermín, “é o Hablan por La Espalda compreendendo a si mesmo, buscando exibir e potencializar suas virtudes, sua beleza. É como se esse animal primitivo e demente se prestasse a dizer o que sempre quis dizer e, para fazê-lo, se vestisse o mais elegante possível. É como se por entre as roupas alinhadas lhe escapasse as tripas para fora.”

Taí o negócio que eu mais acho style no HPLE. Sabe aquela tradição entre uns caras do hardcore brasileiro em formar tipo umas quatro bandas diferentes? Uma pra tocar um som mais emo/melódico, outra pra tocar um som mais grind, outra pra tocar um negócio mais “Madball” e uma outra ainda pra fazer uma parada meio youth crew? Então, com o Hablan não rola esse planejamento estético. Tudo que eles têm vontade de fazer, fazem dentro da mesma banda. O HPLE é um organismo vivo, mutante, em que a única coisa que permanece intacta é o espírito, a doença. É impossível saber o que o conjunto será dentro de mais cinco anos.

No começo do projeto, as músicas eram tipicamente hardcore, cheias de singalongs, passagens moshadas, oitavadas... Alguns dos integrantes eram straight edge, veganos, e as letras, panfletárias, versavam sobre temas como sexismo, liberdades individuais e anarquia. Com o passar do tempo, a banda foi afetada por novas influências que lhe cruzaram o caminho, e as canções continuaram igualmente apaixonadas, porém menos estruturadas, importando ingredientes do metal, da velha escola do emo, do pós-hardcore, do indie, do classic rock, do stoner, do garage, do dub e do reggae, da cumbia peruana, do candomblé e de dezenas de outros estilos incorporados em precisas medidas, não integralmente.

Nada mais honesto da perspectiva da criação artística para um grupo vindo de Montevidéu. A própria América Latina, afinal, é uma nação feita aos cacos, uma cultura que engloba várias identidades ao mesmo tempo, um mundo onde cabem todos os mundos. “A estética mudou completamente, porque estamos nessa banda faz 20 anos, crescemos com ela e dentro dela.”, comenta Fermín a respeito. “E vamos continuar mudando. À medida em que liberamos as músicas, aparece todo tipo de referências nelas. Não é que temos a pretensão em soar raros, mas que confiamos em nosso critério e em tudo o que nos alimenta. Por isso, cremos que se você come coisas que são boas para o seu organismo, bem refinadas, o vômito será um vômito refinado.”

Noisey: Em 20 anos de banda, quais foram as coisas mais loucas que já aconteceram com vocês? Alguma situação inusitada, perigosa, engraçada, pra contar pros leitores?
Fermín Solana: O lance mais insano que já nos aconteceu foi em São Paulo, no Hangar 110. Estávamos tocando em um mini festival e o público começou a subir no palco. Os seguranças ficaram putos com isso e começaram a tirar as pessoas e a tentar fazer a banda parar de tocar. Um deles apontou uma pistola ao baterista da época, o Diego Annuitti, que desceu correndo do palco, mais pálido do que já era. Aí meu irmão, Tuka, o guitarrista, que não tinha notado o que aconteceu, assumiu a bateria e tocamos “I Wanna be Your Dog” numa versão bem caótica e o pessoal enlouqueceu. Outra situação tensa foi em Koln, na Alemanha, quando tivemos um show cancelado porque ficamos pelados, em um squat controlado por punks feministas que desligaram o som no meio da atuação e nos expulsaram do lugar. Durante um tempo, situações como essas foram bastante recorrentes nas apresentações do grupo, ao ponto em que sofremos boicote por parte de vários picos de shows de Montevidéu. Com o passar dos anos, a música falou mais alto e nos devolveu aos cenários daqui.

Quando a banda começou, vocês já tinham uma vivência no cenário underground do Uruguai? De que segmentos vocês vieram, do punk, do metal?
Sim, éramos bem novos quando começamos com o HPLE, tínhamos entre 14 e 17 anos. Porém, todos nós já frequentávamos há algum tempo os shows no underground montevideano, editando fanzines e acompanhando muitas bandas de metal e punk (uma das primeiras que vimos aqui foi o Ratos de Porão). Foi quando conhecemos o hardcore e, sobretudo, algumas bandas do hardcore de Buenos Aires, que naqueles anos (meados dos noventa), cruzaram o Rio de la Plata e nos causaram uma identificação definitiva com o som e a estética. Bandas lendárias como No Demuestra Interés, Buscando Otra Diversión ou Fun People, pioneiros desse estilo de vida. Valentín Guerreros, o outro guitarrista, foi criado em São Paulo, onde sua família se instalou, e voltou ao Uruguai em 1995, quando entrou no HPLE. Ele também já trouxera do Brasil a influência do Personal Choice e outras bandas locais do gênero.

De onde vem o nome "Hablan por La Espalda"? Sei o que o termo quer dizer, mas existe alguma história específica embasando essa ideia?
Quando começamos com o grupo, havia pessoas que nos julgavam porque diziam que éramos de família abastada e nos fazíamos de rebeldes. Ficamos sabendo disso por parte de outros amigos, que fizeram o rumor chegar até nós. No entanto esses indivíduos que falavam pelas costas nunca tiveram a moral de falar na nossa cara. Ainda hoje tem muita gente que fala por trás. Daí o nome Hablan por La Espalda (Falam Pelas Costas).


Foto por: Ernesto Ryan

Como vocês tiveram essa ideia de misturar rock com candomblé, hardcore e psicodelia? Quais são as influências do Hablan dentro dessas vertentes?
Sempre fomos muito fanáticos por todo tipo de música, investigando, escutando, colecionando. Vários na banda colecionam vinis, por exemplo. Em algum momento dessa busca eterna, conhecemos algumas bandas antigas do Uruguai, como Totem ou El Kinto, que foram as criadoras de um tipo de som conhecido como candomblé beat nos anos setenta. E, 40 anos depois, elas nos fizeram a cabeça. Isso coincidiu com o fato de vários integrantes da banda começarem a tocar tambor em blocos de tambores de bairro, uma tradição típica da cultura bairrista em nossa cidade. Com passar dos anos, creio que as pessoas vão se conectando cada vez mais com as raízes do lugar em que vivem. Nos pareceu natural incorporar o candomblé, um som ancestral, físico, litúrgico, que eleva o rock como nós o interpretamos, em busca de hipnotizar, causar alucinação, provocar um efeito narcótico. Quando começamos com isso, teve gente que se surpreendeu porque tinha outra ideia do HPLE, como uma banda quase gringa. Só que internamente, para nós isso se deu como um processo lógico, em razão do que estava acontecendo em nossas vidas, inclusive nas ruas onde estávamos vivendo.

O Hablan por La Espalda é uma banda com uma mensagem política? Do que falam as letras de vocês?
HPLE é uma banda com uma mensagem política no sentido substancial do termo, de que queremos afetar as vidas das pessoas que nos escutam e inspirá-las de modo que elas sejam capazes de modificar sua existência, assumir o controle de suas decisões, aceitar sua loucura e acreditarem em seu próprio Hablan por La Espalda, mesmo que seja na forma de um restaurante, uma publicação, uma equipe de futebol bizarra, um estudo de arquitetos macumbeiros. Queremos tomar a cidade com um exército de mutantes.

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No descritivo do Bandcamp vocês dizem que a filosofia desse novo álbum, Sangre, foi inspirada por dramáticas circunstâncias atravessadas pelos integrantes da banda nos anos de 2012 e 2013. Do que se trata exatamente?
No fim de 2012, minha mãe, que é também a mãe do meu irmão Tuka, guitarrista, sofreu um problema gravíssimo de saúde que a pôs no limite entre a vida e a morte, durante meses. Isso repercutiu não só na alma da família, mas da banda toda. Hoje podemos agradecer que nossa mãe esteja viva graças a sua coragem e luta, assim como também à fé e ao apoio de todos. Sangre versa sobre subexistir, sobre pais e filhos, irmandade, amizade, subir e cair, e subir de novo, sobre esse rio de vivências vermelhas e sagradas que nos atravessa desde que nascemos, a maior, a única das heranças.


Essa é das antigas, clicada por Pedro Luque para a capa do estreante 'Le Petit Detail Qui Change Tout' (2002).

Com que tipo de bandas e em que circuito vocês costumam se apresentar aí no Uruguai? O Hablan tem um público grande no país? Como anda a cena daí atualmente?
O HPLE tem um público fiel que enche todos os lugares onde tocamos. A maioria das vezes, compartilhamos o palco com bandas amigas. Montevidéu é uma cidade pequena, e em proporção está cheia de grupos de todos os estilos, sobretudo de estilos em torno do rock. E todos nós nos conhecemos, somos amigos, não competimos nem há rivalidades, buscamos nos apoiar mutuamente.

Quais as memórias mais marcantes e as influências que vocês têm do Brasil?
Meus avós moravam em Pelotas, Rio Grande do Sul, Valentín é quase paulista e Varela, nosso tecladista, surfou no Brasil por toda a adolescência. Além disso, a banda já tocou muito por aí. Por isso, uma vez no blog da banda chegamos a listar as seguintes influências do Brasil no HPLE:

Xou da Xuxa. Futebol de botão. Bizz. Chuy. Bis Lacta. Sepultura. Os Snorkels. GiJoe. Elma Chips. Ratos de Porão. Biscoitos São Luiz. Bombas SC. Skateboarding. Bandeirantes. Milho verde. Quadrinhos. Tabacarias. Estrada. Rock Brigade. São Paulo. Leite condensado. Sucos & Batidas. He-Man. Transformers. Coração de galinha. Buffets. Titãs. Os Mutantes. Mini Fórmula1. Guaraná. Grêmio. Mergulho. Camarão palito. Submarino Amarelo. Maconha. Caipirinha. Praia. Revista Playboy. Personal Choice. Bezerra da Silva. Vitória/Espírito Santo. Cidade de Deus. Futebol. Surf. Florianópolis. X-bacon. Brusque. Rock in Rio 2. Cachorro-quente. Garoto. Maracujá. Galeto’s. Sanduíche de pernil. Läjä Records. Galeria do Rock. Feliz Natal. Morros. Angélica. Curitiba hardcore. Garotos Podres. Revista Placar. Mergulho. Headbanger’s Ball. Rodoviárias. Rua Augusta. Cachaça. Lança-perfume.

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